BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” recorda-nos um actor influente chamado Mario Pereira

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” recorda-nos um actor influente chamado Mario Pereira

In memoriam
Mario Pereira nasceu no Barreiro em 12 de Maio de 1934 e faleceu na Amadora (Hospital Amadora/Sintra) em 14 de Setembro de 1996. Foi um grande actor do Teatro e Cinema portugueses

O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” recorda-nos um actor influente chamado Mario Pereira 

"No Palco da Saudade"

Texto inédito e integral de Salvador Santos
Mario Pereira em "Vidas de Sal"

MÁRIO PEREIRA 

Nascido no Barreiro, filho de um operário ferroviário, começou muito cedo no teatro amador a deambular por terras da margem sul do Tejo. Aconselhado pelos seus pares mais velhos, que reconheceram em si qualidades incomuns, inscreveu-se no Conservatório Nacional e aos vinte e um anos concluiu o curso de arte dramática com distinção. Ainda enquanto aluno, foi participando em espetáculos do Grupo Cénico da Mocidade Portuguesa até ser convidado a integrar o Teatro do Gerifalto.


Com esta estrutura dirigida pelo poeta António Manuel Couto Viana, vocacionada para o teatro infantil, estreou-se na rádio e experimentou também pela primeira vez a televisão, onde acabaria por conquistar grande popularidade sobretudo devido à sua voz quente e melodiosa e à bonita figura de galã. Mas ele não era apenas um homem atraente.

Mário Pereira era um actor de grandes recursos expressivos e interpretativos, que construiu uma carreira admiravelmente digna, na qual tanto o público como os camaradas de profissão souberam vislumbrar um exemplo merecedor do maior respeito e admiração. Dedicado como poucos à sua profissão, ele fazia com o mesmo entusiasmo e a mesma competência tanto um grande clássico, como uma comédia ligeira ou um texto marcado pelo conceito da modernidade, bastando para tal que identificasse nele valores literários, teatrais, intelectuais, sociais ou humanos que merecessem o seu engajamento, e que a composição da personagem constituísse para si um desafio e uma alegria.

Ninguém estranhou, por isso, que fosse um dos primeiros atores a serem convidados a integrar o elenco residente do Teatro D. Maria II após a sua recuperação. Antes de ingressar no Dona Maria, em 1978, Mário Pereira passou pelas mais importantes companhias, contracenando com os maiores atores e atrizes do seu tempo. Fez, por exemplo, “Vêm aí os Palhaços” com Raúl Solnado, na empresa de Vasco Morgado, onde voltou por mais três vezes, uma das quais para interpretar “Quem Tem Medo de Virginia Woolf” ao lado de Laura Alves.

Colaborou com o Teatro-Estúdio de Lisboa de Luzia Maria Martins, onde interpretou, entre muitas peças, “O Escritório” com Helena Felix. Participou no TEC, na tragédia “Fedra” com Eunice Muñoz. E protagonizou “A Relíquia” ao lado de Elvira Velez, na companhia de teatro da RTP, peça que lhe valeu o Prémio do Melhor Actor no Festival de Outono, em Madrid. Antes daquela importante distinção internacional, já Mário Pereira tinha conquistado o Prémio de Melhor Ator no teatro entre portas com as peças “O Príncipe de Omburgo” de Keist e “A Rainha e Os Revolucionários” de Ugo Betti.

O mesmo sucedera antes, mas no cinema, com a sua extraordinária interpretação no filme “A Luz Vem do Alto” do realizador Henrique Campos. A sétima arte foi, aliás, um dos territórios artísticos onde o ator deixou grandes marcas, como foi o caso, por exemplo, da sua prestação no filme “O Crime da Aldeia Velha” de Manuel Guimarães, ainda hoje considerado como uma das mais bem-sucedidas aproximações do novo cinema português às estéticas neorrealistas que dominavam a Europa nos anos 1960.

Durante a gravação de um folhetim radiofónico na Antena 1 (EN): Vêem-se Vasco de Lima Couto, Pedro Novais, Mario Pereira e Paulo Renato

A rádio e a televisão (onde deu voz a Frollo, em “O Corcunda de Notre Dame”, uma das personagens mais marcantes dos filmes de animação dobrados em português) também beneficiaram da colaboração de Mário Pereira, mas o teatro foi sempre a sua grande paixão. Esta sua paixão pela arte de Talma só não foi superior à força com que defendia as suas grandes convicções sociais e políticas, norteado pelo sonho da construção de uma sociedade mais justa e equilibrada no seu país. Militou, por isso, no Partido Comunista, onde foi construindo um enorme amor pelo Alentejo.

Consciente da dificuldade do acesso da população alentejana às artes e à cultura diligenciou, em 1983, junto da direção do Teatro Nacional D. Maria II autorização para que a sua companhia se deslocasse a vários pontos do Alentejo, cobrando apenas uma verba simbólica. E foi assim que muita gente do interior alentejano assistiu pela primeira vez a uma peça de teatro ao vivo. Com a dedicação de atores e técnicos, o espetáculo “Longa Viagem Para a Noite” de Eugene O’Neil, onde pontificavam Rogério Paulo e Carlos Daniel, entre muitos outros, foi representado em teatros pouco dignos desse nome e em salas com escassíssimas condições para a prática cénica, como celeiros, coletividades e casas do povo.

Filme "O Trigo e o Joio"

Foi nesta digressão da companhia do Teatro Nacional de Lisboa que se concretizou a ideia, por iniciativa de Mário Pereira, de dar o nome da atriz Eunice Muñoz a uma rua da Amareleja, freguesia onde ela nasceu há quase 85 anos. Para aferir da importância de Mário Pereira no panorama cultural do período em que viveu, basta debruçarmo-nos, com alguma atenção e seriedade, sobre o que ficou para a história em texto, fotografia e na memória daqueles que com ele tiveram o privilégio de conviver.

Mario Pereira e Fernanda Montenegro

A última memória que nos ficou deste grande ator foi o exemplo de profissionalismo mais uma vez por ele demonstrado quando rodou a telenovela “Vidas de Sal”. Já muito doente e quase sem forças, vencido por um cancro que o minava há largos meses, Mário Pereira não faltou a um único dia de gravações, exibindo o mesmo empenho e a mesma alegria que sempre demonstrou quando representava. 

Salvador Santos

Teatro Nacional de  São João. Porto
Porto. 2103. Julho. 14

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !