BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda o grande actor Augusto de Figueiredo

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda o grande actor Augusto de Figueiredo

In memoriam
Augusto Figueiredo nasceu na Covilhã em 13 de Fevereiro de 1910 e faleceu em Lisboa em 15 de Junho de 1981.
Foi um actor de teatro e cinema portugueses.
O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” 
Hoje hoje recorda-se o grande actor Augusto de Figueiredo 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos 

 AUGUSTO FIGUEIREDO 
Armando Ferreira e Augusto Figueiredo no dia em que fizeram exames no Conservatório

Foi um dos gigantes dos palcos em Portugal nos anos 1940-1970, subindo a pulso uma carreira feita de muito trabalho e dedicação, que teve início em 1921, na companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, ainda menino. Nascido na Covilhã, havia rumado à capital com os pais aos dez anos e poucos meses depois pisava o palco do Teatro São Carlos para interpretar uma das crianças de “Zilda” de Alfredo Cortez, peça protagonizada por Amélia Rey Colaço.

Estimulado por esta atriz, o petiz devorou livros e sebentas escolares, matriculou-se no curso de teatro do Conservatório Nacional e foi aplicando os ensinamentos recebidos em outros dois espetáculos produzidos por aquela companhia que viria a obter a concessão do Teatro D. Maria II em 1929. Mas, curiosamente, não foi no palco do Rossio que Augusto Figueiredo se estreou como profissional. Fê-lo a convite da companhia do ator Sales Ribeiro, seu professor de arte de dizer, na opereta “O Conde de Luxemburgo” de Lehar, que subiu a cena no Teatro da Trindade, de Lisboa, estavam decorridos apenas quatro dias do ano de 1937.

Teatro da Cornucópia. Peça "Casimiro e Carolina" de Odon von Hovarth. Augusto Figueiredo fez o papel de Rauch


No entanto, apenas uma semana depois o jovem ator iniciava os ensaios do “Auto de Mofina Mendes” do mestre Gil Vicente, que estrearia a 1 de junho no Teatro D. Maria II, iniciando aí uma colaboração que duraria perto de quinze anos. Naquele palco afirmar-se-ia como um dos melhores atores da sua geração, representando dezenas de peças dos mais diversos autores, desde os clássicos aos contemporâneos.

As célebres tardes vicentinas, onde teve oportunidade de arrebatar as plateias com criações memoráveis da vasta e admirável galeria de personagens imaginadas pelo fundador do teatro português, ou a alternância entre obras estrangeiras já consagradas nos palcos europeus e inventivas novas propostas dramatúrgicas portuguesas – recordemos, como exemplo, a sua extraordinária prestação em “O Leque de Lady Windermere” de Óscar Wilde ou “Os Velhos” de D. João da Câmara –, todas elas dirigidas por respeitáveis mestres de cena do seu tempo, fizeram de Augusto Figueiredo um ator empenhado em todos os experimentalismos e disponível para abraçar novos desafios sem quaisquer condicionalismos, preconceitos ou reservas.


Peça "Ah Q": tragédia chinesa baseada em Lu San. Autores Jean Jourdheuil e Bernard Chartreux. Augusto Figueiredo fez o papel de um dos velhos.


No final dos anos 1950, desafiado por Orlando Vitorino e Couto Viana, Augusto Figueiredo abandona o Teatro D. Maria II e inicia uma nova fase do seu percurso artístico que o leva ao Teatro Avenida e ao Teatro da Rua da Fé, entre muitos outros espaços cénicos de Lisboa, para representar peças como “Yerma” de Federico Garcia Lorca ou “As Três Irmãs” de Anton Tchekhov. 

Surge então a televisão em Portugal e ei-lo a caminho dos velhos estúdios da RTP para dois anos de quase exclusiva dedicação ao pequeno ecrã, na representação em direto de peças como “O Doido e a Morte” de Raul Brandão, “A Sapateira Prodigiosa” de Garcia Lorca ou “O Avarento” de Molière, todas elas dirigidas pelo realizador Artur Ramos. No início dos anos 1960, Augusto Figueiredo volta aos palcos para interpretar, no Teatro da Trindade, duas das personagens mais complexas da sua carreira, nas peças “Fantasmas” e “Lutar até Madrugada”, que acabariam por lhe valer o prémio do melhor ator na primeira edição do Festival Internacional de Teatro de Lisboa.

Cena da peça "Terror e miséria do III Reich" onde Augusto Figueiredo trabalhou. Lisboa. Teatro da Cornucópia

Na edição de 1963 deste certame, viria a conquistar duas menções honrosas: uma pelo seu desempenho no espetáculo “Alfama” de António Botto e outra pela encenação desta mesma peça, que dirigira para a Companhia de Teatro Popular, estrutura vocacionada para a divulgação de autores portugueses que entretanto ele próprio fundara com o apoio da Câmara de Lisboa, tendo como sede a Estufa-Fria, no Parque Eduardo VII. Augusto Figueiredo foi um dos raros atores consagrados a integrar o movimento do teatro independente logo aquando do seu surgimento.


Primeiro no Teatro Experimental de Cascais (onde fez “A Maluquinha de Arroios”, “Breve Sumário da História de Deus…), depois na Casa da Comédia (onde participou em “Dança da Morte”, “Alice nos Jardins de Luxemburgo”…) e, finalmente, no Teatro da Cornucópia (onde, desde 1974 e durante quatro anos, brilhou em peças como “O Terror e a Miséria no III Reich” ou “Casimiro e Carolina”). Paralelamente a esta atividade no grupo fundado por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, foi mantendo uma cada vez mais espaçada participação em radionovelas e programas televisivos.
Cena da peça "Musicas Mágicas"  onde Augusto Figueiredo interpretou o papel de Rudolfo. Lisboa. Teatro da Cornucópia

O cinema também contou com a sua colaboração mas não lhe foi artisticamente muito compensador. Dos quatro filmes que fez não há um que dê uma imagem sequer aproximada do grande intérprete que foi. O teatro, pelo contrário, soube aproveitar e honrar os seus extraordinários dotes de ator. Isso mesmo comprova o registo da última vez que subiu ao palco. Foi no Teatro São Luiz, em Lisboa, na peça “Leonor Rainha Maravilhosamente”.

Nesse registo, percebe-se o medo que Augusto Figueiredo tinha de entrar em cena. Ninguém sofria tanto como ele o temor de esquecer uma fala, uma contracena. E ele dizia que quanto mais idade tinha, mais medo sentia. E esse drama percebia-se nele. Era assim que se manifestava o elevado sentido de responsabilidade que o acompanhou desde sempre, até ao dia em que nos deixou com 71 anos.


Salvador Santos 

Porto. 2013. Julho. 08

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