BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” é uma rubrica do nosso homem do Teatro Salvador Santos, que hoje recorda a actriz Manuela Porto.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” é uma rubrica do nosso homem do Teatro Salvador Santos, que hoje recorda a actriz Manuela Porto.




In memoriam 
Manuela Porto, de seu nome completo Manuela Cesariny Sena Porto, nasceu em Lisboa no ano de 1908 a 24 de Abril e faleceu nesta mesma cidade em 7 de Julho de 1950. 
Foi uma extrordinária actriz para além de se evidenciar como escritora, critica, tradutora, encenadora, declamadora, oposicionista ao regime salazarista e feminista. 

Manuela Porto escreveu: 
Muitas e muitas emoções, alegrias e dores, de que me ocupo nalgumas das minhas histórias, escritas muitas delas há anos, já me parecem hoje frívolas, imponderáveis, indignas de que a elas se ligue grande atenção, num mundo em que tanto se sofre por grandes, autênticos motivos, num mundo que cai em escombros, para além dos quais, no entanto – já adivinhamos – um outro universo há-de despontar, permitindo que a vida se torne qualquer coisa digna de se viver. (…)” PORTO.
Manuela Porto, 
Doze Histórias sem sentido. 
Prefácio


O Teatro no Bancada Directa. 
“No Palco da Saudade” é uma rubrica do nosso homem do Teatro Salvador Santos, que hoje recorda a actriz Manuela Porto. 

"No Palco da Saudade"

Texto inédito e integral de Salvador Santos


MANUELA PORTO 


Filha do republicano, escritor e pedagogo César Porto, herdeira de um património político e cultural que acabaria forçosamente por lhe moldar o caráter, ela estreou-se muito cedo como atriz mas esteve pouco tempo no teatro, talvez porque as suas exigências artísticas, culturais e éticas fossem excessivas para os tempos que lhe coube viver. 

Para além de atriz, encenadora, escritora e crítica, ela foi uma acérrima defensora dos direitos das mulheres e abriu caminhos à divulgação de autoras como Louisa May Alcott, Katherine Mansfield ou Virginia Woolf, até então desconhecidas entre nós. Manuela Porto teve também um papel importante na divulgação dos nossos poetas e foi graças a si que os portugueses conheceram Fernando Pessoa, em 1930. 


Mulher extraordinária, muito à frente do seu tempo, de uma sensibilidade muito especial, foi considerada «a recriadora dos poetas», «a que dizia poesia como quem respira». José Régio, um dos muitos poetas por ela divulgados, deixou impresso o que sobre ela pensava enquanto animadora das palavras: «Manuela Porto era, dizendo versos, um admirável exemplo de inteligência, atenção, finura. Todos os versos, todas as palavras se ouviam, e com a sua expressão própria. Vinham-nos as lágrimas aos olhos, ouvindo-a dizer certas coisas, e a gente nem dava por isso». 
Em boa verdade, esta riqueza interpretativa resultava sobretudo da sua formação de atriz, nomeadamente dos ensinamentos recolhidos junto do ator Araújo Pereira, seu querido Mestre e Amigo. Araújo Pereira dirigia uma Escola de Teatro, em Lisboa, que tinha como objetivo a renovação e dignificação do teatro português, através da introdução de inovações estéticas nos espetáculos. Gerida com base num modelo de ensino libertário, fundada por maçons e anarquistas com uma forte inclinação socialista, aquela Escola constituiu um dos vários exemplos do desenvolvimento da educação nos meios operários. 

Para além do ensino de disciplinas teóricas, a equipa de docentes garantia aos alunos a oportunidade de desenvolverem na prática os conhecimentos adquiridos em sala de aula no Teatro Juvénia, um barracão de alvenaria com um anfiteatro de cento e cinquenta lugares e um palco de dimensões reduzidas, na Rua das Escolas Gerais. 

Desenho a carvão de Manuela Porto

E foi ali, naquele palco do bairro alfacinha de Alfama, que Manuela Porto se estreou, em 1924, ainda enquanto aluna, no espetáculo “As Irmãs” de Gaston Dévore, sob a direção do próprio Araújo Pereira. Firmemente decidida a ser atriz frequentou depois o Curso de Teatro do Conservatório Nacional, que concluiu com vinte valores e um prémio de distinção. As portas do Teatro Ginásio abriram-se-lhe, a convite de Amélia Rey Colaço, para se estrear como profissional na peça “A Petiza do Gato” de Carlos Arniche. 

Face ao extraordinário talento evidenciado, os companheiros de cena, o público e a crítica auguravam-lhe uma grande carreira, mas tal não veria a acontecer. Depois de passar por diversas companhias, como a de Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, a de Gil Ferreira ou a Grande Companhia Dramática Portuguesa, onde fez enorme sucesso na peça “Primerose” de Robert de Flers e Francis de Caillavet, Manuela Porto desiludiu-se com o meio teatral e afastou-se dos palcos profissionais, só abrindo uma exceção para participar, em 1941, no espetáculo “Sonho de Uma Noite de Verão” de William Shakespeare, representado ao ar livre no Parque de Palhavã numa produção do Teatro D. Maria II. 

A partir de 1946, a par de uma intensa atividade política de oposição ao regime salazarista, criou o seu próprio grupo de teatro amador, no qual colocou em cena textos de Gil Vicente, Camilo, Pirandello e Tcheckov. Ao mesmo tempo que desenvolvia um trabalho de encenação e direção artística notável, com exemplares cuidados na formação de artistas e públicos, Manuela Porto fez traduções, escreveu novelas, romances e ensaios, exerceu crítica de teatro e literatura nas revistas Seara Nova e Vértice, e colaborou em jornais como o Diário de Notícias ou o Mundo Literário. 




Tudo isto sem deixar nunca de dar voz aos seus poetas em teatros, academias, associações culturais e coletividades recreativas. À sua volta orbitavam atores, filósofos, escritores e pensadores. 

Ninguém se lembra de alguma vez a ter visto só, mas ela tinha em mãos o manuscrito de um romance que mais tarde explicaria o seu precoce fim e que nunca chegaria a editar: “Cadernos da Solidão”. 


Pessoa tímida, discreta, sempre receosa de magoar alguém, criando à sua volta um ambiente de doce amabilidade, ambicionando uma vida suave, tranquila, Manuela Porto deixou-nos inesperadamente na madrugada de 7 de julho de 1950, pondo fim a uma vida carregada de solidão e de alguma incompreensão. 
O Diário de Notícias noticiou: «Faleceu hoje, cerca das 4 horas da madrugada, vítima de intoxicação por ingestão inadvertida de um medicamento». Para a censura não existiam suicídios, nem mortes violentas. A verdade é que Manuela Porto desistiu de viver, tomando uma dose brutal de bartitúricos, o que deixou de rastos os seus amigos. José Gomes Ferreira diria: «Nada – ouviram? – nada conseguirá salvar do esquecimento de cova cheia a outra Manuela, a Manuela do nosso convívio (…) que, no fim de contas valia tudo para nós». 

Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Julho. 02

Nota: o desenho a carvão de Manuela Porto é a primeira imagem da actriz no texto e não a referida no texto naquele local.

1 comentário:

Poetry With No Rhyme disse...

Li num site que a Manuela Porto foi diretora da Escola Nova. É verdade?

Obrigado Pela Sua Visita !