BANCADA DIRECTA: Em tempos de Verão continuamos a apresentar a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do Teatro recorda-nos hoje aquele que foi um grande actor precocemente falecido aos 43 anos: Seu nome é Carlos Daniel. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Em tempos de Verão continuamos a apresentar a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do Teatro recorda-nos hoje aquele que foi um grande actor precocemente falecido aos 43 anos: Seu nome é Carlos Daniel. É o Teatro no Bancada Directa

Em tempos de Verão continuamos a apresentar a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”.
O nosso homem do Teatro recorda-nos hoje aquele que foi um grande actor precocemente falecido aos 43 anos: 
Seu nome é Carlos Daniel. 
É o Teatro no Bancada Directa 

In memoriam 

Carlos Daniel nasceu em Lisboa, no r/c do numero 17 da emblemática Travessa da Memória no Bairro da Ajuda em 11 de Maio de 1952 e veio a falecer nesta mesma cidade em 9 de Abril de 1996. 
Foi um grande actor do Teatro e Cinema portugueses e que veio a falecer ainda muito novo, apenas com 43 anos de idade.

"No Palco da Saudade"

Texto inédito e integral de Salvador Santos 

CARLOS DANIEL 

 Descendente de uma tradicional família de funcionários públicos do bairro alfacinha da Ajuda, os seus sonhos e brincadeiras de infância não eram lá muito originais embora fossem curiosos. Começou por querer ser padre, repetindo sozinho os rituais da igreja católica a que assistia nas missas dominicais. 


Mais tarde fantasiou a profissão de decorador, até que se impôs na cabeça do jovem a figura lendária de uma tia-avó que no seu tempo ousou afrontar a pacata tradição familiar, assumindo-se como cantora e pianista. As deslumbrantes estórias que ouviu contar dessa tia-avó alimentaram a curiosidade do rapaz, que acabou por se sentir impelido a uma aventura artística. 


E decidiu frequentar o curso de teatro do Conservatório Nacional. Ainda enquanto estudante Carlos Daniel aceitou a proposta do ator Augusto Figueiredo para participar no espetáculo “Antígona” de Sófocles, que o Teatro Popular de Lisboa levou a cena na Estufa-Fria, tinha ele apenas dezassete anos. A estreia não correu nada mal, proporcionando-lhe de imediato o convite para a sua primeira experiência no teatro televisivo, na RTP, na peça “Castro” de António Ferreira. 

Estavam assim lançadas as bases para uma carreira de sucesso. Paulo Renato, que então dirigia a empresa Metrul, apercebeu-se do potencial do jovem e concedeu-lhe a responsabilidade de representar um dos principais papéis de “A Mantilha de Beatriz” de Pinheiro Chagas. Por outro lado, os produtores da RTP não perderam tempo e contrataram-no para criar os mais diversos jovens galãs das peças das Noites de Teatro do final dos anos 1960. 

Carlos Daniel era louro e esbelto, tinha faces magras e expressivas, um rosto inteligente de boca bem desenhada, um corpo esguio e uma certa aristocracia na atitude e no gesto, predicados que à partida facilitavam que se lhe abrissem as portas de qualquer palco. Mas eram qualidades que continham em si o perigo da mera suficiência, da superficialidade, do bonitinho. 


Porém, com trabalho, com muita dedicação, com férrea disciplina e com o seu enorme amor pelo teatro, a que se juntava também um talento natural, soube vencer essa contradição e fazer-se aos poucos um ator admirável. As suas qualidades de ator começaram a ganhar forma no Teatro Experimental de Cascais, onde o encenador Carlos Avilez lhe deu a oportunidade de fazer um repertório diversificado e exigente, ao lado de grandes figuras dos nossos palcos. 

Na peça "A Maldição de Marialva, o actor Carlos Daniel interpreta o papel de Hélio

Ali, numa das nossas mais antigas companhias de teatro independente ainda em atividade, Carlos Daniel fez “Fedra” de Racine, com Eunice Muñoz; “Fuenteovejuna” de Vega, com Isabel de Castro; e “D. Quixote” de Jamiaque, com Santos Manuel, para além de muitos outros espetáculos encenados por Carlos Avilez que o acabariam por levar até Madrid e a diversas cidades de Angola no início dos anos 1970. 

Após o regresso daquela ex-colónia portuguesa, a perspetiva do cumprimento do serviço militar começa a atormentá-lo. Mete então baixa psiquiátrica com a ideia de não participar na guerra, que não aceita e condena, mas a Revolução de Abril liberta-o desse conflito. Com outros colegas funda então o Teatro de Animação de Setúbal, animado ele próprio pela ideia da descentralização teatral, mas cedo reconhece que lhe são exigidos sacrifícios superiores à sua vontade. 

Teatro Nacional de São João no Porto. 1993. Carlos Daniel trabalha na peça de Oscar Wilde "O Leque de Lady Windermere". Encenação do Dr. Carlos Avilez

A reabertura do Teatro Nacional D. Maria II, em 1978, catorze anos após o pavoroso incêndio que o destruíra quase por completo, permite-lhe a estabilidade que necessita e vai também proporcionar-lhe o confronto continuado com grandes autores e grandes textos, fundamentais para o seu crescimento como ator. É ali, no palco do Rossio de Lisboa, que tem a possibilidade de representar de forma continuada, por exemplo, peças como “O Alfageme de Santarém” de Garrett, “Felizmente há Luar” de Stau Monteiro, “As Alegres Comadres de Windsor” de Shakespeare, “Os Filhos do Sol” de Gorki, ou “Longa Viagem para a Noite” de O’Neill. 

O encenador e pedagogo francês Jean-Marie Villegier, especialista em Molière, é convidado para dirigir no Teatro D. Maria II uma das obras maiores daquele dramaturgo e surpreende a direção e todo o elenco da companhia do Nacional ao escolher Carlos Daniel para interpretar o “D. Juan”. A peça obtém um grande êxito em Lisboa e recebe depois um honroso convite para se apresentar em Paris, no Odéon-Théâtre de l’Europe. E dois anos depois o ator é convidado para representar em francês, na Comèdie de Caen, “Les Galanteries du Duc d’Ossone” de Mairet, o que lhe franqueia as portas a uma carreira internacional. Mas ele sentia falta do Sol e do Mar, e imensas saudades dos seus amigos, da sua aconchegante casa da Ajuda e… regressa sempre. 

Apenas o Brasil era capaz de o afastar por muito tempo do seu Portugal. Esteve por lá durante largos meses a gravar a telenovela “Pedra Sobre Pedra” na TV Globo, experiência que foi desafiado a repetir noutras três novelas. Mas… as propostas de trabalho no teatro, no cinema e na televisão que tinha no nosso país (e a luz do Sol de Lisboa!) fizeram-no hesitar sempre, acabando por adiar indefinidamente uma nova aventura televisiva por terras cariocas. 

Até que um dia, exatamente a 9 de abril de 1996, um estúpido ataque cardíaco fulminante levou-o para uma viagem sem retorno. 


Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Julho 22

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