BANCADA DIRECTA: A actriz Dalila Rocha é hoje recordada por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É, como sempre às quartas, o “Teatro no Bancada Directa”, agora com algumas dificuldades devido ao movimento dos Wi Fi aqui em Roquetas de Mar.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A actriz Dalila Rocha é hoje recordada por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É, como sempre às quartas, o “Teatro no Bancada Directa”, agora com algumas dificuldades devido ao movimento dos Wi Fi aqui em Roquetas de Mar.

In memoriam

Dalila Rocha que foi uma grande actriz e encenadora do nosso teatro nasceu em São Pedro de Loureiro. Peso da Régua em 24 de Agosto de 1920 e faleceu no Porto em 28 de Julho de 2009
A actriz Dalila Rocha é hoje recordada por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. 
É, como sempre às quartas, o “Teatro no Bancada Directa”. 
Agora com algumas dificuldades devido ao movimento dos Wi Fi aqui em Roquetas de Mar. 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos

 DALILA ROCHA 

Nasceu em Peso da Régua, mas foi no Porto que se começou a interessar pelas coisas das artes e da cultura. A mãe, professora primária, foi colocada em Vila Nova de Gaia, para onde a família se deslocou no final dos anos 1920. A mudança para a cidade do Porto, pouco depois, levaria a pequena Dalila a frequentar o Liceu Carolina Michaelis, onde concluiu o antigo 5º. Ano e iniciou o gosto pela leitura e pelas várias formas de expressão artística. 

Casa-se, reprime a sua paixão pelo teatro e emprega-se nos Correios, como telefonista. Tem o primeiro filho e pouco depois desperta para os problemas sociais e políticos do seu tempo, desenvolvendo uma atividade que na altura havia quem classificasse de… agitação cultural. Aos 33 anos, nascia a atriz. Dalila Rocha inicia-se como amadora no Círculo de Cultura Teatral, grupo que esteve na génese da criação do Teatro Experimental do Porto (TEP). 


Lisboa. Teatro da Cornucópia.  Peça "A Ilha dos Escravos". Dalila Rocha contracena com Luís Miguel Cintra


Ensaia então algumas peças que nunca chegariam a cena, onde o seu talento brota aos olhos de todos, sendo por isso natural que ela se encontrasse entre as primeiras atrizes candidatas ao elenco fundador do TEP quando António Pedro aceitou o desafio de Eugénio de Andrade e de Alexandre Babo de liderar aquele novo projeto teatral. “Nau Catrineta” e “Um Pedido de Casamento” foram a prova dos nove.

Veio depois “A Morte de Um Caixeiro Viajante” e… foi a consagração. O espetáculo foi depois apresentado em Lisboa, no antigo Teatro Apolo, e a crítica nacional rendeu-se-lhe. Dalila Rocha não se deslumbrou. Continuou como telefonista nos Correios, no Porto, e muito mais ligada do que nunca ao TEP, afirmando-se como uma das maiores aliadas de António Pedro na grande revolução estética que este ia operando no teatro português com a introdução da encenação moderna e o sentido da unidade do espetáculo.


Com aquele encenador, construiu personagens que figuram ainda hoje entre as mais memoráveis dos nossos palcos. Sobretudo as que criou a partir de 1957, quando foi autorizada a profissionalização dos atores do TEP, dedicando-se então quase exclusivamente ao trabalho de atriz. São desse tempo notáveis criações como a Branca de “Urgente o Amor” de Luís Francisco Rebello, a Maria do Mar de “A Promessa” de Santareno e a Mary Tyrone de “Jornada Para a Noite” de O’Neill.
Após a demissão de António Pedro e de algumas crises de crescimento do TEP, que se arrastarem entre 1961 e 1962, Dalila Rocha estreia-se na encenação com as peças “A Sombra da Ravina” de Synge e “Falar Verdade a Mentir” de Garrett, função a que voltaria um ano depois com relativo sucesso. Mas ela era essencialmente atriz. Uma atriz para quem o teatro era devoção, uma arte que exigia um estudo permanente, um aprofundar milimétrico da perfeição plena.

Mas apesar de tudo isto, ela era o protótipo da anti vedeta, para quem a ética significava muito mais do que os honorários que poderia receber ao fim do mês. Por isso recusou várias propostas de para fazer um teatro que considerava como «arte da mentira», um «género que procurava o efeito fácil, os aplausos ignorantes e… ganhos materiais substanciais». O primeiro convite que aceitou veio de Amélia Rey Colaço, em 1964, mas as autoridades do Estado Novo proibiram-na de representar no Teatro D. Maria II por ser considerada «demasiado à esquerda».


Dalila Rocha não esmoreceu. O ator Jacinto Ramos, que a dirigira anos antes no TEP, sugeriu-a para o papel de Mãe na peça “O Bem-Amado” de Neil Simon, numa produção de Vasco Morgado, e levou-a depois para o Teatro Villaret, onde ela representou “O Segredo” de Michael Redgrave, ao lado de Maria Barroso. Entretanto, Mário Bonito (arquiteto, cenógrafo…), o homem da sua vida, debate-se com uma terrível doença e ela afasta-se dos palcos.


Na peça Ricardo III que foi encenada por Luís Miguel Cintra Dalila Rocha fez o papel da Duquesa de York


Volta ao seu antigo emprego, nos Correios, mas em Lisboa, e vai fazendo televisão e cinema, muito espaçadamente e sem prejuízo do acompanhamento do seu companheiro. Só um projeto como o do Teatro da Cornucópia, que lhe fez recordar os gloriosos tempos da fundação do TEP, seria capaz de fazer voltar Dalila Rocha aos palcos. E foi o que aconteceu a partir de 1974, quando Jorge Silva Melo a convidou para fazer a Arsinoê do “Misantropo” de Molière. Seguiram-se outros grandes desempenhos em duas peças de Marivaux, primeiro como Eufrosina em “A Ilha dos Escravos” e depois como Condessa em “A Herança”. Com a Revolução de Abril participa em ações de rua, na defesa de uma nova realidade política, e representa finalmente Bertolt Brecht sem censura, em “Terror e Miséria do III Reich”.

A doença de Mário Bonito agrava-se e ela larga tudo para acompanhar os seus últimos dias. Dalila Rocha optou então por um novo isolamento, que só o Teatro da Cornucópia conseguiu interromper. Com aquela companhia fez novamente Brecht, Rezvani, O Judeu, Gil Vicente, Goethe, Kroetz, Muller e De Filippo, sempre com enorme brilhantismo. Shakespeare foi o último autor que representou, como Duquesa de York de “Ricardo III”.

Ao chegar aos 65 anos disse adeus a Lisboa, aposentou-se e regressou definitivamente ao Porto, para junto do filho e dos netos. O FITEI e o TEP renderam-lhe homenagens em 1990 e 1998.

Em 2004, o Porto concedeu-lhe a Medalha de Ouro da Cidade. E ela partiu em 2009, com 85 anos. Ficou uma imensa saudade! 


Salvador Santos (Teatro Nacional São João. Porto)

Porto. 2013. Julho. 01

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