BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O actor Alves da Costa é a lembrança desta quarta-feira

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O actor Alves da Costa é a lembrança desta quarta-feira

In memoriam
Alves da Costa, de seu nome completo Joaquim Alves da Costa nasceu em Lisboa em 26 de Maio de 1903 e faleceu nesta mesma cidade em 4 de Março de 1971.- Foi um grande actor do Teatro e Cinema portugueses


O Teatro no Bancada Directa.
Apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”.
O actor Alves da Costa é a lembrança desta quarta-feira 

 “No Palco da Saudade”

Texto inédito e integral de Salvador Santos

ALVES DA COSTA
Ele costumava dizer que, como actor, tinha nascido n’ A Brasileira, porque foi ali, a uma mesa daquele emblemático café do Chiado, lugar de grandes tertúlias intelectuais, artísticas e literárias, que o escritor Silva Tavares escreveu o drama histórico “Vasco da Gama” – a peça de estreia de Alves da Costa.

E foi também n’ A Brasileira, num fim de tarde animado pela presença de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Santa Rita Pintor, entre muitos outros escritores e artistas, que o ator Alves da Cunha pediu a Silva Tavares autorização para transpor a peça para cena, no Teatro São Carlos, que então dirigia e onde formara recentemente companhia.


Com a autorização veio uma exigência: o Alves da Costa tem de representar um dos papéis! Embora tivesse optado por prosseguir os seus estudos pela via comercial, cujo curso acabaria por concluir com a nota máxima, Alves da Costa tinha já nessa altura uma paixão avassaladora pelo teatro, que nascera das suas incipientes experiências de representação nas récitas escolares no ensino primário.

Uma cena do filme "Cantiga da Rua" onde fez parte do elenco o actor Alves da Costa


E para dar asas a essa paixão, tomou aulas de arte dramática numa escola particular dirigida pelo consagrado actor Araújo Pereira, investiu boa parte da sua mesada na compra de livros franceses de técnica teatral e marcou presença assídua nas mais diversas tertúlias da noite lisboeta onde se discutia cultura e a inovação nas artes. Faltava-lhe apenas uma oportunidade para mostrar o que aprendera. E isso foi conseguido à mesa d’ A Brasileira do Chiado.

O seu batismo de cena não podia ter corrido melhor, tendo garantindo desde logo um lugar no elenco residente na companhia de Alves da Cunha, onde se manteve durante três temporadas de grandes sucessos, como foi o caso da estreia entre nós de “Papá Lebonnard” de Aicard ou a notável produção de “A Chama” de Méré. Neste último espetáculo, Alves da Costa perdeu-se de amores pela atriz Fernanda de Sousa e a sua vida sofreu uma grande reviravolta.


O casamento foi tão breve quanto o namoro, mas enquanto durou gerou desatinos, desavenças e conflitos que afetaram colegas e amigos de ambos. O ator afastou-se temporariamente para sarar feridas e quando regressou teve de provar de novo o seu talento. E fê-lo de maneira exemplar em “A Severa” de Júlio Dantas na inauguração do Teatro Joaquim de Almeida, no Montijo.

Duas cenas do filme "Quando o Mar Galgou a Terra".

Por essa altura, nos primórdios do cinema sonoro, Alves da Costa foi convidado pela Paramount para principal intérprete masculino das versões portuguesas de dois filmes que eram sucesso nos Estados Unidos. Ao lado de Corina Freire, e dirigido pelo cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti, o ator foi simplesmente notável em “A Canção do Berço” (“Sarah & Son”, no original norte-americano).

Este foi um dos primeiros filmes que conheceu versões em português, francês, inglês e italiano, uma forma que as grandes empresas cinematográficas encontraram para contornar os problemas criados pelo evento da sonorização na distribuição dos seus filmes, uma vez que ainda estávamos muito distantes dos sistemas de legendagem ou dobragem. Na opinião da grande maioria dos cinéfilos de então, designadamente de Charlie Chaplin – o mítico Charlot –, a linguagem gestual era a verdadeira essência do cinema.


Mas a verdade é que, com a chegada do sonoro, alguns dos maiores atores viram a sua carreira desfeita no cinema. Não foi o caso de Alves da Costa, que, depois de ter participado nalgumas curta-metragens mudas de Reinaldo Ferreira (o famoso Repórter X) com relativo sucesso, colaborou em mais de uma dezena de filmes, entre 1937 e 1962, designadamente em “Maria Papoila” de Leitão de Barros, “Quando o Mar Galgou a Terra” de Henrique Campos e “Um Dia de Vida” de Augusto Fraga, sendo que este lhe valeu o Prémio do SNI para o Melhor Ator de Cinema em 1962.

Mas a grande paixão da sua vida era o teatro, tendo-se aventurado por duas vezes pelo empresariado. Com a sua segunda mulher, a atriz Brunilde Júdice, formou uma companhia que teve como preocupação primeira a divulgação de novos dramaturgos. Mais tarde, com a sua segunda companhia, à qual associou os nomes de Ilda Stichini, Ester Leão e Irene Isidro, propôs-se produzir no Teatro São Carlos uma temporada de autores portugueses, durante a qual interpretou com grande sucesso “Alfama” de António Botto.

Mas, nessa senda de procurar novos autores, o seu maior êxito viria com “O Meu Amor é Traiçoeiro” de Vasco Mendonça Alves, peça que anos mais tarde seria um fenómeno de popularidade com Laura Alves e Artur Semedo. Alves da Costa, integrado em várias companhias, percorreu todo o país e fez várias incursões pelo Brasil e pelas ex-Colónias, representando nos mais diversos palcos, mas os seus últimos anos de carreira foram basicamente vividos nos estúdios de rádio e televisão.

Na ex-Emissora Nacional participou em inúmeros folhetins radiofónicos e na RTP dirigiu e interpretou algumas das mais populares peças teatrais nos gloriosos tempos do direto. A última vez que subiu ao palco, aconteceu 4 anos antes do seu falecimento, no Teatro da Trindade, interpretando o Joe Keller de “Todos Eram Meus Filhos” de Arthur Miller, peça que assinalou os seus 45 anos de atividade. 

Salvador Santos

Porto. 2013. Junho. 10

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