BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e relembra-se hoje o actor João Guedes

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e relembra-se hoje o actor João Guedes

In memoriam
João Guedes, de seu nome completo João Carlos Guedes de Carvalho nasceu em Matosinhos no dia 3 de Junho de 1921 e faleceu em Lisboa em 19 de Fevereiro de 1983
Foi um encenador e actor português


O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica 
“No Palco da Saudade” e relembra-se hoje o actor João Guedes


“No Palco da Saudade”.
Texto de Salvador Santos             
  
JOÃO GUEDES

Foi um grande nome do teatro, do cinema e da cultura portuguesa, mas teve no desporto a sua primeira grande paixão. Foi internacional de hóquei em campo, praticou as modalidades de hóquei em patins, ténis, tiro aos pratos, natação e futebol, ao mesmo tempo que ganhava a vida como armador de pescas.

A sua carreira teatral começou em simultâneo com a criação do Teatro Experimental do Porto, seduzido sobretudo pela determinação, pela coragem e pela dinâmica do multifacetado homem das artes António Pedro, que viria a marcar toda uma geração: aquela que na década de 1950, protagonizou, viveu ou assistiu à grande transformação da vida cultural na cidade do Porto, não só no teatro, mas também no cinema, nas letras e nas artes plásticas.


A estreia do TEP e de João Guedes tem uma data e um lugar únicos: Teatro Sá da Bandeira, 18 de junho de 1953 – fez ontem exatamente 60 anos. O espectáculo era composto por três peças breves: “A Gota de Mel” de León Chancerel, onde o nosso homenageado de hoje contracenava com outros grandes talentos dos gloriosos tempos da fundação do TEP, como Batista Fernandes; a adaptação de Egito Gonçalves do conto tradicional “A Nau Catrineta” (cujo elenco não contou com a participação de João Guedes); e, por fim, “Um Pedido de Casamento” de Anton Tchekhov, onde o ator revelava já uma grande segurança e uma enorme riqueza de gestos e expressões, para além de uma faceta cómica que viria a explorar em espetáculos posteriores.

O talento de João Guedes explodia, aliás, em todos os géneros teatrais, sendo particularmente notável na tragédia e na farsa, como atestam as suas criações em “Antígona” de António Pedro, “Macbeth” de Shakespeare e “Morte de Um Caixeiro Viajante” de Miller, onde fez vibrar com a mesma intensidade as personagens que interpretava e o público; ou em “Guerras de Alecrim e Manjerona” de O Judeu e “O Morgado de Fafe Amoroso” de Camilo Castelo Branco, onde tornou os espectadores cúmplices de um jogo que não vivia apenas do cómico mas também da contextualização das situações. E como escreveu um dia Carlos Porto, «bastariam estes espetáculos para que ele ficasse na história do ator português, se a houvesse».
Cena do filme Uma Abelha na Chuva com João Guedes e Laura Soveral

Mas não foi só pela interpretação destes papéis com a grandeza de Creonte e Macbeth ou das personagens aparentemente lineares de O Judeu e de Camilo que João Guedes conquistou um estatuto especial no teatro português ao fim de pouco de mais de dez anos de atividade. A sua notável prestação em “A Promessa” de Bernardo Santareno, peça que se transformou num acontecimento polémico por razões políticas, e em “Jornada Para a Noite” de Eugene O‘Neill, uma criação poderosa a todos os níveis, não só confirmaram os seus inegáveis talentos de ator, como foram também uma espécie de rastilho para a sua indomável vontade de enveredar pela encenação, o que viria a acontecer pela primeira vez, em 1960, com “Hedda Gabler” de Ibsen.

Este homem que acompanhou praticamente toda a vida do TEP até ao fim dos seus dias, mesmo depois de ter saído zangado com a sua direção, em 1962, rumo a Lisboa e a outras paragens mais longínquas, tinha uma personalidade de características únicas. Alguns dos que com ele contracenaram no teatro, no cinema e… na vida, como Eugénio de Andrade, Mariana Rey Monteiro, Óscar Lopes ou  Angelo de Sousa, definiram-no como: «Um grande ator, cheio de talento e versatilidade, sempre aberto a ideias loucas e a trabalhos experimentais; Uma força da natureza, sempre no centro de tudo; Um homem solidário, atento e critico; Um lutador pelo direito da cidadania».
Em Lisboa, João Guedes fez sucesso nos teatros D. Maria II (“Tartufo”…), Villaret (“Depois da Queda”…), Monumental (“Gata em Telhado de Zinco Quente”), Vasco Santana (“A Classe Dominante”…), assim como na Comuna (“Para Onde Is”…) e no Grupo de Campolide (“O Santo Inquérito”). Passou pelo TEC (“Fedra”…), foi até Vigo fazer o Cavaleiro Ripafrata de “A Estalajadeira”, estagiou em Paris com Jean Vilar e Roger Planchon, mas acabou sempre por voltar ao Porto para colaborar em espetáculos da Seiva Trupe, do TEAR, do TEP ou dos Plebeus Avintenses.

Apesar de ter participado em cerca de quinze filmes, realizados por alguns dos mais marcantes cineastas portugueses, como Manoel de Oliveira (“Francisca”), Fernando Lopes (“Uma Abelha na Chuva”), João César Monteiro (“Silvestre”), José Álvaro de Morais (“O Bobo”, em que contracenou com a sua filha Paula Guedes) ou Monique Rutler (“Velhos são os Trapos”, uma experiência mista de ficção e documentário sobre a velhice), João Guedes não teve infelizmente oportunidade de mostrar no cinema as capacidades que exibiu enquanto ator e encenador de teatro.
A sua morte prematura, aos sessenta e dois anos, levou-nos o homem, mas não conseguiu apagar a alma do ator impressa na nossa memória e nos mais diversos registos sonoros, fílmicos e literários, que testemunham a grandeza de um talento ímpar, solto de amarras, solidário em todos os combates por um teatro independente e livre num país justo e democrático. Que saibamos nós, mulheres e homens deste Portugal suspenso na incerteza dos nossos dias, honrar o legado de João Guedes!

Salvador Santos
Porto. 2013. Junho. 16

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