BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O actor José Gamboa é a recordação saudosa de hoje

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O actor José Gamboa é a recordação saudosa de hoje

In memoriam
José Gamboa, de seu nome próprio José Américo Gamboa, nasceu em Lisboa em 17 de Outubro de 1902 e faleceu nesta mesma cidade em 20 de Junho de 1978. Foi um grande actor do Teatro e Cinema portugueses
O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos 
“No Palco da Saudade”. 
O actor José Gamboa é a recordação saudosa de hoje 

No Palco da Saudade 

Texto inédito e integral de Salvador Santos 

JOSÉ GAMBOA
Filho de um casal de actores e empresários de uma companhia de teatro ambulante, que deambulava por terras alentejanas, é bem provável que ele tenha representado algumas das peças produzidas pelos pais durante os seus tempos de adolescente. 

Mas disso não há memória. Dos registos que ficaram há apenas algumas notas sobre a sua estreia nos palcos de Lisboa: foi no Teatro Apolo, em outubro 1923, tinha ele 21 anos, no espectáculo “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, baseado na obra homónima de Júlio Dinis, numa adaptação de Carlos Borges para a companhia do ator José Ricardo.

O grande Alves da Cunha, que tinha formado recentemente companhia no Teatro São Carlos gostou tanto do que viu que não hesitou em contratar o jovem. Foram três anos de grande aprendizagem numa companhia liderada por um ator único, de grande projeção e impacto popular, que norteava o seu trabalho por critérios de qualidade e inovação, responsável pela estreia entre nós de dramaturgos como Raul Brandão, Lenormand ou Ibsen. E se José Gamboa foi exemplar com Alves da Cunha em “O Homem e os Fantasmas” de Lenormand ou em “O Inimigo do Povo” de Ibsen, ele atingiu a genialidade em “O Gebo e a Sombra” de Raul Brandão.

Este período ao serviço de um dos nossos maiores atores de sempre levá-lo-ia também pela primeira vez ao Brasil, onde acabaria por voltar pouco depois para integrar o elenco da companhia carioca de Itala Fausta, uma das actrizes mais queridas do público brasileiro.

No regresso do Brasil, José Gamboa integrou o elenco de diversos espetáculos levados a cena nos teatros Avenida, Variedades e Ginásio, fixando-se depois durante três anos na companhia do actor Erico Braga, onde fez furor em duas peças de Ramada Curto – “Sua Alteza” e “A Cadeira da Verdade. 


Recebeu então o convite para ingressar na companhia da actriz argentina Berta Singerman, mas preferiu rumar ao Teatro D. Maria II para protagonizar “Gladiadores”, uma nova peça de Alfredo Cortez, que viria a ser ferozmente pateada no dia da estreia.
Esta sua primeira passagem pelo palco do Rossio durou apenas um ano, já que o ator não resistiu a uma nova proposta de Erico Braga, desta vez para fazer “Papirusa” ao lado de Palmira Bastos. Com este grande sucesso, José Gamboa conquistou definitivamente os favores do público e da crítica. 

Os convites para novos trabalhos sucederam-se de imediato, levando o ator a percorrer os mais diversos palcos. Os teatros Politeama e Ginásio acolheram algumas das suas mais brilhantes criações, que viriam a constituir-se num trampolim para sua primeira experiência na revista à portuguesa.


Na fachada daquele velho teatro do Chiado, decorria o ano de 1937, o seu nome figurou em letras garrafais no telão que anunciava a revista “Balancé”, espetáculo que arrastou multidões. Mas após esta bem-sucedida incursão pelo teatro musicado, José Gamboa voltaria de novo aos textos dramáticos numa companhia que fundou com a atriz Aura Abranches. “Cinema” de Aura Abranches foi uma das mais marcantes produções do teatro português na temporada 1937-1938, cujo protagonismo assumiu, valendo-lhe os maiores elogios da crítica portuguesa e um novo convite para voltar ao Brasil, desta vez tendo como parceira a atriz Maria Matos.
Porém, durante a sua estada no Rio de Janeiro, José Gamboa começou a sentir-se fraco, sem energia. No regresso ainda pisou o palco do Teatro da Trindade, mas passado pouco tempo uma doença de certa gravidade declara-se e ele vê-se obrigado a abandonar a cena durante largos meses. No período de convalescença, ruma a Madrid, onde se dedica à atividade cinematográfica a convite de uma produtora franco espanhola, mas sem obter grande sucesso. 

Já quase completamente recomposto da doença, José Gamboa volta para Lisboa e ingressa no Teatro Avenida, destacando-se aí em algumas interpretações de qualidade, como em “Duas Causas” de Bernstein, que o levam de novo ao Teatro D. Maria II.


Porém, em 1946, desliga-se daquele teatro e entra nos Comediantes de Lisboa, cuja empresa acabará por atacar violentamente, apesar de alguns êxitos alcançados em “Báton” de Alfredo Cortez e “Casa de Boneca” de Ibsen. Regressa ao palco do Rossio, em 1950, por dois anos, e percorre depois vários teatros e companhias. O seu temperamento polémico vai criando anticorpos por onde passa, levando-o ao desemprego. Perante esta inesperada situação, o ator dedica-se às mais diversas atividades, que de todo desconhecia, para se sustentar a si e aos seus.
Como o próprio referiu numa entrevista, José Gamboa passou materialmente «períodos bons» mas sofreu também «horas péssimas, de muita amargura e aflição». Apesar dos êxitos, que talvez não tenha sabido aproveitar devidamente, «ao fim de quase trinta anos de exercício digno» da sua arte, o ator tinha a vida «irremediavelmente destruída». 

Mas, subitamente, depois de um afastamento de treze anos, ei-lo de volta aos palcos, em 1970, para fazer “O Preço” de Arthur Miller, no Teatro Laura Alves. Foi um regresso muito saudado, que repetiria quatro anos depois, no Teatro São Luiz, no “Albergue Noturno” de Maximo Gorki.


Deixou-nos a 20 de junho de 1978, a quatro meses dos setenta e seis anos, de pazes feitas com o teatro. 


Salvador Santos ( Teatro Nacional de São João. Porto ) 

Porto. 2013. Junho. 03


Salvador Santos e Elisabete Santos. 

Duas figuras do nosso teatro. Profissionais de grande valor têm dedicado toda a sua vida a trabalhar para o engrandecimento do Teatro português. Desde os tempos em que se iniciaram no Teatro Nacional  Dª Maria II até ao presente no Teatro Nacional de São João a sua actuação no apoio aos grandes eventos teatrais são notórios. Recordemos que conseguir que um burro desempenhe o seu papel e comportamento a preceito numa determinada peça  em palco não é para qualquer um. E eles conseguiram e com brilhantismo.

O blogue Bancada Directa orgulha-se em ter como colaboradores estas duas figuras. A rubrica “No Palco da Saudade” é de sua responsabilidade.

 Obrigado aos dois e que continuem.

5 comentários:

luis pessoa disse...

Excelentes apontamentos, para ler, digerir e guardar...
Um muito obrigado à dupla, com beijinho e abraço

Anónimo disse...

Senhores do blogue
O meu irmão mais velho lembra-se de uma peça em que entrou um burro e toda a plateia se ria, porque o asno era mais inteligente que o seu dono.
Gostava que me informassem se aquilo que o meu irmão diz foi verdade.
Muito obrigado
André Gois
Porto

Adriano Ribeiro disse...

Caro amigo André
Quem lhe pode informar é o nosso colaborador Salvador Santos.
Vamos contactá-lo
Abraço
Adriano Rui Ribeiro

Adriano Ribeiro disse...

Caro amigo André Gois
Eis a resposta à sua questão por parte de Salvador Santos

........Não sei mesmo a que espetáculo se refere o senhor André Gois. Os únicos burros que conheci, e vi em cena, eram uns verdadeiros asnos; um deles era saloio da Malveira, o outro era cá de cima do norte e o outro era madeirense – todos eles fizeram boa figura no espectáculo “Passa Por Mim no Rossio”, que o Filipe La Féria escreveu e dirigiu no Teatro Nacional D. Maria II (apresentado depois no Teatro Nacional São João-Porto e no Cine Casino do Funchal). Quem contracenou com estes três engraçados burros foi a atriz Henriqueta Maya.
Um abraço,
Salvador..........

Espero que a resposta o elucide convenientemente
Abraço. Adriano Rui Ribeiro

Adriano Ribeiro disse...

Caro amigo Luís Pessoa
Obrigado pelo seu comentário
Abraço
Adriano Rui Ribeiro

Obrigado Pela Sua Visita !