BANCADA DIRECTA: Hoje é quarta-feira e é dia do “Teatro no Bancada Directa” dando a escrita ao Salvador Santos com a sua rubrica “No Palco da Saudade”. O nosso caro amigo recorda hoje o grande mestre do Teatro o encenador Antonio Pedro.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Hoje é quarta-feira e é dia do “Teatro no Bancada Directa” dando a escrita ao Salvador Santos com a sua rubrica “No Palco da Saudade”. O nosso caro amigo recorda hoje o grande mestre do Teatro o encenador Antonio Pedro.


In memoriam
António Pedro, de seu nome completo António Pedro Costa era cabo verdiano pois nasceu na Cidade da Praia em 9 de Dezembro de 1909 e faleceu em Moledo. Caminha em 17 de Agosto de 1966.
Foi um encenador teatral, escritor e criativo de artes plásticas

Hoje é quarta-feira.
Dia de  “Teatro no Bancada Directa”
Damos  a escrita ao Salvador Santos com a sua rubrica “No Palco da Saudade”.
O nosso caro amigo recorda hoje o grande mestre do Teatro o actor e encenador Antonio Pedro.

 “No Palco da Saudade”

Texto inédito e integral de Salvador Santos

ANTÓNIO PEDRO

Em pouco mais de quarenta anos de atividade criativa, ele foi escritor, artista plástico e homem de teatro. Nasceu em Cabo Verde, na cidade da Praia, em 1909, mas foi em La Guardia, num colégio de jesuítas, onde fez parte do liceu, que entrou em contacto pela primeira vez com a arte de representação teatral, à qual viria a dedicar quase exclusivamente os seus últimos dezasseis anos de vida.


Colégio dos Jesuítas onde Antonio Pedro estudou. Paxace. La Guardia. Galicia

Os livros e as telas acabariam por ser, no entanto, a sua primeira forma de expressão artística. Em Paris, em 1933/35, expõe no “Salon des Surindépendents” e publica “15 Poèmes au Hasard”. Na capital francesa escreve o seu primeiro texto dramático (“Théâtre: Comédie en un Acte”) e sofre a inflexão surrealista que lhe garantirá uma participação especial na fundação e nas atividades do Grupo Surrealista de Lisboa, em finais dos anos 1940.

Ainda no início da década de 1940, António Pedro faz uma breve passagem pelo Brasil, o que lhe permite dar a conhecer o seu trabalho pictórico, através de exposições no Rio de Janeiro e em São Paulo, atraindo a atenção do poeta italiano Guiseppe Ungaretti, que produz um exaustivo estudo sobre a sua pintura. Regressa a Lisboa em 1942, onde publica o seu originalíssimo romance surrealista “Apenas Uma Narrativa” e assume a chefia de redação do jornal Diário Popular.


Pintura a óleo de Antonio Pedro. Rapto na Paisagem Povoada. 1947

Dois anos depois, em plena II Guerra Mundial, trabalha como jornalista na BBC, em Londres, onde participa em diversos programas sobre teatro e escreve e apresenta as célebres “Crónicas das Segundas-Feiras”, que Adolfo Casais Monteiro considerou como «a voz de todos os portugueses que não esqueceram a sua condição de europeus e cidadãos do mundo». Na capital inglesa, António Pedro expõe também com alguma regularidade a sua pintura, tendo integrado a exposição “Surrealist Diversity”, na London Gallery, com Max Ernest, Magritt e Picasso.

Em 1945, deixa Londres, onde um incêndio de contornos suspeitos destrói boa parte da sua obra pictórica, e volta a Lisboa. Nesta cidade, publica “Teatro-Comédia em 1 Acto” na Revista Ver e Crer, escreve o poema-manifesto “Protopoema da Serra d' Arga” e pinta o seu último quadro (inacabado), “O Amanhecer das Virgens”, ao mesmo tempo que organiza a companhia d’ Os Companheiros do Páteo das Comédias, na qual encena “Escola de Maridos” de Molière.

E a par desta intensa actividade, ainda arranja tempo para fazer inúmeras preleções no Instituto Superior Técnico que dão origem aos “Cadernos de Um Amador de Teatro”. Depois de muitos anos tendo Lisboa como epicentro da sua diversificada atividade, colaborando em diversos jornais (no Diário de Lisboa publica uma série de artigos polémicos sob o título “O Caso do Teatro em Portugal”), dirigindo no Teatro Ginásio e no Cinema Odéon alguns dos atores mais promissores desse tempo (Eunice Muñoz, Canto e Castro e Laura Alves, são disso exemplo) e escrevendo peças de teatro (a comédia “Andam Ladrões Cá em Casa” é editada em 1950), e após um breve retiro em Moledo do Minho, António Pedro encontra no Porto espaço para um dos seus mais significativos contributos para a cultura nacional, no seu múltiplo papel de diretor artístico de uma companhia de teatro, encenador, dramaturgo, cenógrafo e figurinista.

É de facto no Teatro Experimental do Porto, a partir de 1953, que António Pedro encontra espaço para promover uma radical renovação de repertórios e de práticas cénicas, que vinha ensaiando em escritos e em experiências concretas. As primeiras peças que encena no TEP são “A Gota de Mel” de Chancerel, “Um Pedido de Casamento” de Tchekhov e “A Nau Catrineta” com adaptação de Egito Gonçalves, todas elas levadas a cena no Teatro Sá da Bandeira. Segue-se a sua versão da “Antígona” de Sófocles no Teatro São João e mais quatro espetáculos no Teatro Vale Formoso, entre os quais “A Morte de Um Caixeiro Viajante” de Miller.

Até que o TEP ganha espaço próprio no Teatro da Algibeira, mais tarde renomeado de

cTeatro de Bolso. Naquele teatrinho da antiga Viela das Pombas, e mais tarde noutros espaços da cidade do Porto, com algumas escapadelas de premeio por Lisboa, António Pedro afirma-se definitivamente como um dos mais importantes homens do teatro português do século XX, tanto nos domínios da programação – na qual se destaca a sua abertura ao vasto repertório clássico, moderno e contemporâneo em língua inglesa, de Shakespeare e Ben Jonson a Synge e Eugene O’Neill, Steinbeck e Arthur Miller –, como da cenografia, da formação e direção de atores, assim como da teorização, esforçando-se por ultrapassar o sistémico atraso da prática teatral no nosso país.
Como divulgador e teórico, impõe-se recordar as inesquecíveis “Conversas Sobre Teatro” de António Pedro na RTP, gravadas nos velhinhos Estúdios do Monte Virgem, bem como o seu “Pequeno Tratado de Encenação” publicado em 1962. Como encenador, pode afirmar-se que ele antecipou em termos definitivos a emancipação artística que viria a caracterizar o devir do teatro em Portugal a partir da década de 1960.

Pode mesmo dizer-se que existe no nosso país um teatro antes e depois de António Pedro. Ele foi sem dúvida o maior visionário e, ao mesmo tempo, um dos homens mais lúcidos da cultura portuguesa, cuja memória não temos sabido honrar.


Salvador Santos

Porto. 2013. Junho. 23
Véspera do São João

Contribuições ( blogue Bancada Directa)
Citações

“Chamo-me António Pedro da Costa. Nasci em 9 de Dezembro de 1909, na cidade da Praia, em Cabo Verde, filho de pais europeus. Meu avô paterno era minhoto, armador e capitão de navios. Minha avó materna era irlando-galesa, Power Savage, sobrinha, suponho eu, do poeta romântico Savage Landor. Esta metade galaico-minhota e irlando-galesa do meu sangue faz-me gostar de gaitas de foles, de instrumentos de percussão e da conquista do impossível. Como meus tataravós celtas, se eu pudesse, atiraria setas ao sol. Minha família, no entanto, é de gente burguesa e bem-pensante. Nenhum familiar foi propício ou sequer favorável às minhas actividades artísticas e literárias, consideradas desde sempre, e muito bem, como um mau prenúncio certo. “Il faut décourager les artistes”. Na luta contra as ideias, os gostos e o estilo de vida da minha família, temperou-se uma vocação irresistível que, se o não fosse, não persistiria em manifestar-se. Não creio que possa ser dada a um artista melhor educação”. (Teatro Completo: 301; de uma carta “autobiográfica” enviada ao Dr. Lopes de Oliveira, a pedido deste, datada de 10 de Outubro de 1955).


Bibliografia Ativa Selecionada

PEDRO, António (1981), Teatro Completo, coord. António Brás de Oliveira, Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

–– (1997), Pequeno Tratado de Encenação [1962], Lisboa, INATEL.

–– (1998), Antologia Poética, introdução, selecção e notas de Fernando Matos Oliveira, Obras Clássicas da Literatura Portuguesa Séc. XX, Braga e Coimbra, Angelus Novus.

–– (2001), Escritos sobre Teatro, introdução, selecção e notas de Fernando Matos Oliveira, Coimbra, Lisboa e Porto, Angelus Novus/Cotovia/TNSJ.




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