BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje recorda a grande actriz e cantora lirica Luisa Todi

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje recorda a grande actriz e cantora lirica Luisa Todi

In memoriam
A cantora lirica e actriz portuguesa Luisa Todi, de seu nome próprio Luisa Rosa de Aguiar (o apelido Todi adveio do seu casamento) nasceu em Setúbal na freguesia de Nossa Senhora da Anunciada em 9 de Janeiro de 1753 e faleceu em Lisboa numa casa do Bairro Alto (Freguesia da Encarnação) em 1 de Outubro de 1833. 

O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresente a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade” e hoje recorda a grande actriz e cantora lirica Luisa Todi 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos ( T.N. São João. Porto) 

LUÍSA TODI 
Foi uma das maiores cantoras líricas do seu tempo, respeitada e aplaudida em quase todo o mundo, e a mais célebre de sempre no nosso país. O seu pai, professor de música e exímio instrumentista, foi o responsável pela sua iniciação artística, ao consentir que ela integrasse o elenco da companhia do Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, quando tinha apenas dez anos. Estávamos a 5 de julho de 1763, e a doce e inocente pequena de olhos meigos, que se havia familiarizado com a representação cénica na residência de uma dama setubalense, sua vizinha, que organizava espetáculos teatrais em privado, ficaria assim para sempre fascinada pelos palcos. 

Da colaboração de Luísa Todi no teatro declamado, que se cingiria apenas à fase inicial do seu percurso artístico, há registo do seu impressionante desempenho na comédia “Tartufo” de Molière, quando decorria o ano de 1768. Dois anos depois, nascia a meio-soprano que haveria de conquistar o mundo operático. 

Na altura já casada com o violinista napolitano Francesco Saverio Todi, que fazia parte da orquestra residente daquele teatro, dirigida pelo maestro Guiseppe Scolari, ela cantou de tal forma três dos temas da ópera cómica “Il Bejglierbei di Caramania” que despertou a atenção da direção do Teatro do Corpo da Guarda, no Porto, para onde transitou no ano seguinte e onde ficou durante quatro temporadas consecutivas. 

Foi ali, naquele antigo teatro da Invicta, que Luísa Todi cantou pela primeira vez uma ópera dramática, género que melhor se ajustava às suas características vocais e à expressão do seu canto. Quase no fim desse período a norte, mas sem se desvincular do Teatro do Corpo da Guarda e mantendo a residência no Porto, ela aceitou atuar por uma vez em Lisboa, no Teatro da Rua dos Condes, incorporando um elenco exclusivamente composto por artistas italianos que interpretou com sucesso a ópera “Il Calandrano”. Até que se decidiu definitivamente por uma carreira internacional. 

O seu marido, que muito terá contribuído para esta decisão e, sobretudo, para o excelente apuro dos seus dotes canoros, acompanhou-a nessa grande aventura. Luísa Todi saiu pela primeira vez de Portugal em 1777, dando resposta a vários convites que lhe chegaram de Espanha para se exibir em recitais privados, situação que se replicaria com relativa frequência noutros países, designadamente em França e Itália. 

Mas a sua estreia pública no estrangeiro acabaria por acontecer em Londres, no King’s Theatre, no mês de novembro do ano em que decidiu partir para fora de portas, permanecendo ali em cartaz durante oito meses, em seis drammi giocosi per musica, cujo sucesso levá-la-ia até aos mais importantes palcos de diversas cidades europeias, como Paris, onde o público a acolheu durante quatro temporadas nos célebres Concerts Spirituels parisienses, acabando por se render ao seu inquestionável talento. 


London. King's Theatre

Durante vinte anos Luísa Todi construiu uma brilhante carreira internacional, acumulando sucessos de público e de crítica nos diferentes países onde a sua voz se fez ouvir. Na Europa de língua alemã, atuou em cidades austríacas (Viena, entre outras) e germânicas, tendo sido contratada por duas vezes para cantar em Berlim. Na Rússia apresentou-se em São Petersburgo e Moscovo ao serviço da rainha Catarina II, a quem dedicou a “Festa Teatrale per Musica”, com libreto de sua autoria. 

E depois de uma curta digressão pelos Países Baixos, Luísa Todi chegou finalmente a Veneza, para atuar no majestático Teatro di San Samuele, onde registou um êxito memorável. O triunfo de Luísa Todi no país de Verdi levou os melómanos venezianos a considerar 1790 como o Anno Todi, ano que marcaria também o início de uma triunfal digressão italiana da cantora, que a levaria a Pádua, Génova, Bérgamo e Turim. 

Setúbal. Forum Municipal Luisa Todi

Antes, porém, de concluir o seu périplo por terras de Itália, ela viajou até à Península Ibérica, a fim de cumprir contrato com um teatro de Madrid durante duas temporadas, no meio das quais regressaria a Lisboa para atuar na Real Casa Pia, a 14 de maio de 1793, num espetáculo em honra do nascimento da Infanta Maria Teresa (filha do herdeiro da coroa portuguesa D. João VI). 
Reconstituição do acidente da Ponte das Barcas. Porto. Guerra Peninsular. 29 de Março de 1809

Para participar neste concerto, Luísa Todi necessitou de uma autorização especial para cantar, uma vez que, durante o reinado de D. Maria I, as mulheres estavam proibidas de participar em manifestações artísticas públicas. Impedida pela corte portuguesa de atuar no seu país, pela sua simples condição de mulher, Luísa Todi continuou a esbanjar o seu incrível talento por palcos além-fronteiras. No dia 12 de janeiro de 1799, atuou pela última vez num espaço público, na récita que rematava três temporadas triunfais no Teatro di San Carlo, em Nápoles. 


Nesse mesmo ano, a cantora decidiu regressar a Portugal, fixando residência no Porto. Aqui, nesta cidade, viria a perder as suas famosas joias ofertadas pela caprichosa rainha Catarina II da Rússia no trágico acidente da Ponte das Barcas, por ocasião da fuga às invasões francesas. Dois anos depois, já viúva, instalou-se em Lisboa, onde viria a falecer, pobre e quase cega, numa casa situada na mesma rua onde antes existira o Teatro do Bairro Alto, onde ela se apresentou pela primeira vez em público. 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto)
Porto. 2013 Maio. 13

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