BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda a grande actriz e cantora lírica Maria Júdice da Costa

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda a grande actriz e cantora lírica Maria Júdice da Costa

O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica 
“No Palco da Saudade” e hoje recorda a grande actriz e cantora lírica Maria Júdice da Costa

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos 

 MARIA JÚDICE DA COSTA 

Foi uma das cantoras líricas portuguesas mais famosas do século dezanove, digna sucessora da mítica Luísa Todi, com uma brilhante carreira internacional. Atuou nas principais cidades da Europa, depois de conquistar os públicos de Lisboa e Porto, tendo-se estreado na Invicta num espetáculo a favor dos familiares do incêndio ocorrido no Teatro Baquet a 20 de março de 1888, realizado um mês depois. Mas o seu primeiro grande sucesso aconteceu na capital portuguesa, no Teatro São Carlos, tinha ela apenas vinte anos, interpretando a ópera “La Gioconda”. 

Mas se é verdade que Maria Júdice da Costa foi grande no teatro lírico, também não é menos verdadeiro que ela foi enorme no teatro dramático, onde se estreou a 30 de julho de 1921. Maria Júdice da Costa já tinha uma carreira consolidada nos palcos da música erudita quando o convite da companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro a surpreendeu. 


Brunilde Júdice, filha de Maria Júdice da Costa, igualmente uma notável actriz do nosso teatro e cinema

Mas não descartou o desafio. Pelo contrário, empenhou-se durante dez anos num género de teatro que não era verdadeiramente o seu, representando alguns sucessos da época, como foi o caso de “Os Sedutores” de Vasco Mendonça Alves ou “Jerusalém” de Georges Rivolet. Durante esse período, emprestou também os seus inegáveis recursos dramáticos ao cinema, como sucedeu em “Amor de Perdição” de Georges Pallu, “Mulheres da Beira” de Rino Lupo ou “Fátima Milagrosa” do mesmo realizador, onde contracenou pela primeira vez com a sua filha Brunilde Júdice. 

Com a sua filha Brunilde, Maria Júdice da Costa acabaria por embarcar para o Brasil integrada no elenco do espetáculo “A Casaca Encarnada” de Vitorino Braga, produzido pela companhia de Lucinda Simões, onde conquistou uma enorme legião de admiradores, tendo ficado por lá durante um largo período após a digressão daquela peça. No regresso ao nosso país, retomou os palcos do chamado teatro dramático até ser convidada a substituir a atriz Palmira Bastos numa opereta no Teatro da Trindade. 


O antigo Teatro Baquet na cidade do Porto

Com esta incursão num género musical mais ligeiro, no qual brilha em primeiro plano a sua belíssima voz de contralto «muito igual, entoada e flexível», voltaram as saudades do teatro lírico e… renasceu a prima-donna de méritos incontestados, em três novas gloriosas temporadas no Teatro São Carlos – o seu verdadeiro universo artístico. Considerada no seu tempo como uma das maiores intérpretes femininas de Wagner, Maria Júdice da Costa começou curiosamente o seu ensino musical e artístico com a ideia de tirar apenas o curso de pianista no Conservatório Nacional, quando tinha pouco mais de nove anos de idade. Contudo, o seu mestre Melchior Oliver, apercebendo-se dos seus dotes vocais, conseguiu convencê-la a estudar canto. 

E durante o curso encontrou outro mestre igualmente importantíssimo na sua formação de intérprete: o grande ator João Rosa, que lhe deu aulas de «declamação». O seu exame final foi um verdadeiro acontecimento artístico e desde logo os entendidos não tiveram dúvidas de que, em breve, ela se tornaria célebre em todo o mundo. A sua estreia numa ópera, interpretando a Cega de “La Gioconda”, foi tão surpreendente e auspiciosa que quatro meses depois o governo português conceder-lhe-ia uma bolsa para continuar os seus estudos em Itália. 

E foi naquele país que ela iniciou a sua extraordinária carreira internacional. Com efeito, depois de conhecer a glória como intérprete nos palcos italianos, a sua figura esbelta, de porte altivo, airosa e elegante, passeou-se por quase todos os grandes teatros do mundo melómano, conquistando com a sua esplendorosa voz o exigente público de Madrid, Paris e Moscovo, a que se seguiram Amesterdão, Barcelona, Buenos Aires, Málaga e Trieste. 

 Para além das mais importantes óperas de Wagner, em que se especializou, Maria Júdice da Costa conheceu também grandes sucessos com algumas das mais conhecidas obras de Verdi (a sua Amnesis de “Aida” foi elogiada em todo o mundo), de Giordano (a sua Fedora ainda hoje é considerada como uma das mais brilhantes de sempre), de Rossini e de Puccini, que interpretou muitas vezes ao lado de seu marido, o barítono italiano Guglielmo Caruson, com quem viveu durante vinte anos. 

Findo o casamento, deixou a cidade de Milão, onde teve os seus três filhos, e fixou residência em Lisboa, prosseguindo aí a sua carreira nos mais diversos géneros teatrais. Aos sessenta e três anos Maria Júdice da Costa abandonou de vez os palcos, depois de uma breve aparição no Teatro D. Maria II, no carnaval de 1938, na zarzuela “La Verbena de la Paloma” de Ricardo de la Vega, dedicando-se então ao ensino da música. Anos depois, retirou-se para Milão, onde foi aceite como pensionista na Casa de Repouso para Músicos fundada por Verdi. 

Mas, com a guerra, ela regressaria definitivamente a Portugal, onde o público a recordava fundamentalmente da sua brilhante participação nos espetáculos “A Grã Duquesa” de Offenbach e “Joana a Doida” de Manuel Tamayo y Baus. Viveu até aos noventa anos com a sua filha Brunilde Júdice, deixando-nos serenamente na noite de 16 de maio de 1960. 


Salvador Santos 

Porto. 2013. Maio. 06

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