BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Integrando a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O actor Alvaro Benamor é a recordação desta quarta-feira.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Integrando a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O actor Alvaro Benamor é a recordação desta quarta-feira.

In memoriam
Alvaro Benamor nasceu em 1907 e faleceu em 1976
O Teatro no Bancada Directa. 
Integrando a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 
O actor Alvaro Benamor é a recordação desta quarta-feira. 

"No Palco da Saudade" 

Texto inédito e integral de Salvador Santos 

ÁLVARO BENAMOR 

Ser actor não fazia parte dos seus sonhos de adolescente, mas ele também não estava muito seguro do caminho a seguir. A indecisão quanto ao seu futuro levou-o a matricular-se em Direito e em Letras. Ainda estudante universitário, a sua boa figura e a voz bem colocada, quente e vibrante, não passaram despercebidas a um dos professores, conhecido como amante dos palcos e amigo de alguns artistas, que o recomendou a Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro, que então tinham companhia formada no Teatro da Trindade.


E foi assim que Álvaro Benamor se estreou na comédia “Os Três Ratões” de Armont e Gerbidon, em 1928, tinha ele vinte e um anos. Foi um primeiro passo de gigante num percurso de mais de quarenta anos ao serviço da arte de representar, repartido pelo teatro, pela rádio, pela televisão e pelo ensino. Álvaro Benamor alcançou uma posição privilegiada no elenco da companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro quando esta transitou para o Teatro D. Maria II, em 1929, protagonizando peças como “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco ou “Alfageme de Santarém” de Almeida Garrett.

Ele era aquilo a que se chamava um verdadeiro galã. Sempre o foi. No palco e fora dele. Em cena, mexia-se com a percepção de quem sabia o efeito que produzia, sobretudo junto das moças casadoiras, que disputavam os lugares das primeiras filas da plateia só para o verem bem de perto. Preocupado em excesso com o porte, o lado belo, o efeito galante das suas personagens, o ator começou a descurar o mais importante da representação teatral – a correta transmissão do texto, o valor das palavras e as intenções que elas encerram.

O crítico Eduardo Scarlatti, muito rigoroso e severo nas suas apreciações, sustenta por diversas vezes que Álvaro Benamor tem terríveis «falhas de articulação» que «comprometem uma tradução fiel da verdade a interpretar», acrescentando que ele «ocupa uma posição no Teatro D. Maria II, cuja craveira impõe certa responsabilidade».


Não sabemos se tais críticas foram consideradas justas ou exageradas pelo ator, mas o certo é que Álvaro Benamor começou a dedicar mais atenção à criação das personagens que desempenhava, sobretudo às suas características psicológicas, e a conceder mais tempo ao estudo dos respetivos textos, passando a partir daí a ser a dição um dos aspetos mais distintivos da sua forma de representar.

"A vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança" é uma peça de teatro da autoria de António José da Silva (O Judeu), que conta as aventuras do cavaleiro D. Quixote e do seu fiel escudeiro Sancho Pança.

Nicolau Breyner interpreta a personagem de Sancho Pança, e Álvaro Benamor a de D. Quixote de La mancha.

Realizada por Jorge Listopad, em 1971, esta peça conta ainda com a participação de António Montez, Maria Olguim, Eduarda Pimenta, Catarina Avelar, entre outros.

A formação académica de Álvaro Benamor contribuiu para a sua paixão pelo teatro clássico, chegando inclusive a estudar grego para melhor poder trabalhar e apreciar as grandes tragédias helenas. E ao longo da sua carreira foram muitos os textos clássicos que representou: Schiller, Kleist, Shakespeare, Goldoni, Gogol, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Strindberg, foram alguns deles. Mas também Camões, Garret e, sobretudo Gil Vicente, de que foi um dos seus grandes intérpretes.

Álvaro Benamor era também defensor de um teatro poético e moralizador, acalentando o sonho de um teatro ao ar livre para as grandes massas populares, à margem do teatro burguês e comercial, regressando «às fontes de origem»: «para o pórtico da catedral, o auto litúrgico medievo; e para o tréteau, as moralidades, as farsas e o recitativo oral». Álvaro Benamor serviu a arte de representar em diversos fóruns e em múltiplas funções.


Foi um dos mais entusiastas divulgadores do teatro na imprensa e, sobretudo, nos meios audiovisuais. Foi autor de inúmeras crónicas sobre a Arte de Talma na antiga Emissora Nacional, onde dirigiu durante largos anos a rubrica de teatro radiofónico “Teatro das Comédias”. Na televisão, depois de um estágio em Milão na RAI, foi colaborador regular da RTP desde a sua origem, onde realizou e interpretou grande parte das célebres Noites de Teatro que muitos dos atuais telespectadores ainda se recordam com saudade.

Entre as peças que Álvaro Benamor representou em direto na televisão pública, importa sublinhar a sua exemplar criação em “D. Quixote”. No teatro, Álvaro Benamor não foi apenas ator, se bem que tenha sido nessa qualidade que atingiu maior notoriedade pública, graças sobretudo à sua intervenção em peças como “O Príncipe de Omburgo” de Kleist, “O Mercador de Veneza” de Shakespeare e “O Casamento” de Gogol, sendo que as duas últimas valeram-lhe o Prémio Eduardo Brazão para o Melhor Ator do Ano.

Mas seria injusto não recordar também o seu trabalho como encenador, sobretudo pelas suas criações no teatro lírico, ao serviço da Companhia Portuguesa de Ópera, onde dirigiu, por exemplo, a ópera “A Serrana” de Alfredo Keil, estreada com enorme sucesso no Teatro da Trindade, em Lisboa, com apresentações muito bem acolhidas no Teatro Liceo de Barcelona. Foi como professor de arte de representar, porém, que Álvaro Benamor se sentiu mais realizado como homem de teatro.


Ele tinha um particular gosto e natural vocação para o ensino, tendo ajudado a formar no Conservatório Nacional várias gerações de atores. E mesmo apesar de aquela escola ser frequentemente alvo de grandes críticas por parte da classe teatral, que a chegou a considerar um empecilho ao talento e à imaginação dos alunos, houve sempre o cuidado de ressalvar a prestação de um dos seus docentes: o nosso homenageado desta edição – Alvaro Benamor!


Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

Porto. 2013. Maio. 27

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