BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade”, rubrica de Salvador Santos, recorda hoje o actor e empresário Rafael de Oliveira. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 1 de maio de 2013

“No Palco da Saudade”, rubrica de Salvador Santos, recorda hoje o actor e empresário Rafael de Oliveira. É o Teatro no Bancada Directa



“No Palco da Saudade”. 
Rubrica de Salvador Santos. 
Recorda-se hoje o actor e empresário Rafael de Oliveira
É o Teatro no Bancada Directa 

No Palco da Saudade. 

Rafael de Oliveira 
Texto inédito e integral de Salvador Santos 

RAFAEL DE OLIVEIRA 

Foi uma das personalidades teatrais mais populares do segundo quartel do século vinte no interior do nosso país, que percorreu de norte a sul representando peças românticas, dramas pungentes e divertidas comédias de costumes nas mais recônditas cidades, vilas e aldeias. Casas do Povo, celeiros, adegas e velhos casebres foram palco dos primeiros espetáculos da sua companhia ambulante, até que a construção de um teatro desmontável haveria de facilitar-lhe o acesso às cidades do litoral, alargando depois o seu espaço de intervenção das periferias ao centro das urbes, quase sempre com imenso agrado dos públicos. Até aqui chegar, foi longa e espinhosa a sua caminhada, onde não faltou muito empenho, alguma sorte e... um grande amor. 

Filho de um casal de beirões imigrados em Lisboa, em busca de melhores condições de vida e trabalho, Rafael de Oliveira sentiu desde muito cedo o apelo pelo teatro. Em 1902, com apenas doze anos de idade, debutou como ator amador numa coletividade do bairro alfacinha de Santa Isabel, à Estrela, estreando-se num «desastroso espetáculo» – como o próprio haveria confessar mais tarde ao Jornal dos Teatros. 

O fracasso dessa noite não o desmotivou. Deu-lhe, pelo contrário, mais ânimo para continuar a representar nos grupos cénicos das sociedades recreativas lisboetas durante oito anos, especializando-se na comédia. Era este, aliás, o género que melhor se adaptava ao seu temperamento e ao qual mais se dedicou como ator amador. 

A sorte cruzou pela primeira vez os caminhos de Rafael de Oliveira aos vinte anos, quando este recebeu um irrecusável e honroso convite do empresário e escritor Batista Dinis para interpretar o papel de Bernardo da sua peça "Santa Inquisição", que se apresentou em estreia absoluta em Lisboa, no Casino Étoile. O desempenho do jovem ator não deixou ninguém indiferente e as portas dos palcos profissionais da capital abriram-se-lhe de par em par. 

O popular ator José Ricardo, que então dirigia o Teatro Avenida, levou-o para a sua companhia, onde ele se manteve durante várias temporadas. Seguiu-se-lhe o Teatro da Rua dos Condes, de onde transitou para o Teatro Apolo, tendo vivido nestes palcos alguns dos seus maiores e mais retumbantes sucessos. A primeira incursão de Rafael de Oliveira pelo teatro itinerante aconteceu em 1917, com a companhia de António Paredes, que o levaria a percorrer o norte e o centro do país durante três meses. 
No regresso ao ponto de partida, o ator cruzou-se em Benavente com a Companhia Dramática Societária, dirigida por Silva Vale, de cujo elenco fazia parte a atriz Ema Vale, filha mais velha do diretor, por quem o jovem Rafael de Oliveira se apaixonou. A paixão foi tão avassaladora que ele trocou definitivamente a companhia do ator Paredes e a cidade de Lisboa pela difícil vida de ator ambulante. Tudo por amor de Ema Vale! 

No ano seguinte, Silva Vale transferiu a sua modesta companhia de província para o genro, a cuja reestruturação este se dedicou de corpo e alma, acabando assim por dar origem à Companhia Rafael de Oliveira. Na sua companhia, Rafael de Oliveira foi um verdadeiro factotum teatral. Ele foi empresário, diretor, encenador, cenógrafo, ator e dramaturgo, desenvolvendo um profícuo trabalho em todos estes planos. 

Como dramaturgo, por exemplo, escreveu duas revistas e outras tantas operetas, adaptou vários romances de escritores nacionais e transpôs para cena inúmeras versões das mais apaixonantes histórias de amor, lendas e acontecimentos históricos portugueses, que ele próprio dirigiu e interpretou com algum sucesso. Mas a sua grande obra foi sem dúvida a construção de um teatro desmontável dotado de razoáveis condições para as práticas cénicas. E foi tão grande a mudança que a companhia passou a ser conhecida como… a Companhia do Desmontável. 

 O maior segredo do sucesso da gestão de Rafael de Oliveira residiu, no entanto, na escolha de um repertório de qualidade ajustado à evolução do gosto popular e no convite a diretores artísticos com sensibilidade e competências adequadas a uma otimização dos recursos humanos e técnicos disponíveis. Aceitaram ocupar essas funções os mestres de cena Ernesto de Freitas, Afonso de Matos, Eduardo de Matos e Francisco Ribeiro (Ribeirinho), que foram mantendo viva a chama da tradição do teatro itinerante. Doente e cansado, vergado ao peso de cinquenta duros anos de deambulação pelo país profundo, Rafael de Oliveira viu o pano descer pela última vez no palco do seu Teatro Desmontável numa triste noite de janeiro de 1965, após a representação da comédia “Moços e Velhos”, despedindo-se da vida poucas horas depois. 

O lugar de Rafael de Oliveira foi ocupado pelo seu filho Fernando de Oliveira, ator nascido nas tábuas do palco do Teatro Desmontável, equipamento que conseguiu manter em atividade por mais uma década. Andou com ele por terras lusas, levou-o até Angola e instalou-o por fim em Lisboa, no Martim Moniz, então como sede da companhia de Teatro Adoque. Enquanto esta estrutura conseguiu suportar as dificuldades geradas pela crise que atravessou o nosso teatro ligeiro no final da década de 1970, o teatro de revista aninou aquele palco. 

Mas acabado o Adoque, morreu também a companhia Rafael de Oliveira e o seu Teatro Desmontável. Infelizmente! 


Salvador Santos

Porto. 2013. Abril. 29 

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