BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” recorda hoje o grande actor Antonio Pedro. É a rubrica semanal de Salvador Santos integrando “O Teatro no Bancada Directa”.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

“No Palco da Saudade” recorda hoje o grande actor Antonio Pedro. É a rubrica semanal de Salvador Santos integrando “O Teatro no Bancada Directa”.


“No Palco da Saudade” recorda hoje o grande actor Antonio Pedro. 
É a rubrica semanal de Salvador Santos integrando “O Teatro no Bancada Directa”.

Texto inédito e integral de Salvador Santos


ANTÓNIO PEDRO  


Nasceu pobre, muito pobre, e cedo ficou órfão de pai. Entrou na escola com oito anos, mas cabulou. Aos treze abandonou as aulas, com poucos conhecimentos adquiridos, e foi aprender um ofício: penteeiro, como o seu falecido pai. Embeiçado pelas vizinhas do andar de cima da oficina, ambas coristas no Teatro São Carlos, por elas começou a frequentar a porta da caixa (entrada dos artistas) do nosso teatro lírico.

Gostou do ambiente, ganhou amigos ligados à ópera e desatou a ver espetáculos um pouco por todos os palcos de Lisboa. Fez-se sócio de um grupo de teatro de amadores que havia na lisboeta calçada do Gascão e aos dezoito anos passou pelo Teatro da Graça, espaço reputado como o melhor dos não-profissionais na época.


E três anos depois ascende ao elenco de uma das mais populares e interessantes companhias portuguesas, a do Salitre, sediada então no antigo Teatro Camões por se encontrar fechado o seu espaço-sede devido à epidemia da febre-amarela que grassava na capital. 
Estávamos a 13 de dezembro de 1857, um domingo frio e cinzento, quando António Pedro se estreou como profissional nas comédias em um ato “O Magnetismo”, “Leite de Burras”, “Dois Papalvos” e “Os Abstratos”.

O sucesso foi de tal monta que o ator viria a ser disputado por todas as companhias existentes, o que o levaria a pular de teatro em teatro, representando os mais diferentes géneros, com predominância para a revista, a comédia e a mágica (género muito em voga na altura). E foi tão fulgurante a sua carreira que, com apenas dezoito anos de profissão, ainda antes de dobrar os quarenta anos de vida, já o Rei D. Luís I o condecorava com o grau de Cavaleiro da antiga Ordem de S. Tiago, de mérito científico, literário e artístico. 

Este homem completamente inculto, a quem «a natureza subsidiara com um corpo anguloso, esgalgado, cheio de deslocações, de gestos estranhos» – como o descreveu um crítico da época – que tinha uma predileção muito especial pelo vinho tinto, de tal forma que «pingolava antes de ir para a cena, pingolava nos intervalos, pingolava acabado o espetáculo» – segundo um escrito de um jovem colega –, foi um génio, um ator de raça. António Pedro era, no dizer de um cronista do seu tempo, «um ator singelo, inocente na sua superioridade, que não explica os seus papéis, não os comenta, não os sublima, cria-os!».

E que depois de representar de forma inigualável, dizia sempre, modesto e com a sua bonomia habitual: «Adregou de calhar…». Foram muitas as criações geniais do ator António Pedro ao longo da sua carreira. Como exemplo, impõe-se citar o seu Adballah de “Lotaria do Diabo” de Francisco Palla e Joaquim Augusto de Oliveira, o seu Fala Só de “O Saltimbanco” de António Enes e o seu extraordinário De Profundis de “O Sargento Mór de Villar” de Arnaldo Gama. Mas há muito mais exemplos da sua genialidade, como é o caso das personagens por ele criadas no drama “A Vida de Um Rapaz Pobre” de Octave Feuillet e nas revistas “Civilização e Progresso” e “Lisboa do Ano 1858”.


Foram aliás estas suas magníficas prestações nos palcos de Lisboa nos primeiros dezassete de anos de atividade que determinaram o convite para o seu ingresso no elenco do Teatro D. Maria II, onde se estreou em outubro de 1874, no espetáculo “O Paralítico”. Com este espetáculo do Teatro D. Maria II, António Pedro fez a sua primeira digressão ao Brasil, onde voltaria mais quatro vezes com a companhia da atriz Lucinda Simões, fazendo pelo meio uma brevíssima incursão pela capital de Espanha com relativo êxito. No Brasil, porém, o seu sucesso foi absoluto.
Lisboa. Campo Grande. Topo Sul. Busto de Antonio Pedro

O actor alcançou aí o estatuto de estrela, conquistando a unanimidade do público e critica quanto ao seu talento. Um crítico brasileiro, ao referir-se ao seu trabalho, escreveu nas páginas de um dos mais lidos jornais do Rio de Janeiro: «Nunca vi em teatro realidade mais completa. Chega a incomodar». Mas para lá dos elogios, o ator trouxe de terras de Vera Cruz um bom pecúlio, que lhe permitiu mandar construir uma casita na lisboeta travessa das Salgadeiras. Foi o que lhe valeu, pois por cá começou pobre e pobre acabou. Quando em 1885 se começaram a agravar as asfixias horrorosas que o deixavam prostradíssimo, provenientes de uma complicada lesão cardíaca, o deputado Urbano de Castro propôs a sua reforma nas Cortes. 

Em Abril do ano seguinte, o jornal O Dez de Março aplaudia a proposta e dizia: «É que António Pedro, uma das nossas mais brilhantes e indiscutíveis glórias artísticas, está doente, está quase impossibilitado de trabalhar e está pobre». Três dias antes de falecer, o ator andou de teatro em teatro a despedir-se de todos os seus amigos. O seu funeral foi uma afirmação da sua irradiante simpatia, da sua bondade e do seu talento.

Uma verdadeira multidão acompanhou-o até à última morada. Sessenta e três anos depois, o escultor Costa da Motta imortalizava-o num busto em bronze que se encontra exposto no topo sul do jardim do Campo Grande, em Lisboa, que passa despercebido ao comum dos cidadãos, mas que ainda hoje é lugar de visita dos jovens atores em formação nas nossas escolas de teatro.

Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

Porto. 2013. Maio. 20


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