BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade”, rubrica de Salvador Santos. recorda hoje o grande actor Chaby Pinheiro

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade”, rubrica de Salvador Santos. recorda hoje o grande actor Chaby Pinheiro


In Memoriam
Chaby Pinheiro nasceu em Lisboa em 12 de Janeiro de 1873 e faleceu em Algueirão-Mem Martins em  6 de Dezembro de 1933 ( a sua residencia era na mesma rua onde viveu o saudoso Max já recordado nesta rubrica)

O Teatro no Bancada Directa. 
“No Palco da Saudade”, rubrica de Salvador Santos, recorda hoje o grande actor Chaby Pinheiro 
“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos 

CHABY PINHEIRO 


O seu apelido suíço, de que muito se orgulhava, tinha origem num antepassado que terá vindo para o nosso país integrado nas tropas do Conde de Lippe em 1762. Descendente de famílias aristocratas, era primo de Eça de Queirós e de Júlio Dantas pelo lado materno e filho do ator Fortunato Pinheiro, que viria a morrer louco, facto que lhe mereceu o seguinte comentário: «comigo ter-se-ia dado o mesmo se os meus ilustres colegas não me tivessem feito o grande prazer de me votarem ao ostracismo».


E também em defesa da honra de seu pai haveria de dar um valente safanão ao influente empresário Sousa Bastos, que o deitou por terra, por este ter feito insinuações que considerou incorretas. Estas atitudes revelam o temperamento de Chaby Pinheiro. De espirito livre e insubmisso, fez tudo para vencer a oposição dos pais ao seu sonho de prosseguir a carreira de ator. Não deixou, porém, de matricular-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, embora não tivesse chegado a concluir a Licenciatura.

Faltava frequentemente às aulas e as noites eram gastas nos grupos de teatro amador. Na verdade, o tempo que devia ocupar com o estudo de livros e sebentas era gasto a estudar as mais diversas personagens de peças de teatro que ia representando pelas coletividades de Lisboa. Nestes palcos foi-se tornando conhecido como um bom diseur de poemas e monólogos, chegando o seu primo Júlio Dantas a escrever propositadamente para o efeito “O Romance”, peça essa que foi responsável pelo seu ingresso no Teatro D. Maria II, então gerido pela empresa Rosas & Brazão. “O Tio Milhões”, de H. Heule, foi a sua peça de estreia.

Já então gordo e anafado, com cerca de 140 kgs de peso, de rosto expressivo, bem marcado de traços, Chaby Pinheiro viu desde logo ser a sua carreira condicionada pelo aspeto físico. No princípio, isso preocupava-o, mas, como era um homem ilustrado e de grande inteligência, soube depois utilizar o seu particular corpo em benefício da sua arte com uma mestria assombrosa. Na revista “Lísbia Amada”, que ele interpretou em 1917, no Teatro República, onde cantou o conhecido Fado do Chora, ficou célebre um estribilho hoje popular: «Mas que culpa tenho eu de ser bonito?!».

O que fazia as delícias do público, porque, para além da sua desconforme gordura, Chaby Pinheiro devia imenso à beleza! Mas não seria isso nem a sua falta de elegância que o iria impedir de se consagrar como um dos mais brilhantes atores característicos da sua geração. Chaby Pinheiro participou nalguns dos maiores êxitos de sempre do teatro português, nos seus mais variados géneros. Dos espetáculos que interpretou destacam-se “A Maluquinha de Arroios” de Andre Brun, “Teresa Raquin” de Emile Zola e “Casa de Bonecas” de Henrik Ibsen.

Com esta última peça o ator haveria de convencer definitivamente do seu talento os teatrólogos mais ortodoxos que desconfiaram desde sempre da sua capacidade para a representação de grandes textos, habituados que estavam a vê-lo interpretar figuras populares num género de teatro por eles classificado de ligeiro, de que são exemplo os bonecos criados para as revistas “Cama, Mesa e Roupa Lavada”, “A Feira do Diabo”, “O Pão Nosso” e “Xá Bi Tudo” (a sua derradeira revista, cujo título procurava prestar tributo ao seu respeitável percurso artístico).


Chaby Pinheiro tinha um processo de trabalho muito próprio, moldando as personagens à sua personalidade sem nunca deixar que estas fizessem esquecer o ator que lhe dava vida. Procurava passar para o público o que o ator sentiria se as venturas e desventuras das personagens que representava fossem por si vividas na realidade. Nunca pensou, porém, que a crítica confundisse o seu método criativo com fragilidades de composição das personagens, levando-a a considerações duríssimas quanto às suas reais capacidades interpretativas.
Desolado com tão negativas apreciações, Chaby Pinheiro afastou-se dos palcos nacionais durante largas temporadas. O Brasil foi o seu destino de eleição, tendo por lá representado inúmeros espetáculos, ora contratado por companhias locais, ora integrado na empresa que formou com sua mulher, a atriz Jesuína Saraiva. Um dia, durante a representação da comédia “Sabão nº. 13”, ao mudar uma cadeira de cena, Chaby Pinheiro deu uma violentíssima pancada numa perna, abrindo uma ferida que nunca mais fechou. Ao tratá-la, em Vicky, o seu estado agravou-se, chegando então a encarar-se a amputação.
Era a maldita diabetes, que o levaria a longos períodos de internamento. A última vez que recitou fê-lo ao microfone do seu quarto de uma Casa de Saúde nas Amoreiras, em Lisboa, com transmissão direta para o palco do Teatro São Carlos, durante o espetáculo de homenagem do ator Carlos Santos, tendo o público ouvido com emoção a voz pausada e inconfundível de Chaby Pinheiro. 

Meses depois, quando convalescia na sua casa do Algueirão (Sintra), o seu barbeiro disse-lhe que ia realizar uma festa de beneficência na coletividade da terra e o ator ofereceu-se para ir lá dizer uns poemas.


No dia da festa, quando se dispunha a recitar, foi acometido por uma congestão cerebral que o vitimaria três dias depois. 


Salvador Santos

Porto. 2013. Abril. 09

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