BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Nesta quarta-feira temos a rubrica “No Palco da Saudade” a cargo do nosso Salvador Santos, que hoje recorda a actriz Mercedes Blasco.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Nesta quarta-feira temos a rubrica “No Palco da Saudade” a cargo do nosso Salvador Santos, que hoje recorda a actriz Mercedes Blasco.


In memoriam

Mercedes Blasco, de seu nome próprio Conceição Vitoria Marques, nasceu no Alentejo no Pomarão em 4 de Abril de 1870 e faleceu em Lisboa em 12 de Abril de 1961. Há quem refira que teria nascido em 1867. Foi uma actriz de revista e opereta e na ultima fase da sua vida escreveu numerosos livros em contos, novelas, memorias e ainda traduções de peças de teatro.



O Teatro no Bancada Directa. 
Nesta quarta-feira temos a rubrica “No Palco da Saudade” a cargo do nosso Salvador Santos, que hoje recorda a actriz Mercedes Blasco. 

”No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos

 MERCEDES BLASCO 
Oriunda de um meio burguês intolerante ao estigma social da profissão de atriz, a sua arrebatadora paixão pelo teatro levou-a a fugir de casa, ainda menor de idade, para concretizar os seus sonhos, optando pela utilização de pseudónimos de maneira a ocultar da família a sua atividade profissional. Batizada com o nome de Conceição Vitória Marques, ela fora desde muito cedo preparada para uma carreira na medicina, tendo acesso a uma educação acima da média. Este facto explica não apenas a cultura que revela na sua vasta obra literária, mas também o seu domínio de várias línguas, para além do português (inglês, francês, espanhol, italiano e alemão), que viria a utilizar frequentemente na sua vida profissional, tanto em Portugal como no estrangeiro.

A sua estreia ocorreu no Porto, com o pseudónimo de Judith Mercedes Blasco, no Teatro Chalet, representando um Jockey no espetáculo “Grande Avenida” de Francisco Jacobetty. O figurino que vestiu em cena, demasiado ousado e atrevido para a época, deu origem ao primeiro dos muitos escândalos da sua carreira. E terminada a temporada na cidade Invicta, a peça realizou uma grande digressão pelo país que terminou em Lisboa, onde a atriz viria ser contratada para integrar o elenco da revista “Ás de Copas”, no antigo Teatro do Rato. Mercedes Blasco, como já era então conhecida, foi assediada por alguns dos empresário da capital para manter-se por lá, nas suas companhias, mas acabou por recusar todos os convites e regressou de novo Porto.

No entanto, poucos meses depois foi-lhe oferecido um novo (e generoso) contrato para o Teatro da Trindade, em Lisboa, e ela não resistiu. No 21 de outubro de 1890, a atriz figurava no elenco da ópera cómica “Mam’zelle Nitouche”, espetáculo que assinalou o início de um período de grande crescimento profissional. Foram quatro anos de fidelidade àquele teatro, onde obteve alguns dos seus maiores êxitos, acumulando igualmente os mais diversos escândalos devido aos seus arrojados trajes em espetáculos como “Miss Helyett”, “O Brasileiro Pancrácio”, “O Solar das Barrigas” ou a célebre revista “Sal e Pimenta”. 

Nessa altura, um crítico mordaz chegou a escrever: «Mercedes despiu-se quase completamente […] para a exibição de várias poses plásticas». Como se não bastasse as frequentes simulações de nudez em palco, Mercedes Blasco haveria de representar o papel de uma baiana, na revista “As Farroncas do Zé”, que a obrigava a menear os quadris fazendo um arremedo da dança do ventre, o que levantaria grande celeuma nos jornais.

Mas a atriz, mulher destemida, inteligente, trabalhadora e muito avançada para o seu tempo, nunca soçobrou a nenhuma das críticas. O seu elevado sentido de liberdade e o desprezo que nutria pelas convenções sociais estão aliás patentes não só no trabalho por si desenvolvido nos palcos, repleto de escândalos e de ligações amorosas, mas também na escrita de inúmeras crónicas onde dissertou corajosamente sobre a condição da mulher e dos seus respetivos direitos.

Portugal era demasiado pequeno para Mercedes Blasco. Depois de várias temporadas na cidade do Porto, em Lisboa e um pouco por todo o país, a atriz rumou ao Brasil numa companhia do empresário Sousa Bastos e passou depois por Espanha, onde fez grande sucesso nos teatros Lara e Moderno de Madrid. As suas tournées por estes países iam-se sucedendo, mas ela acabaria sempre por voltar aos palcos nacionais. 


Num desses regressos, no princípio do século XX, a atriz, ainda solteira, assume a gravidez do seu primeiro filho, o que a obriga a utilizar figurinos que disfarcem a sua condição de pré-mamã. Passado um ano, ainda sem marido, engravida de novo e o escândalo volta a ensombrar a sua carreira profissional, afastando-a temporariamente de cena. Mercedes Blasco resolveu então partir para Paris, onde deu início a uma longa temporada internacional, que a levaria a diversos países europeus, como França, Itália, Reino Unido e Bélgica. Conheceu um engenheiro belga, Remi Ghekiere, que viria a ser seu marido, e instalou-se em Bruxelas com os seus dois filhos.

Com a primeira Guerra Mundial, a Alemanha ocupa a Bélgica e ela recusa-se a trabalhar em palco para animar as tropas alemãs, sendo assim forçada a encontrar outras atividades que garantam o sustento da família. Exerceu primeiro, em Liège, as funções de professora de línguas, ocupando depois o lugar de enfermeira como voluntária na Cruz Vermelha para auxiliar os soldados feridos, de entre os quais alguns portugueses que ajudou a repatriar.

Quando a guerra acabou, Mercedes Blasco, já viúva, veio para Portugal à espera de encontrar reconhecimento pelas suas ações durante a guerra, bem como pelo seu trabalho nos palcos. Todavia, para seu desgosto, não encontrou na sua terra natal o apoio merecido, pelo que, tirando algumas aparições em produções menores, a sua carreira de atriz acabou por ter um fecho inglório.
Para sobreviver, a atriz dedicou-se à escrita, produzindo uma obra de mais de trinta volumes dispersos entre memórias, romances, novelas, peças de teatro, crónicas e traduções, bem como uma intensa atividade jornalística em vários jornais de destaque, utilizando, para além do seu nome próprio, os mais variados pseudónimos, como Mm’zelle Caprice ou Dinorah Noémia. 

Salvador Santos

Porto. 2013. Abril. 15

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