BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que hoje recorda o grande actor e empresário teatral Robles Monteiro. É o Teatro no Bancada Directa, como sempre nas quartas-feiras.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que hoje recorda o grande actor e empresário teatral Robles Monteiro. É o Teatro no Bancada Directa, como sempre nas quartas-feiras.

“No Palco da Saudade” 
É uma rubrica de Salvador Santos que hoje recorda o grande actor e empresário teatral Robles Monteiro. 
É o Teatro no Bancada Directa, como sempre nas quartas-feiras. 

Texto inédito e integral de Salvador Santos


ROBLES MONTEIRO

Beirão dos sete costados, descendente de uma conhecida família da chamada aristocracia rural, filho de dois professores primários, chegou a Lisboa, vindo de um Seminário da Guarda, para (a conselho do Bispo, que ficara entusiasmado com a sua prestação nas récitas religiosas) trocar o altar pelo palco. Mas não o fez, porém, de imediato. Decidiu primeiro tirar o Curso Superior de Direito, tendo passado a seguir pelo jornalismo ao serviço de diversos jornais e só depois enveredou definitivamente por uma carreira no teatro. 

O actor Augusto Rosa, de quem acabou por ser discípulo dileto, foi o seu padrinho de cena. E o primeiro palco profissional que pisou foi o do Teatro da República (atual São Luiz), na comédia de costumes “A Caixeirinha”. Foi ali que Robles Monteiro conheceu aquela que viria a ser a sua mulher, mãe da sua filha Mariana Rey Monteiro, companheira de cena e sócia da empresa que viria a transformar radicalmente o teatro português: Amélia Rey Colaço.

Seminário da Guarda

A primeira vez que os dois contracenaram juntos foi em “Marinela”, a peça de estreia da atriz, o que aconteceria depois em inúmeras outras ocasiões antes de partilharem o palco em “Entre Giestas” de Carlos Selvagem, peça em que Robles atingiu o pico da sua performance e durante os ensaios da qual nasceu entre eles uma mútua simpatia, que viria a resultar em casamento. Mas só ao fim de algum tempo, porque a atriz não tinha pressa, obcecada que estava com o seu crescimento profissional e com a afirmação do seu talento. Enquanto namoriscava aquela que viria a ser a principal responsável pela constituição da espinha dorsal de uma nova escola de representação teatral no nosso país no século XX, Robles Monteiro ia prosseguindo o seu percurso de ator com algumas notáveis criações nos principais palcos da cidade de Lisboa.

Mas a sua carreira de intérprete seria no entanto relegada para segundo plano quando criou a sua primeira companhia no Teatro Ginásio, dedicando-se a partir daí sobretudo à gestão administrativa, à direção de atores e à coordenação da montagem dos espetáculos, qualidades que lhe seriam verdadeiramente postas à prova quando formou, já com a sua mulher, uma nova companhia ancorada num repertório moderno e de qualidade.

A célebre companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro nasceria a 18 de junho de 1921, no Teatro São Carlos, com a estreia da peça de Alfredo Cortez “Zilda”, percorrendo depois vários outros teatros da capital, até se fixar no Teatro Nacional D. Maria II, ao alcançar a sua concessão em 4 de dezembro de 1929.

Nessa altura o seu elenco encontrava-se em digressão no Brasil, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, mas tal facto não impediu que as portas da chamada Casa de Garrett se abrissem ao público para a estreia de “Peraltas e Sécias” de Marcelino Mesquita, peça que constituiu o primeiro grande sucesso da nova companhia concessionária do principal palco do nosso país, a que se seguiram outros enormes êxitos logo na temporada inicial.

Cerimónia do casamento de Robles Monteiro com Amélia Rey-Colaço

Apesar de se remeter cada vez mais para os bastidores, aplicando-se sobretudo nas tarefas de gestão, planeamento e organização da empresa, Robles Monteiro – ou, simplesmente, Senhor Robles, como todos o tratavam – empenhava-se espaçadamente na criação de personagens secundárias em peças onde Amélia Rey Colaço, Palmira Bastos, Raul de Carvalho ou Assis Pacheco eram protagonistas quase absolutos.

Foi assim, por exemplo, em “Amadis de Gaula” de Gil Vicente, ”A Severa” de Júlio Dantas, “D. Sebastião” de Tomás Colaço ou “A Volta” de Virgínia Vitorino, espetáculos que confirmaram de vez o extraordinário ator que se escondia por detrás do empresário. A sua bela figura de galã e o seu ar dandy, a par da sua excelente relação com as câmaras, auguravam-lhe uma grande carreira no cinema, atividade que experimentou com relativo sucesso nos filmes “Malmequer” de Leitão de Barros e “O Primo Basílio” de Georges Pallu.

Mas as suas novas responsabilidades no D. Maria não lhe permitiram aceitar os vários convites para voltar ao cinema. As vinte e quatro horas dos seus dias mal chegavam para dirigir a empresa e aturar alguns governantes que apenas serviam para atrapalhar o seu trabalho com… cunhas artísticas. A este propósito ficou célebre uma frase sua quando alguém o felicitou por obter uma isenção fiscal de certo vulto. Disse ele: «Retiram-me as contribuições, mas deixam-me os impostos».

É que certos governantes a troco de manter o subsídio do Estado impunham alguns atores no elenco! Robles Monteiro não concordava com a intromissão do governo na gestão do seu Teatro, reagindo com grande dureza sempre que aquelas intenções se manifestavam, mas não conseguia escapar a alguns pedidos de emprego para certos atores com ligações ao regime. Esta situação acabava por ser embaraçosa também para estes, que viam o seu trabalho em palco reduzido a uma mera figuração sempre que o peso da cunha que traziam era muito inferior ao peso do talento que possuíam.



A figura de Severa esteve numa peça teatral interpretada por Robles Monteiro num papel secundário. Atestando a comunhão de espaços lúdicos entre a aristocracia boémia e as franjas mais desfavorecidas da população lisboeta, a história do fado cristalizou em redor do episódio do envolvimento amoroso do Conde de Vimioso com Maria Severa Onofriana (1820-1846), meretriz consagrada pelos seus dotes de cantadeira 

E nesta pesagem o Senhor Robles era implacável: na sua companhia só tinham lugar os melhores! Os outros passavam por lá mas não ganhavam raízes. E quando Robles Monteiro nos deixou, a 28 de novembro de 1958, Amélia Rey Colaço manteve o mesmo princípio. Durante a sua gestão só cabiam no palco do Rossio os grandes atores e as grandes atrizes. 

Salvador Santos

2013. Porto. Abril. 22

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