BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda a grande Cármen Miranda

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda a grande Cármen Miranda

In memoriam
Cármen Miranda, de seu nome próprio Maria do Carmo Miranda da Cunha, nasceu em Marco de Canaveses (Aldeia de São Martinho, Freguesia de Várzea de Ovelha e Aliviada) em 9 de Fevereiro de 1909 e faleceu na cidade de Los  Angeles, nos USA, em 5 de Agosto de 1955.
Foi uma cantora a actriz luso-brasileira

O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda a grande Cármen Miranda 

No palco da saudade

Texto inédito e integral de Salvador Santos para o Bancada Directa

CARMEN MIRANDA 

 
Ela foi muito mais do que a figura de baiana estilizada, com um turbante de frutas à cabeça, dançando e cantando alegremente, a que a memória dos homens e a passagem dos tempos parecem querer reduzir. Ela foi não só a mais carismática e idolatrada das intérpretes da música popular brasileira, numa altura em que o samba era quase marginalizado, como foi também uma das vedetas mais requisitadas e bem pagas de Hollywood, ultrapassando nomes como Joan Crawford, Bing Crosby, Paulette Goddard ou Humphrey Bogart.

Vedeta no cinema, mas também nos palcos, ela arrastou multidões até aos teatros da Broadway, por onde passaram só para a ver astros como Errol Flynn, Norma Shearer, Fredric March, Judy Garland, Robert Taylor, Dorothy Lamour (que fez questão de aprender os seus movimentos de mãos) ou Greta Garbo. Carmen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha) nasceu em Portugal, em Marco de Canavezes, mas partiu para o Brasil muito cedo, com pouco mais de um ano, ao encontro do pai que rumara anos antes para lá em busca de melhores condições de vida.

Com dez anos, ela animava as festinhas da escola, cantando e declamando, tendo sido frequentemente solicitada para animar as festas de aniversário das coleguinhas. E quando passou a ajudar a família nas despesas da casa, como empregada de balcão, foi muitas vezes repreendida por andar constantemente a cantar baixinho temas do seu agrado enquanto atendia os clientes. Nessa altura já ela dizia que queria fazer cinema, mas o mais que conseguiu foi a participação como figurante em dois filmes menores.

Muito antes de singrar no cinema, ela brilharia no palco e na rádio. O seu primeiro disco foi editado quando tinha apenas vinte anos. Nesse mesmo ano de 1929, ela gravaria ainda mais dois discos, sendo que o último continha uma canção que a catapultou para a fama: P´ra Você Gostar de Mim, de Joubert de Carvalho, que ficou conhecida por Taí. No ano seguinte, Carmen Miranda gravou o samba Os Home Implica Comigo, que ela própria compôs com o célebre Pixinguinha, o que impulsionou decisivamente a sua carreira.

A cada música gravada a crítica era-lhe favorável e o público ficava cada vez mais apaixonado pela «Garota com o It na voz» ou, como a baptizaria o locutor César Ladeira, a «Pequena Notável» (Carmen tinha 1,53 de altura...). Após a sua primeira digressão internacional, a Buenos Aires, um jornal carioca noticiou: «O samba e a canção sertaneja nunca alcançaram no estrangeiro tanto êxito, como o que veio a verificar-se na capital argentina».

Um dos músicos que a acompanharam lembrou posteriormente que «Carmen ficara impaciente com uma fã que não largava o seu apartamento. Era uma jovem actriz já com alguma notoriedade, cuja admiração, de tão profunda, chegava a incomodá-la. Chamava-se Eva Duarte. Mais tarde Eva Perón, Evita Perón ou simplesmente Evita». Este tipo de admiração, quase veneração, sentiu também por Carmen Miranda um jovem músico brasileiro que mais tarde viria a influenciar definitivamente a sua carreira: Dorival Caymmi.

Foi ele quem compôs O Que é Que a Baiana Tem? para o filme “Banana na Terra” (a quinta película de Carmen Miranda, depois de “A Voz do Carnaval”, “Alô, Alô Brasil”, “Estudantes” e “Alô, Alô Carnaval”), que ajudaria a Pequena Notável na composição dos movimentos e gestos que a tornariam famosa para sempre, assim como na criação das suas indumentárias de baiana.

Esta fantasia passou, aliás, a ser usada por Carmen nas suas regulares actuações no carioca Casino da Urca, onde um empresário norte-americano a foi contratar para o espectáculo “Ruas de Paris”, com o qual se estrearia na Broadway, cantando com grande sucesso alguns dos seus temas mais populares, como Mamãe Eu Quero, Touradas em Madrid ou South American Way. Na sequência deste enorme êxito, aconteceu o que parecia inevitável: Carmen Miranda foi convidada para uma participação especial no filme “Serenata Tropical”, em Hollywood, onde cantou Bambo do Bambu e recriou outros temas do seu vasto repertório – e o sonho americano concretizou-se!

Após um breve regresso ao Brasil para um novo espectáculo no Casino da Urca, onde criou Voltei Pro Morro, Diz Que Tem, Disso é Que Eu Gosto, Bruxinha de Pano e Disseram Que Voltei Americanizada, Carmen Miranda voltou à Meca do Cinema para filmar “Uma Noite no Rio”, por lá permanecendo durante catorze anos, onde fez mais doze filmes, entre eles a comédia “Morrendo de Medo”, de George Marshall, ao lado de Jerry Lewis e Dean Martin.

Depois de vários romances inconsequentes, entre os quais uma enorme paixão vivida com o actor John Wayne, Carmen Miranda casa com um fracassado funcionário de uma empresa produtora de cinema. O seu casamento começa a dar sinais de crise ao fim de alguns meses e ela entra em depressão. As exigências físicas da sua carreira, a droga e o álcool destroem-na aos poucos. Ainda tenta uma cura de desintoxicação no Brasil, mas sem sucesso.

Na madrugada do dia 5 de Agosto de 1955, horas após gravar um programa de televisão com o cantor e comediante norte-americano Jimmy Durante, a Pequena Notável sucumbe a um ataque cardíaco na sua residência, em Beverly Hills.


Salvador Santos

Porto. 2013. Janeiro. 27

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