BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. O grande actor Ferreira da Silva é a recordação de hoje do Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O Teatro no Bancada Directa. O grande actor Ferreira da Silva é a recordação de hoje do Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”.

O Teatro no Bancada Directa. 
O grande actor Ferreira da Silva
É a recordação de hoje do Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. 

Texto inédito e integral de Salvador Santos

FERREIRA DA SILVA


Nascido na cidade do Porto, filho de um comerciante que fez fortuna no Brasil, teve uma infância de sonho e uma juventude despreocupada. Quando acabou o liceu deixou o Porto e partiu para a universidade em Coimbra, com uma forte mesada garantida. 

Dir-se-ia que nasceu para ser Doutor! Mas, a par dos estudos, entra para o Teatro Académico, que chega a dirigir, e perde-se de amores pela arte de Talma. 


Para além de representar papéis de galã de algumas peças no grupo universitário, responsabiliza-se pela contratação de espectáculos profissionais que viajam até à cidade dos doutores. 

Numa dessas alturas conhece a actriz Virgínia, que integra o elenco de uma das peças da companhia Rosas & Brazão, e apaixona-se perdidamente por ela. Deixando para trás Coimbra e o curso de Filosofia e Matemática, Ferreira da Silva segue a grande Actriz Virgínia, a de «Voz de Ouro», até Lisboa.

O actor Augusto Rosa, que já o tinha visto representar no Teatro Académico, cede-lhe o seu papel na comédia “O Desquite” e Ferreira da Silva estreia-se, assim, no teatro profissional numa noite de Dezembro de 1886, no Teatro D. Maria II. O seu romance com aquela que foi uma das mais populares e queridas actrizes dos palcos portugueses no século XIX, com quem viria a casar alguns meses depois, facilitou a integração do actor no seio da elite intelectual lisboeta e no meio teatral nacional.

Mas foram a sua personalidade e o seu talento artístico que conquistaram definitivamente o coração do público e a aceitação da crítica especializada, sobretudo após a sua criação em “O Avarento” de Molière. Na verdade, a crítica mais exigente sempre o saudou como o mais estudioso, o mais culto, o mais impressionante e inteligente actor do seu tempo.
O antigo Café Martinho no Rossio, local onde Ferreira da Silva desenvolvia as suas conotações politicas

Na verdade, para além de possuir um enorme talento, ancorado num estudo constante e em meticulosos processos de criação onde nada era descurado, Ferreira da Silva era um homem distinto e culto, com um grande gosto pelo estudo e pela discussão. O seu camarim era um verdadeiro cenáculo, onde todas as noites se reuniam os maiores intelectuais. Segundo se diz, ali falava-se de teatro, de literatura, artes plásticas e, pelo meio, contavam-se anedotas picantes, mas nunca se falava da vida alheia.


Também ao que se consta, as tertúlias que organizava no alfacinha café Martinho do Rossio eram famosas. Fialho de Almeida, D. João da Câmara, Marcelino Mesquita, Ramalho Ortigão, o escultor Teixeira Lopes e o crítico e boémio Gualdino Pais foram os seus amigos de todos os dias, que acompanharam de perto o evoluir da carreira do actor desde a sua estreia. E foram eles que começaram por sublinhar a dificuldade de Ferreira da Silva em se impor no elenco da companhia Rosas & Brazão devido ao imenso prestígio das figuras masculinas que o compunham.

Rei Lear outra figura que Ferreira da Silva lhe deu vida no teatro

E foi assim que, ao fim de onze anos de um trabalho empenhado e ininterrupto no Teatro D. Maria II, Ferreira da Silva admitiu que nunca teria as oportunidades que merecia se não mudasse de palco, aceitando o desafio de integrar o elenco do vizinho Teatro da Trindade por duas temporadas, acumulando aí as suas funções de actor com as responsabilidades da gestão e direcção artística. O trabalho realizado no Teatro da Trindade, a todos os títulos notável, determinou o seu regresso ao D. Maria II em 1899, nessa altura já como societário e actor de primeira classe, sendo mais tarde elevado à classe de mérito.


São dessa época as maiores criações de Ferreira da Silva, com destaque para “A Loncadeira” de Goldoni, “O Pato Selvagem” de Ibsen e “Rei Lear” de Shakespeare, espectáculos que percorreram os principais teatros do país e foram sucesso no Rio de Janeiro. Refira-se como curiosidade que o actor era apaixonado por objectos antigos, gastando boa parte das economias na aquisição das mais variadas peças decorativas em todas as cidades por onde passou, chegando ao ponto de ter desejado comprar o Castelo do Queijo, no Porto, que só não concretizou porque as autoridades governamentais se opuseram ao negócio.

Ferreira da Silva brilhou na interpretação desta figura de Molière

Ferreira da Silva nunca foi muito querido pelos nossos governantes, talvez por ser uma voz critica e contundente às políticas reinantes. Apesar disso, constou-se que o Rei pensava distingui-lo com o oficialato de Santiago. Mas quando o actor soube da intenção diz-se que terá reagido com grande indiferença, exclamando que mais jeito lhe faria um macho para a nora da Quinta que comprara na Estrada de Benfica, nas portas de Lisboa.


Tendo tomado conhecimento, o Rei não lhe mandou a condecoração nem… a burra! Ferreira da Silva pouco se preocupou com a reacção do soberano da Nação, continuando a zurzir sem dó nem piedade sobre as políticas nacionais nas suas reuniões de camarim e nas diversas tertúlias por ele promovidas no Martinho do Rossio.


No palco do D. Maria, Ferreira da Silva prosseguiu a sua exemplar carreira de actor, compondo personagens de antologia, como foi o caso do seu Coveiro em “Hamlet” de Shakespeare e do seu Cardeal D. Henrique em “Alcácer Kibir” de D. João da Câmara.



 Cardeal Dom Henrique. Ferreira da Silva deu vida a esta figura na peça Alcácer-Kibir

Porém, quando tinha pouco mais de sessenta anos, o actor começou a sentir-se fisicamente debilitado. Percorreu vários médicos, mas em vão. A doença implacável que o minava agravou-se. Ferreira da Silva ainda foi à Alemanha tentar remédio, mas a ciência foi impotente. Aos sessenta e quatro de idade o actor partiu para sempre.

Salvador Santos 

Porto. 2013. Janeiro. 12

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