BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Na sua rubrica semanal "No Palco da Saudade", Salvador Santos recorda o actor José Carlos dos Santos, apelidado por Gomes de Amorim o Santos Pitorra

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O Teatro no Bancada Directa. Na sua rubrica semanal "No Palco da Saudade", Salvador Santos recorda o actor José Carlos dos Santos, apelidado por Gomes de Amorim o Santos Pitorra

O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda o actor José Carlos dos Santos. 

In memoriam
José Carlos dos Santos nasceu Lisboa em 13 de Janeiro de 1833 e faleceu nesta mesma cidade em 8 de Fevereiro de 1886. Aos 15 anos de idade Gomes de Amorim apelidou-o de Santos Pitorra e assim ficou até ao fim da sua vida

JOSÉ CARLOS DOS SANTOS

Quando o empresário e escritor teatral Sousa Bastos decidiu publicar o seu Dicionário do Teatro Português, em 1908, dedicou-o à memória de José Carlos dos Santos: «A ti, grande actor do teatro português, à tua inolvidável memória, dedico este trabalho, para o apadrinhar com o teu nome glorioso. (…) O artista incomparável que tu foste, mais cedo ou mais tarde tem de ser perpetuado no mármore, ao lado de Gil Vicente e Garrett, para que assim conheçam os vindouros essa trindade sublime do teatro português: o seu fundador, o seu reformador e o notabilíssimo mestre e exemplo de quantos ainda hoje labutam nessa espinhosa, difícil e ao mesmo tempo brilhante carreira do teatro. 

A actriz Virgínia Dias da Silva, (natural de Torres Novas) ou simplesmente como é conhecida "Actriz Virgínia",  2ª mulher do Santos Pitorra

Punge-me a saudade do teu convívio, notabilíssimo artista; chora ainda a cena portuguesa a tua perda irreparável. Sê abençoado por todos nós!» Seis anos após a publicação desta importante obra de Sousa Bastos, fundamental para um conhecimento rigoroso do teatro português da segunda metade do século XIX, o busto de José Carlos dos Santos era esculpido em mármore e exposto junto aos de Gil Vicente e Almeida Garrett.


Nos discursos de circunstância foi evocada, como agora o fazemos, a sua brilhante carreira e a forma como o reputado actor, professor e empresário se iniciou nas artes do palco, tinha apenas quinze anos, no espectáculo “Gigi”, no Teatro D. Maria II, sendo logo carinhosamente apelidado de Pitorra. Com tal alcunha, que lhe fora posta pelo escritor Gomes de Amorim, devido à sua pequena estatura, José Carlos dos Santos atravessaria a vida, e mesmo a posteridade, já que o Município de Lisboa ao dar o seu nome a uma nova artéria, em 1907, a crismou de rua Santos Pitorra. Dono de uma imensa e encaracolada cabeleira, rosto largo e insinuante, olhos enormes, boca expressiva, voz ardente e ricamente timbrada, José Carlos dos Santos era extremamente simpático.
Teatro do Príncipe Real, mais tarde chamado Teatro Apolo

Perdulário como um príncipe, amante insaciável dos prazeres mundanos, era muito assediado pelas mulheres. Conheceu inúmeros amores, mas só três deles foram publicamente assumidos. No começo da carreira teve por companheira Luísa Cândida, uma actriz belíssima que se especializou em papéis de ingénua dramática. Apaixonou-se depois por Emília Letroublon, uma das suas mais notáveis discípulas, que acabaria por morrer louca. E, por fim, casou com outra notável actriz, Amélia Vieira, que lhe deu dois filhos, um dos quais viria a ser o actor Carlos Santos. José Carlos dos Santos, o Pitorra, trabalhou em quase todos os teatros existentes na Lisboa da sua época.
Cartaz da peça escrita por Offenback "La  Grande Duchesse de Gerolstein", que em Portugal foi encenada pelo Santos Pitorra

Depois da primeira passagem pelo Teatro D. Maria II, conheceu êxitos inesquecíveis no Teatro da Rua dos Condes, brilhou no Teatro D. Fernando e foi primeiríssimo actor no Teatro do Ginásio. O seu regresso à chamada Casa de Garrett seria no entanto inevitável e fê-lo por três vezes, primeiro como actor e ensaiador, e depois também como empresário. Concorreu pela primeira vez, sem sucesso, à adjudicação daquele teatro em 1868. Decidiu então fazer sociedade com o colega Pinto Bastos e assume a direcção do Teatro do Príncipe Real, onde realiza uma época de grande notoriedade, durante a qual introduz a ópera burlesca em Portugal.


Dois anos depois, José Carlos dos Santos consegue finalmente a direcção do D. Maria, onde permanece durante seis anos arrostando grandes dificuldades, mas impondo o seu espírito inovador quer como ensaiador, quer como actor, cujos processos eram considerados pelos seus delatores como extravagantes. Mas a verdade é que a ele se ficou a dever a grande transformação verificada nessa época na cena teatral portuguesa. Entre os grandes espectáculos levados a cena no palco do Rossio, durante a sua gerência, ficaram para a história “A Pátria” de Sardou, “Antony” de Dumas ou “Os Sabichões” de Biester, onde brilhava em primeiro plano Virgínia Dias da Silva, vulgarmente conhecida por Actriz Virgínia, que Pitorra levara consigo do Teatro do Príncipe Real.
Cena do filme Rainha Depois de Morta, em que participou José Carlos dos Santos


Rainha Depois de Morta
de Carlos Santos

com   Carlos Santos (D.Pedro I), Eduardo Brazão (D.Afonso IV), Amélia Vieira (Inês de Castro), José Carlos dos Santos/Santos Pitorra (D. João), Pinto Costa (Álvaro de Castro), Tomás Vieira (Lopes Pacheco), Mendonça de Carvalho (Álvaro Gonçalves), Mário Veloso (Pero Coelho), Madalena Caçador (D.Dinis), Maria Amélia Caçador (D. Beatriz) e António Silva.

Inesperadamente, José Carlos dos Santos perde o concurso de adjudicação do Teatro D. Maria II realizado em 1876. A decisão é fortemente contestada por alguns dos mais respeitáveis homens das artes e das letras, deixando pelas ruas da amargura os membros da comissão responsável pela decisão e o ministro com a tutela do teatro.

O escritor, jornalista e político Pinheiro Chagas decidiu esgrimir a favor de José Carlos dos Santos, defendendo que a sua proposta era francamente melhor que a proposta vencedora, no que foi acompanhado pelos jornais da época. E, sem melhores argumentos, os decisores alegam que o Pitorra já não podia representar por ter cegado. É verdade que o actor cegara, mas ele continuará a representar… no Teatro do Príncipe Real. Cego interpreta “A Taberna” e “O Quebra-Queixos”, e volta a escrever de novo. Ele que já escrevera novelas e peças teatrais, para além de ter assinado inúmeras traduções, escreveu o livro de memórias “Álbum do Actor Santos-Repositório de Curiosidades Teatrais”, por ele ditado a sua mulher quando já cegara completamente.

Teatro da Rua dos Condes

O Pitorra só se vergará dez anos depois quando a doença o amarrou definitivamente ao leito. Até esse dia chegar deu aulas de representação no Conservatório Nacional, onde fez nascer alguns dos melhores actores e actrizes da geração que lhe sucedeu.

Salvador Santos 

Porto 2012. Outubro 21

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