BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda o grande actor Alves da Cunha

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Teatro no Bancada Directa Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda o grande actor Alves da Cunha

In memoriam 
Alves da Cunha , de seu nome completo, José Maria Alves da Cunha, nasceu em Lisboa em 19 de Setembro de 1889 e faleceu nesta mesma cidade em 23 de Setembro de 1956. Foi um grande actor do Teatro e Cinema portugueses.

O Teatro no Bancada Directa 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda o grande actor Alves da Cunha 


NO PALCO DA SAUDADE 
ALVES DA CUNHA


Texto inédito e integral de Salvador Santos para o Bancada Directa


Filho de família burguesa, de pai médico, ele próprio chegou aos alvores da aprendizagem da profissão paterna, mas acabou por ser irresistivelmente atraído pelo teatro, no qual viria a estrear-se no velho Ginásio, em Lisboa, com vinte e três anos, na peça “A Volta” de Nobre Martins, pela mão da grande Lucília Simões. Foi criador de um estilo de representar, onde o seu poder de metamorfose, a voz e o uso do silêncio, eram marcas fundamentais. Impôs-se pela sua voz imensa, cheia e rica de timbres. E ficou conhecido pelas suas grandes pausas. 


O seu primeiro êxito aconteceu com “O Inimigo do Povo”, de Ibsen, no desaparecido Teatro Apolo, casa de largas tradições, albergue de todos os tipos de teatro, berço de gerações e gerações de comediantes. Alves da Cunha, que dirigiu durante algum tempo com relativo sucesso o Teatro Nacional D. Maria II, trabalhou em quase todos os teatros do país, como ator, encenador e empresário. Teve uma breve mas muito impressiva passagem pelo Conservatório Nacional como professor da arte de representar e de encenação, onde ensinou alguns dos maiores nomes da cena portuguesa contemporânea, como Eunice Muñoz, Artur Semedo, Canto e Castro, Ruy de Carvalho ou Maria Barroso. 
Actor naturalista por excelência, considerado como a personalidade teatral mais proeminente da sua geração, foi intérprete incomparável de Bernstein, Bataille, Niccodemi, entre muitos outros autores, e trouxe para os palcos portugueses alguns dramaturgos nunca representados até então entre nós, como Pirandello, Lenormand e o nosso Raul Brandão. Os primeiros vinte anos da carreira de Alves da Cunha foram verdadeiramente empolgantes, tendo atingido o seu apogeu em 1932. 


Nesse ano, o actor ingressou no elenco da companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro para uma gloriosa digressão ao Brasil, e, no regresso, fixou-se nos seus quadros residentes. Nesta sua primeira passagem por aquela companhia, que durou pouco mais de dois anos, Alves da Cunha criou personagens memoráveis em peças como “As Duas Causas”, que mais tarde interpretaria também no cinema, “Frei Luís de Sousa” e “A Dama das Camélias”, entre muitas outras. 
Mas foi na companhia Rosas & Brazão, na temporada 1914-1915, que o ator teve ocasião de pôr à prova pela primeira vez as potencialidades do seu talento. Com o seu estatuto de grande actor já consolidado, Alves da Cunha formou companhia com a sua mulher, a actriz Berta de Bivar, mas não foi muito feliz nessa tremenda aventura de empresário. Arrostou grandes dificuldades, de que se queixava vezes amiúde. Chegou até a não ter palco para representar, como referiu numa carta enviada para o jornal Diário de Lisboa. «Parece mentira, mas é verdade: não tenho casa para trabalhar» - escreveu Alves da Cunha. 


Mas em 1943, após mais uma breve estada no Teatro da Trindade, regressou ao elenco do Teatro Nacional D. Maria II, onde se manteve por mais rês temporadas, destacando-se então o seu notável desempenho em “Dulcineia ou a Última Aventura de D. Quixote” de Carlos Selvagem. O desemprego voltou logo de seguida. Alves da Cunha pensou, então, em reformar-se, chegando a expor o assunto às entidades que superintendiam naquela matéria. Esta inacreditável situação provocou porém um movimento de opinião, que propõe a realização de uma festa de homenagem para angariação de fundos para a sua subsistência. 
Mas surge de imediato outro movimento que protesta veementemente contra tal evento, reclamando que o grande actor precisava, isso sim, que lhe fossem garantidos os meios indispensáveis a que pudesse manter a sua actividade de acordo com o seu verdadeiro desejo e no próprio interesse do público e do teatro português. Todos estes entraves e dificuldades não aconteciam a um artista qualquer, mas a um actor, encenador, empresário e mestre de eleição, artista de envergadura excepcional que honrou o seu tempo, que foi admirado sem reservas pelo público e pela crítica e que deixou o seu inegável talento impresso nos palcos e em meia dúzia de filmes notáveis: “Tragédia Rústica”, que também realizou, “Maria do Mar” de Leitão de Barros, “Feitiço do Império” de António Lopes Ribeiro, “Duas Causas” de Henrique Campos, “A Garça e a Serpente” de Arthur Duarte, e “Rosa de Alfama” de Henrique Campos. No princípio da década de 1950 tudo parecia recompor-se. São dessa época a “Ceia dos Cardeais”, que ele fez de forma assombrosa com Assis Pacheco e João Villaret, “O Avarento”, “Otelo” e “Um Inimigo do Povo”, entre muitas outras peças. 
Porém, a doença começa a dar sinais. Uma angina de peito provoca-lhe dores insuportáveis, que ele vai disfarçando em cena a muito custo. Dores essas que eram bem visíveis quando fez “Joana d’Arc”, com Eunice Muñoz, no Teatro Avenida. Pouco tempo depois, no ensaio geral para a censura de uma peça de Sherriff, foi acometido por uma dor brutal. Agarrou-se a Artur Semedo nos bastidores, quando esperava pela sua deixa, e disse-lhe: «já não sou capaz». 


E já não entrou em cena. Nunca mais! 


A partir dessa noite o teatro português perdeu um dos seus mais ilustres filhos


Salvador Santos
Porto. 2012. 06. 10


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