BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” recordando o enorme e brilhante actor Raul de Carvalho.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” recordando o enorme e brilhante actor Raul de Carvalho.

In memoriam
Raul de Carvalho nasceu em Salvaterra do Extremo (uma freguesia do Concelho de Idanha-a-Nova, Distrito de Castelo Branco) em 18 de Fevereiro de 1901 e faleceu em Lisboa em 11 de Agosto de 1984. Foi um enorme e brilhante actor português



O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” recordando o enorme e brilhante actor Raul de Carvalho. 


NO PALCO DA SAUDADE 
RAUL DE CARVALHO 


Estudou no Colégio Militar, participou na Primeira Guerra Mundial como voluntário aos dezasseis anos e estreou-se no teatro quatro anos depois. “Zilda” de Alfredo Cortez foi a peça de estreia, aquando da sua reposição no palco do Teatro Nacional São Carlos, numa produção da companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro. A sua bonita figura de galã e a sua bela voz despertaram as atenções do público feminino da sua geração, que foi acompanhando de forma apaixonada todos os passos da sua longa e brilhante carreira. 


Essa dedicação foi logo visível na sua segunda peça (“Entre Giestas”), também no São Carlos, com os gritos agudos histéricos que ecoavam na sala nos agradecimentos finais, chamando pelo seu nome, situação que se repetiu depois no Teatro da Trindade, para onde o actor transitou na época seguinte. 


 Os seus três primeiros anos naquele velho teatro do Chiado, em Lisboa, foram inesquecíveis. Entre as personagens do excelente repertório que ali representou, ficou para a história do teatro português o seu Armand Duval da peça “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas Filho. No dia seguinte à estreia do espetáculo, um jornal da época publicava uma reportagem do acontecimento que terminava com a intervenção de uma jovem espectadora: «Ah, o Raul, o Raul! 


Quando ele aparece em cena com uma bela capa, que cruza sobre os ombros, que homem, que porte, que panache o seu!» Foi a consagração de Raul de Carvalho, a prova provada de que se estava perante um actor multifacetado, capaz de ir da comédia ao drama histórico e moderno, passando pela farsa e pela tragédia sempre com o mesmo brilhantismo. Não tardaram os convites para outros voos, outras experiências de maior fôlego e responsabilidade. 


Uma companhia dirigida por Alexandre de Azevedo e Ilda Stichini aceita fazer uma temporada no Teatro Nacional D. Maria II e convida-o para interpretar “Os Filhos” de L. Nepoty. Com a mesma companhia muda-se depois para o Teatro Politeama, onde representa “Inimigos” de Vitoriano Braga e “O Sr. Doutor e seu Marido” de Verneuil e Berr. Raul de Carvalho pretendia abrir caminho ao teatro de vanguarda da época e decide interpretar “Martine” de Jean Jaccques Bernard e “Napoleão - O Homem do Destino” de Bernard Shaw. A estes êxitos, seguiu-se o seu ingresso numa companhia liderada por Maria Matos, Adelina e Aura Abranches, onde rubricou uma notável criação na peça “O Homem que se Arranjou” de Ramada Curto. 


Dez anos depois da sua estreia, Raul de Carvalho regressa definitivamente à companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, que iniciava a sua longa série de épocas como concessionária do Teatro Nacional D. Maria II, interpretando quase todo o seu repertório a partir daí, na qualidade de galã central. Em “Sonho de Uma Noite de Verão” de Shakespeare, “Os Velhos” de D. João da Câmara, “Castro” de António Ferreira e “Lugre” de Bernardo Santareno, entre muitas outras peças, Raulinho (como ele se chamava a si próprio!) regista interpretações de antologia, que iluminaram o palco do Rossio e percorreram depois quase todo o país, e não só.


A sua interpretação em “Tá-Mar” de Alfredo Cortez, por exemplo, foi recebida com aplausos em Paris e o seu Amadis de Guala (tragicomédia de Gil Vicente) conheceu enorme sucesso no Brasil. Apesar da sua grande ligação à companhia liderada pelo casal Rey Colaço-Robles Monteiro, Raul de Carvalho afasta-se temporariamente por diversas vezes do Teatro Nacional D. Maria II para satisfazer propostas que o levaram até ao Teatro Variedades para representar “Ciúme” de L. Verneuil, com Maria Lalande, onde voltaria mais tarde para fazer “Deus lhe Pague” de Joracy Camargo. 


Voltaria também ao Teatro Politeama para interpretar o Capitão Stanhope (uma das suas melhores criações) de “O Fim da Jornada” de Sherriff. O Teatro da Trindade voltou a tê-lo em “Luz do Gás” de Patrick Hamilton, e o Teatro Monumental acolheu-o na peça “A Fera Amansada” de Shaskespeare, onde o ator desempenhou o papel de Petrúcio ao lado de Laura Alves. Na madrugada de 2 de Dezembro de 1964, Raul de Carvalho acordou com um telefonema do seu camarada de camarim Varela Silva. 


O seu Teatro, o D. Maria, era consumido pelo fogo. Aquele triste acontecimento, que se juntou à súbita morte da sua amantíssima mulher meses antes, arrasou-o completamente. A companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro deslocou-se, então, para o Teatro Avenida, onde Raul de Carvalho ainda veio a interpretar as peças “O Motim” e “A Escada”. Pouco tempo depois, a 16 de Dezembro de 1966, Raul de Carvalho faz a sua despedida no Teatro Municipal São Luiz interpretando “O Ciclone”, de Somerset Maugham. 


Sobre o seu afastamento depois de quarenta e cinco anos de teatro, Raul de Carvalho, numa entrevista concedida no dia da sua última representação, disse: «Casei, fui feliz, mas a morte levou-me a esposa há cinco anos. Desde aí nunca mais me recompus. Estou cansado. Representei centenas de peças. Fiz imensa rádio e alguma televisão. Participei em dezoito filmes, onde fui dirigido por grandes artistas como Leitão de Barros e António Lopes Ribeiro, e tive excelentes oportunidades ao trabalhar com cineastas como Arthur Duarte ou Perdigão Queiroga. Parto de bem com o que fiz».


Salvador Santos
Porto 2012. 06. 06

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