BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Armando Cortez é hoje recordado na rubrica “No Palco da Saudade” do nosso Salvador Santos

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Teatro no Bancada Directa. Armando Cortez é hoje recordado na rubrica “No Palco da Saudade” do nosso Salvador Santos

In memoriam 
Armando Cortez nasceu em Lisboa em 23 de Junho de 1928 e faleceu nesta mesma cidade em 11 de Abril de 2002. 
Foi um grande nome do teatro, cinema e televisão portugueses

No Palco da Saudade
Rubrica de Salvador Santos com texto inédito
Armando Cortez é hoje recordado


Foi um dos mais brilhantes actores da sua geração, com um extraordinário sentido dos tempos de comédia. Ele era, aliás, dotado de um humor irresistível, o que contribuía naturalmente para o sucesso da construção das cenas de comédia por ele experimentadas em palco. Todos os seus camaradas de profissão têm pelo menos uma estória cómica para contar sobre o Armando Cortez. Assim como nós também. Antes de recordarmos, porém, algumas das hilariantes situações por ele vividas fora dos palcos, impõe-se evocar a sua faceta de artista. 


Faceta que na verdade nasceu nos bancos do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, onde começou por fazer teatro radiofónico amador. Depois, findo o liceu, ignorou as pretensões do pai em vê-lo pintor e decidiu entrar no Conservatório. E foi ainda como aluno que ele se estreou no Teatro-Estúdio do Salitre, na peça “Um Chapéu de Palha de Itália”, de Labiche, ao lado de Canto e Castro e Rogério Paulo. 


Já como profissional, Armando Cortez estreou-se no Teatro Apolo, integrando depois o elenco do Teatro do Povo e de seguida a companhia d’ Os Comediantes de Lisboa, onde granjeou a aura de actor dramático, devido ao seu sublime desempenho em “À Espera de Godot” de Samuel Beckett, ao lado dos Mestres Ribeirinho e Fernando Gusmão, e a um antológico “Rei Lear”. Outros dos grandes momentos vividos por Armando Cortez tiveram por palco o Cinema Império, espaço-sede do mítico Teatro Moderno de Lisboa, onde brilhou em peças como “O Pato” de Georges Feydeau, “O Crime do Padre Amaro” de Eça de Queirós e “O Tinteiro” de Carlos Muñiz, um verdadeiro hino à liberdade levado a cena em tempos da ditadura, considerado por muitos como a maior provocação do teatro português ao antigo regime. Com o advento da televisão, 


Armando Cortez atingiu grande popularidade, graças à sua participação nas peças de teatro que a RTP apresentava semanalmente em horário nobre e à sua parceria com Francisco Nicholson no programa “Riso e Ritmo” («Já é uma hora? Que grande banquete!» – lembram-se?), que dominava as noites televisivas de sábado nos finais de 1960. Paralelamente, o actor ia fazendo incursões pelo teatro de revista, onde contracenou com alguns dos maiores nomes daquele género teatral, como Laura Alves ou Ivone Silva. A propósito da nossa saudosa Ivone, aqui fica um primeiro pitoresco episódio protagonizado por Armando Cortez: Ivone havia rompido o seu casamento e o ex-marido apresentava-se no Parque Mayer com um ar muito triste e infeliz. Comentário do Armando: «Coitado, ele gastava tanto dela!» 


Por esta altura, Armando Cortez fazia com alguma regularidade digressões por todo o país, integrando o elenco de espectáculos produzidos pelo empresário Vasco Morgado. Numa delas, quando houve uma paragem em Caramulo, os actores foram convidados a visitar o Sanatório e, naturalmente, o pessoal médico, paramédico e auxiliar teve a maior curiosidade em ver os cómicos. 


Algumas raparigas, muito tímidas e com certo acanhamento, corriam de um lado para o outro, em risadinhas nervosas para espreitarem os actores. Alguém do elenco pergunta: «Quem são aquelas?». Diz o Armando: «Devem ser tuberculosas galopantes!». Bom, mas deixemo-nos dos episódios cómicos do Armando Cortez e centremo-nos na sua performance como actor. “Vamos Contar Mentiras”, no Teatro Monumental, foi um dos maiores acontecimentos teatrais do ano 1963. 


E Armando Cortez pontificava em grande plano no seu elenco, tendo rumado no ano seguinte ao Teatro Villaret para participar em “O Impostor-Geral”, espectáculo que inaugurou aquele popular espaço construído de raiz pelo seu amigo Raul Solnado. 


Após Abril de 1974, fundou a Companhia Repertório, no Teatro Maria Matos, tendo levado ali à cena alguns dos mais bem-sucedidos espectáculos da época, como foi o caso de “Schweik na Segunda Guerra Mundial”, de Bertolt Brecht. E pelo meio teve algumas aparições esporádicas no cinema, que culminou com uma sólida participação no filme “Sem Sombra de Pecado”, de José Fonseca e Costa, considerada a sua prestação cinematográfica mais marcante. 


 Na década de 1980, o actor preferiu dedicar-se à televisão, embora não tenha colocado completamente de parte o teatro, participando ali em peças de vídeo-teatro como “Tragédia na Rua das Flores” (que também havia levado a cena no seu Maria Matos) e “Aqui Há Fantasmas”. O nome de Armando Cortez apareceu ainda associado às telenovelas: a primeira foi “Chuva na Areia”, a que se seguiram muitas outras, entre as quais “Ajuste de Contas”, onde interpretou magistralmente a personagem de Mestre Eugénio, um pintor alcoólico que desperdiça o seu talento a falsificar quadros. 


Em 1999, Armando Cortez viu cumprido um sonho que há muito acalentava: a inauguração da Casa do Artista, uma casa de repouso para a gente do espectáculo imaginada por Raul Solnado e que Armando dirigiu até à sua morte. 


Antes, porém, fez o seu amigo Raul prometer que o substituiria como presidente da direcção daquela IPSS. 


Ele sabia que Solnado nunca faltava às suas promessas. E partiu tranquilo! 


Salvador Santos 
Porto 2012. 06. 02


Nota de Bancada Directa: no recente post realçando o nosso "um milhão de visitas", esquecemo-nos de mencionar como colaborador especial do nosso blogue o especialista em assuntos de Teatro, o nosso  amigo pessoal Salvador Santos.
Do facto pedimos desculpa ao Salvador e aos nossos leitores pela omissão imperdoável.

1 comentário:

luis pessoa disse...

Conheci Armando Cortez por volta de 1977/8, por motivos profissionais e posso dizer que a sua capacidade para lançar a piada certeira no momento certo, era brilhante.
Não privei com ele, como é óbvio, mas ainda nos encontrámos algumas vezes e de todas teve palavras simpáticas e fino humor.
Muito bom trabalho do Salvador Santos, uma pessoa cheia de histórias do Teatro e de todos os seus maiores.
Parabéns.

Obrigado Pela Sua Visita !