BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos na sua rubrica "No Palco da Saudade" recorda o grande actor Rogério Paulo

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos na sua rubrica "No Palco da Saudade" recorda o grande actor Rogério Paulo


In memoriam
Rogério Paulo nasceu em Angola em 17 de Novembro de 1927 e faleceu em Carnaxide, perto de Lisboa em 25 de Fevereiro de 1993. Foi actor e encenador do cinema, teatro e televisão portugueses. Foi, igualmente, um activista politico


O Teatro no Bancada Directa. O actor Rogério Paulo é hoje recordado por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”.

No Palco da Saudade.
Rogério Paulo
Texto inédito e integral de Salvador Santos para o blogue Bancada Directa

Cidadão politicamente ativo, empenhado desde muito novo na construção de uma sociedade socialista, integrou as listas de oposição ao regime fascista em 1957 e esteve envolvido na célebre fuga de Álvaro Cunhal do Forte de Peniche. Quando Marcelo Caetano subiu ao poder, redigiu um documento assinado por cento e setenta atores onde protestava contra o estado do teatro português e contra a censura, que há muito espartilhava a criação artística em Portugal. Após a Revolução de Abril conquistou assento no Parlamento, nas primeiras eleições livres, integrado nas listas do Partido Comunista, onde militava clandestinamente desde 1953. E nos palcos manteve a luta, que travava desde 1950, por um teatro liberto de todas as amarras.

Ainda aluno do Conservatório, Rogério Paulo debutou no Teatro Nacional D. Maria II, onde contracenou com alguns dos nomes maiores da cena teatral portuguesa, como Palmira Bastos ou Nascimento Fernandes. A sua estreia como profissional aconteceu na Companhia do notável ator Alves da Cunha. A sua figura de galã levou-o pouco depois ao cinema (“A Garça e a Serpente” e “O Costa de África”), sem nunca deixar o teatro. Com Glicínia Quartin e Jacinto Ramos, criou, em 1958, o Teatro do Jovem Espectador, cuja peça de estreia (“Emílio e os Detectives”) alcançou um sucesso sem precedentes no teatro para a infância. E três anos depois impulsionou a criação de um dos mais importantes grupos de sempre: o Teatro Moderno de Lisboa.

Criado sem subsídios, assente numa sociedade artística com divisão de lucros (e despesas!) pelos societários (Fernando Gusmão, Armando Cortez, Paulo Renato, entre outros), o Teatro Moderno de Lisboa é uma iniciativa revolucionária para a época. Os seus princípios orientadores de funcionamento e o sucesso obtido com a peça de estreia (“O Tinteiro” de Carlos Muñiz) despertam os sentidos predadores da PIDE, que passa a perseguir dia e noite os atores envolvidos nos espetáculos. O Cinema Império, onde a Companhia se instalara, recebe a visita regular daqueles senhores de triste memória. A tentativa era amedrontar artistas e público. E conseguem! Quatro anos depois, aquela que foi a um dos casos mais sérios de companhias de teatro portuguesas, tanto pelos intuitos que se propunha como pelos elementos que a integravam, chega ao fim.

Antes do seu desmembramento, o Teatro Moderno de Lisboa apresentou-se em Paris, no Festival Internacional de Teatro de 1962, onde Rogério Paulo já estivera alguns anos antes integrado no elenco da companhia Rey Colaço-Robles Monteiro. Foi tão grande o sucesso da prestação do actor que o pano de boca subiu e desceu dezoito vezes nos agradecimentos finais, na noite de estreia, entre os aplausos e gritos entusiásticos do público reclamando: «Tout le monde… ao palco!». Pouco tempo depois, Rogério Paulo voltou a Paris mas dessa vez para frequentar a Universidade do Teatro das Nações, terminando o Curso no primeiro lugar da classificação, o que lhe valeu o convite para continuar por lá mais um ano como assistente de direcção.

No regresso a Portugal, Rogério Paulo decidiu reforçar a sua aposta nos domínios da encenação, tornando-se gradualmente num dos mais conceituados encenadores portugueses, estatuto que confirmou no Teatro Nacional D. Maria II – onde dirigiu peças como “Esfera Facetada” de Nuno Moniz Pereira, “O Pecado de João Agonia” ou “O Judeu”, ambas de Bernardo Santareno – e consolidou por terras estrangeiras, nomeadamente em Antuérpia, onde dirigiu com sucesso uma versão flamenga de “O Gebo e a Sombra” de Raul Brandão e diversos clássicos da dramaturgia universal. Entretanto, devido ao seu reconhecimento internacional, foi convidado a participar no IV Congresso Internacional do Instituto de Teatro, em Varsóvia.

Apesar das suas frequentes incursões pela encenação, Rogério Paulo não descurou nunca a faceta de ator, que foi desenvolvendo nos mais diversos registos. No cinema, destaca-se a sua participação nos filmes “A Recompensa” de Arthur Duarte e “Sem Sombra de Pecado” de Fonseca e Costa. Na televisão ficou para a história o Mimoso das Sardinhas criado para a telenovela “Chuva na Areia”. No teatro releva-se a sua prestação na peça “Mãe Coragem e os seus Filhos”, e a interpretação que lhe valeu o Prémio da Imprensa para o Melhor Ator no Teatro Moderno de Lisboa (“Lugre”). Entretanto, passa a escrito o seu pensamento sobre as relações do teatro e a política e edita, entre outras obras, “Um Ator em Viagem” e “Introdução ao Teatro Cubano”.
Rogério Paulo mantém, entretanto, a actividade política. Torna-se presidente da Associação Portugal-Cuba. Colabora na promoção de ideais que dignifiquem os mais desfavorecidos, como o do cooperativismo. E no seu palco de eleição, o do teatro, estabelece solidárias relações com actores de intervenção, como o cubano Alfonso Sastre. Com ele imagina a criação de um organismo ibero-americano que defenda e fortaleça o teatro falado em português e castelhano. Morre antes de o sonho se tornar realidade. Largas centenas de artistas, políticos, intelectuais e público anónimo passam pelo Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II, onde o seu corpo esteve em câmara ardente, para prestar a última homenagem a um dos mais lúcidos actores do século vinte.
Salvador Santos
Porto. 2012. 05. 06

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