BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Na sua rubrica “No Palco da Saudade” Salvador Santos recorda Helena Félix

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O Teatro no Bancada Directa. Na sua rubrica “No Palco da Saudade” Salvador Santos recorda Helena Félix

In memoriam
Helena Félix, de seu nome próprio Maria Helena de Carvalho Félix, nasceu na cidade do Porto em 10 de Abril de 1920. Veio a falecer no ano de 1991. Foi uma actriz do teatro e cinema portugueses

O Teatro no Bancada Directa. 
Na sua rubrica “No Palco da Saudade” Salvador Santos recorda Helena Félix 

 NO PALCO DA SAUDADE 
 HELENA FÉLIX


 A música e o canto foram a paixão de infância desta ilustre portuense que viria a brilhar nos palcos do teatro português na segunda metade do século vinte. Mal começara o liceu, os pais inscreveram-na no Conservatório de Música do Porto, onde estudou canto durante dois anos. A música e as cantigas acabariam por abrir-lhe as portas do teatro. Estreou-se com pouco mais de vinte anos como discípula num espectáculo musical no Teatro Trindade, em Lisboa, e durante quatro anos andou entre a opereta e a revista em busca de um lugar nos palcos. E a tarefa não foi fácil. Foi longo e duro o caminho desta talentosa actriz que esteve na génese de uma das mais importantes companhias de sempre do nosso teatro independente: o Teatro-Estúdio de Lisboa. 

 "Gente Nova". Helena Félix, Antonio Feio, Henriqueta Maia e Vasco Morgado Junior


O teatro de revista foi a sua principal tarimba, quase sempre como simples chefe de quadro, enquanto ia sonhando com uma oportunidade no teatro declamado. Esteve no sucesso de revistas como “O Jogo da Laranjinha”, “Tico-Tico” e “Alto Lá com o Charuto”, iniciou-se no cinema com um pequeno papel no filme “Aqui Portugal”, de Armando Miranda, e começou a despontar em folhetins radiofónicos da ex-Emissora Nacional. Na sequência do resultado obtido nestes seus trabalhos, o empresário Robles Monteiro convidou-a a ir para a cidade do Porto, integrada na companhia do Teatro Nacional D. Maria II, com a peça “As Meninas da Fonte da Bica”. Mas a digressão, e por consequência a sua ansiada estreia no teatro declamado, ficaria sem efeito. 

A oportunidade acabaria, no entanto, por chegar. Mas antes disso, Helena Félix partiu para Paris. Por lá assistiu a todos os espectáculos que estavam em cena e frequentou os bastidores dos teatros, onde frequentemente a confundiam com a célebre artista mexicana Maria Félix. E no regresso a Lisboa surge então o convite para integrar o elenco da peça “Miss Mabel”, no Teatro da Trindade, onde trabalha ao lado de Palmira Bastos, que assume cuidados especiais com a novata actriz. Logo depois, veio “O Ninho de Águias” e o ingresso durante onze anos na companhia do Teatro D. Maria II. 


Nessa companhia entra em meia centena de peças alcançando rapidamente enorme sucesso, designadamente em “As Bruxas de Salém” e “As Árvores Morrem de Pé”. Durante a sua permanência no Teatro Nacional de Lisboa, Helena Félix é diversas vezes elogiada por Amélia Rey Colaço pelo seu empenho e profissionalismo em palco, enquanto nos bastidores estuda inglês, lê vorazmente peças de teatro, romances e poesia. Nos tempos de pausa no teatro, dedica-se à televisão e à rádio, atingindo aí grandes níveis de popularidade. A sua sede de aperfeiçoamento, a sua vontade férrea de ir sempre mais longe, de conhecer nossas realidades teatrais, levá-la-ia no princípio dos anos 1960 até Londres. 
Durante três anos estuda numa das melhores escolas londrinas, vê tudo o que há para ver no teatro e… convive diariamente com Luzia Maria Martins, que há muito fazia a sua aprendizagem teatral na capital britânica. Aquela relação com a filha do conhecido cenógrafo Reinaldo Martins, que viria a tornar-se numa das mais criativas e exigentes encenadoras e dramaturgas portuguesas, dotada de uma apurada sensibilidade para a criação de atmosferas de luz, acabaria por dar origem a um belo sonho que depressa se tornou realidade. No regresso a Portugal partiram á descoberta de um teatro disponível para receber uma nova companhia de teatro – o Teatro-Estúdio de Lisboa. Encontraram um espaço na Feira Popular de Lisboa, até então utilizado como estúdio de televisão, e deitaram mãos à obra. Mas o seu repertório, criteriosamente escolhido, pretendia alertar consciências e, devido a essa manifesta intenção, a companhia teve sempre grandes problemas com a censura. 


Os censores do velho regime não perdoavam a ousadia do Teatro-Estúdio de Lisboa e tornavam a sua vida num verdadeiro inferno. Mas apesar de todas as dificuldades, foi possível levar a cena textos, como “As Mãos de Abraão Zacut” de Sttau Monteiro, estreado em 1969, que, à partida, ninguém esperaria que fossem autorizados. Foi igualmente o caso de peças como “A Louca de Chaillot” de Jean Giraudoux e “Quem é Esta Mulher” de Marguerite Duras (que valeram a Helena Félix o prémio Lucinda Simões para a Melhor Actriz em 1968 e 1970), que escaparam também ao filtro apertado da censura, juntando-se assim a um repertório sério e exigente onde pontuavam obras de Shakespeare, Tchekhov, Strindberg ou Arnold Wesker.
Doze anos após a sua fundação, o Teatro-Estúdio de Lisboa teve que fechar as portas, face às enormes dificuldades que, apesar da revolução do 25 de Abril, a vida da companhia continuava a ter de suportar. Sem a sua companhia, Helena Félix foi-se afastando aos poucos. Em 1986 aceitou voltar ao cinema para fazer “A Noite e a Madrugada”, fechando assim o seu currículo na sétima arte, três anos antes da sua última aparição em cena, no espectáculo “Habeas Corpus”. Hoje resta-nos a saudade do seu talento, que podemos comprovar nos filmes “Quando o Mar Galgou a Terra”, “Os Toiros de Mary Foster” ou “O Mal Amado”, onde a actriz deixou bem vincada para a posteridade a marca da sua imensa dedicação à arte de representar. 


Salvador Santos
Porto. 2012. Maio. 19

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