BANCADA DIRECTA: O saber não ocupa lugar: A história de quem produziu os famosos rebuçados "Dr. Centazzi"

terça-feira, 8 de maio de 2012

O saber não ocupa lugar: A história de quem produziu os famosos rebuçados "Dr. Centazzi"

O saber não ocupa lugar. 
É como o povo diz: este até rebuçados consegue vender. 
E de que maneira. A história do Dr. Guilherme Centazzi 


O tipo escreveu em 1840 o 1.º romance histórico português aos 14 anos, o 1.º romance moderno luso uns anos depois; e foi traduzido para alemão antes de Herculano. As obras são boas. Apesar de tudo isto, foi esquecido pelos escritores coevos e pelos historiadores da literatura até um outro escritor amante do romance histórico português se interessar pelo caso. 


"O ESTUDANTE DE COIMBRA" 
Relâmpago da História Portuguesa desde 1826 até 1838 
A grande crónica contemporânea das Guerras Liberais, num estilo desassombrado, feita por um escritor pioneiro, esquecido e agora redescoberto, que deverá ser considerado o pai do romance português moderno. Sobre a obra: Centazzi foi o primeiro romancista português, ainda antes de Alexandre Herculano e Almeida Garrett, antecipando em quatro anos “Eurico, o Presbítero” e em seis anos as “Viagens na Minha Terra”. Publicou em 1840 e 1841 “O Estudante de Coimbra”, o primeiro romance português moderno, afirmando-se como pioneiro do Romantismo em Portugal. 


Foi ainda o primeiro romancista a ser traduzido no estrangeiro, embora ignorado pela elite nacional da época e ausente de quaisquer estudos sobre literatura nacional. Em 1844, foi publicada em Leipzig a tradução em alemão da sua obra “O Estudante de Coimbra”, ou “Relâmpago da História Portugueza”, sob o título”Der Student von Coimbra”, pelo editor H.B. Hirschfeld. Sobre esta obra do Dr. Guilherme Centazzi, Pedro Almeida Vieira, conhecido romancista e organizador de uma base de dados de literatura histórica, desenterrou do esquecimento esta obra e o autor. A professora Maria de Fátima Marinho, directora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, escreveu para esta edição um estudo sobre a obra literária de Centazzi onde afirma que “O Estudante de Coimbra” sobressai pela modernidade e grande actualidade «afastando-se decisivamente do romance setecentista». 


Retrata as venturas e desventuras de um estudante de Coimbra que se vê envolvido nas Guerras Liberais, enquanto tenta recuperar a sua amada, Maria, das teias urdidas por um frade demasiado mundano. A acção passa-se em Portugal e França, no período entre 1826 e 1838, constituindo, além de mais, um excelente repositório dos conturbados e sanguinários acontecimentos dessa época e a evolução política nos anos subsequentes, onde Centazzi faz transparecer a sua desilusão. 


Quem foi o Dr. Guilherme Centazzi: 
Nascido em 20 de Novembro de 1808, na cidade de Faro, Guilherme Centazzi era filho de pai veneziano e de mãe portuguesa. Apesar destas suas origens, nas suas obras vinca sempre o seu amor ao Algarve – a quem atribui o seu «defeito» de ser falador e grulha – e nota-se um forte patriotismo. Formou-se na Faculdade de Medicina de Paris, obtendo o grau de Doutor, após ter fugido de Portugal por causa das suas opções liberais. Regressado a Portugal em 1834, viveu em Lisboa, mas exerceu medicina em diversas regiões em redor da capital. Durante as epidemias de febre amarela, na década de 50, a sua acção foi reconhecida com a comenda de Cavaleiro da Ordem de Cristo, numa época em que lhe morreria, num curto espaço de tempo, o seu filho – da sua primeira mulher, que falecera pouco depois do parto –, a nora e o neto. 


Além de diversas obras de medicina, foi o precursor em Portugal de escritos sobre as vantagens da ginástica na saúde – algo que foi visto na época como uma excentricidade – e inventou uns rebuçados peitorais, cuja comercialização industrial e sucesso se estenderia até meados do século XX. A sua vida literária estendeu-se à poesia – em que se estreou em 1827, aos 19 anos, ainda como estudante em Coimbra –, ao romance, à dramaturgia e a composições para piano e canto. Era um exímio instrumentista em saraus da burguesia e nobreza, tendo integrado uma orquestra onde pontuava o famoso conde de Farrobo. Foi ainda proprietário de dois periódicos efémeros: Desenganos da Vida (1863) e O Semanário (1867-1868). Morreu em Lisboa, a 28 de Junho de 1875, e está sepultado no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, no jazigo que pertencia a um primeiro-ministro durante um governo da Monarquia Constitucional. 


Contribuições pormenorizadas sobre a figura de Guilherme Centazzi 
Os Rebuçados Peitorais do Dr. Centazzi 
O Dr. Guilherme Centazzi (1808-1875) foi um médico que nasceu em Faro e, embora tenha iniciado a sua carreira em Coimbra, acabou por se doutorar em Paris. Sobre este período de estudante, em Portugal, de onde foi obrigado a afastar-se pelos seus ideias liberais e, posteriormente, em Paris, publicou, em 1849, um livro de memórias intitulado: «O Estudante de Coimbra ou relâmpago da História Portuguesa desde 1826 até 1838». 


Além desta, escreveu outras obras, entre as quais «Hygiene e medicina popular». Na segunda metade do século XIX e na primeira do século XX, os rebuçados do Dr. Centazzi foram muito famosos. Na época, o fabrico de rebuçados em farmácias era frequente, porque eram sobretudo medicinais. Deve ter sido o que aconteceu neste caso, embora não tenhamos informação sobre o modo de fabrico inicial. Eram recomendados «muito especialmente aos cantores e oradores». Eram vendidos a peso e não continham essências artificiais. Em 1924 os irmãos Alberto e Arnaldo Pereira fundaram a A. F. Pereira Lda., que daria origem à Salutem. Em 1925 adquiriram uma fábrica de rebuçados e criaram a marca Centazzi, com pedido de registo em 9 de Fevereiro desse ano (1) e formaram a sociedade Centazzi Lda. 


 A comercialização destes rebuçados foi acompanhada por algumas preocupações de publicidade e a imagem desta mãe a dar ao filho um xarope, feito com estes rebuçados, data de 1925. Para obter o xarope diluíam-se 6 rebuçados em dois decilitros de leite ou café e tomava-se, de preferência, ao deitar. Numa das suas imagens usadas para publicidade dizia-se: «Pedir em toda a parte», e realmente a sua venda estava divulgada. No jornal O Cezimbrense (2), de 1929, a publicidade à Mercearia, Café e Cervejaria da Viúva de Francisco Pinto Coelho & Filho, para além dos seus inúmeros produtos, informava que tinha sempre em depósito «os afamados Rebuçados Peitorais do Dr. Centazzi». 
A lata que aqui se apresenta levava 4 kg de rebuçados «contra tosses, bronquites, rouquidão e afecções das vias respiratórias». Estes rebuçados eram «feitos com um xarope especial e aromático segundo fórmula do Dr. Centazzi». Nesta altura, década de 1940-1950, eram feitos em exclusivo por esta fábrica da Sociedade Centazzi Lda., situada na Rua da Aliança Operária, Nº 4, Pátio do Cardoso 8, em Santo Amaro, Lisboa. 


Embora hoje as pessoas só conhecem os rebuçados do Dr. Bayard, é importante recordar outras marcas que foram igualmente, ou mais, famosas. 


Os nossos agradecimentos ao “Peão” e ao “Garfadas” pela cortesia


Post dedicado aos nossos amigos António Raposo e Dr. Pedro Paulo Faria

1 comentário:

Pedro Faria disse...

Meu caro Adriano Ribeiro:
Muito obrigado pela dedicatória, cujo merecimento, da minha parte, não sei onde o meu amigo foi buscar. Assim o entendeu, é, portanto, da sua inteira responsabilidade...
Um grande abraço.
Pedro Faria

Obrigado Pela Sua Visita !