BANCADA DIRECTA: Neste blogue, às segundas, temos sempre a rubrica “O Teatro no Bancada Directa” coordenada por um homem do nosso teatro: Salvador Santos. Hoje recorda-se Fernanda Alves

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Neste blogue, às segundas, temos sempre a rubrica “O Teatro no Bancada Directa” coordenada por um homem do nosso teatro: Salvador Santos. Hoje recorda-se Fernanda Alves

In memoriam
Maria Fernanda Machado Alves nasceu em Lisboa em 1930. 05. 06 e faleceu na cidade do Porto em 2000. 06. 01 . Foi uma actriz e encenadora do nosso Teatro.


 “No Palco da Saudade”. 
Texto inédito e integral de Salvador Santos para o blogue Bancada Directa 


FERNANDA ALVES


 Reconhecida como actriz de grande expressividade, era capaz de interpretar personagens dotadas de um perfil, ao mesmo tempo rigoroso, subtil e comunicativo, respeitando as nuances que as definiam. Assumindo cada personagem como um ser único, Fernanda Alves rejeitava o fácil, o secundário. Ao longo da sua carreira, interpretou largas dezenas de personagens sem nunca se repetir. Foi uma figura destacada do teatro independente, tendo passado por alguns dos seus principais grupos, como actriz e encenadora. 
Generosa e solidária, esteve sempre na primeira linha de combate por uma verdadeira independência artística na produção teatral em Portugal. Dedicou ao teatro um amor inesgotável, mas foi nas cantigas que tudo começou. Ainda criança iniciou-se como cantora na Rádio Renascença, tendo-se notabilizado aos dezanove anos no programa “Vozes de Portugal”. O pai chegou a proibi-la de actuar na rádio porque tal colidia com os seus estudos, mas no fundo orgulhava-se do seu talento. Apaixonado pelo mundo do espectáculo, levava-a às temporadas do Coliseu de Lisboa, onde ela se familiarizou com os vários géneros musicais. 


E quando parecia encaminhar-se para uma carreira na música, eis que o Curso do Conservatório, onde foi distinguida com os prémios “Nacional do Teatro” e “Augusto Rosa”, a fez mudar de rumo. Foi assim que Fernanda Alves trocou a sua experiência anterior de cantora pela de actriz, certa de ter encontrado a sua verdadeira vocação. 
Um amor tão grande. Fernanda Alves e Ernesto Sampaio


O Teatro de Gerifalto, grupo vocacionado para espectáculos infantis, foi o seu primeiro palco. A sua primeira vez perante um público adulto foi em “Tirésias” de Guillaume Apollinaire, levado à cena pela Companhia Nacional de Teatro, sob a direcção de Álvaro Benamor. E pouco tempo depois esteve na génese da criação do Teatro Moderno de Lisboa, onde rubricou duas extraordinárias e inesquecíveis criações em “O Render dos Heróis”, de José Cardoso Pires, e em “Dente por Dente” (no papel de Mariana), de William Shakespeare. Fernanda Alves rumou de seguida ao Norte, onde deixou uma marca profunda no Teatro Experimental do Porto. Aí participou em doze espectáculos, entre 1964 e 1968, e deu os primeiros passos na encenação. 


Entre 1966 e 1977 a actriz colaborou por quatro vezes com Carlos Avilez, no Teatro Experimental de Cascais, com destaque para três sublimes criações em “A Maluquinha de Arroios”, “O Vento nas Ramas do Sassafraz” e “Ivone, Princesa da Borgonha”, espectáculo este que conquistaria o prémio da Casa Imprensa em 1970. Já então considerada uma figura destacada do nosso teatro independente, Fernanda Alves envolveu-se na criação d’ Os Bonecreiros. Naquele grupo ficou para a história do teatro português “A Grande Imprecação Diante das Muralhas da Cidade”, de Tankred Dors, espectáculo que driblou os intentos da férrea censura. 
Proibida a exibição da peça, os artistas aceitaram o convite do Instituto Alemão para aí representarem o espectáculo. Este afrontar da censura foi premonitório da revolução que se adivinhava e a interpretação de Fernanda Alves valeu-lhe os prémios da Critica e da Imprensa desse ano. 


Mas apesar do êxito alcançado com os Bonecreiros a personalidade irrequieta de Fernanda Alves impunha-lhe a mudança, levando-a a afastar-se quando parte do grupo se dividiu para dar origem à Comuna. Em 1973 a actriz esteve na Casa da Comédia, onde participou no espectáculo “Oh Papá, Pobre Papá...”, de Artur Kopit, com encenação de João Lourenço, voltando ao teatrinho das Janelas Verdes algum tempo depois para ser a Isabel da peça de Dario Fo “Quase por Acaso uma Mulher”. 


Continuando o seu registo plural, a actriz participou na fundação do Grupo A Barraca; esteve por duas vezes com o Grupo Teatro Hoje; passou pelo Cendrev e pela Companhia de Teatro de Almada; e fez uma breve estada nas Companhias do empresário Vasco Morgado e no Teatro São Luiz, antes de se fixar no Teatro Nacional D. Maria II, onde interpretou e encenou espectáculos memoráveis. 
Na Casa de Garrett encenou “A Sobrinha do Marquês” e “O Morgado de Fafe em Lisboa”, foi Poncia em “A Casa de Bernarda Alba” e Matilde em “Felizmente há Luar”, quatro dos mais aplaudidos espectáculos levados a cena naquela Casa após a sua reconstrução. Para além destas produções, seria injusto não referir a sua participação em três peças produzidas no D. Maria com encenação de Ricardo Pais: “Anatol”, “Clamor” e “Fernando. Fausto. Fragmentos”. 


Com a nomeação deste encenador para a direção do Teatro Nacional São João, a actriz voltaria à cidade do Porto com alguma frequência, sendo inesquecível a sua participação no espectáculo “Os Gigantes da Montanha”. Quando preparava uma nova produção no Teatro Nacional São João, composta com os três autos das Barcas de Gil Vicente (“Inferno”, “Purgatório” e “Glória”), dirigida por Giorgio Barberio Corsetti, a actriz faltou pela primeira vez a um ensaio. 


Face à estranheza da sua ausência, os serviços de produção daquele teatro procuraram contactá-la, mas em vão. Encontraram-na morta no quarto do hotel onde estava instalada. O acontecimento provocou grande consternação e os ensaios da peça foram interrompidos durante duas semanas, para que os colegas fizessem o seu luto. Fernanda Alves deixou-nos num estado de profunda saudade, no dia 6 de Janeiro de 2000


Salvador Santos
Porto. 2012. Maio. 11.



Contribuições
Mesmo sem a conhecer pessoalmente, mantive uma relação de amizade com a Fernanda e o Ernesto. A senhora mãe da Fernanda era visita frequente e periódica da casa da minha sogra e mantive com a senhora longas conversas de âmbito geral.
Ela falava-me com entusiasmo da Fernanda e do Ernesto. Eu ouvia-a embevecido. Ela tentou arranjar um encontro da minha pessoa com a filha e o genro. Nunca houve possibilidade desse contacto directo. Não por culpa deles mas por minha apenas. Era difícil para mim. Eu trabalhava em horário normal em empresa de grande renome na época (Soc. Com. Guerin), onde exercia funções de chefia, estudava à noite no Externato Crisfal e aos fins-de- semana assegurava, em equipa, a manutenção de viaturas de outra grande empresa em regime de “freelancer”. A senhora, que á distância já não me lembra o seu nome, tinha contado à filha e ao genro que eu trabalhava no ramo da técnica automóvel e estudava “letras” mais concretamente “germânicas”. Uma disparidade, que deu frutos passados uns anos.
A senhora faleceu aí na década de 70
Adriano Rui Ribeiro


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