BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos, um homem do nosso Teatro apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. Isabel de Castro hoje lembrada

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos, um homem do nosso Teatro apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. Isabel de Castro hoje lembrada

In memoriam
Isabel de Castro foi uma excelente actriz portuguesa que no início da sua carreira fez vários filmes espanhóis. Nasceu em Lisboa em 1 de Agosto de 1931 e faleceu em Borba em 23 de Novembro de 2005

O Teatro no Bancada Directa.
Salvador Santos, um homem do nosso Teatro apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”.
Isabel de Castro é a referência de hoje

Texto integral e inédito do Salvador Santos para o blogue Bancada Directa

Isabel de Castro. Um autentico “anjo selvagem” da arte de representar

Ela foi uma das meninas mais bonitas e talentosas do cinema português dos anos 1940, onde se estreou com apenas catorze anos no filme “Ladrão Precisa-se”, de Jorge Brun do Canto, após ter vencido um concurso de novos talentos promovido pela revista Cinéfilo. Em plena rodagem do filme, a jovem actriz inscreveu-se no Teatro-Estúdio do Salitre, o mais importante grupo de teatro experimental da época, e começou a frequentar o Curso de Teatro do Conservatório Nacional.

Tudo se conjugava para que Isabel de Castro viesse a ser a muito curto prazo uma grande estrela do teatro português, mas uma súbita e arrebatadora paixão de adolescente levou-a até terras de Espanha. Foram quatro anos em Barcelona e três em Madrid, quase sempre ao lado de Carlos Otero, actor espanhol com quem viveu e trabalhou em estado de paixão.

No país vizinho, Isabel de Castro foi protagonista de vinte e quatro filmes ao lado de outros dos mais destacados nomes do cinema espanhol de então, como Francisco Rabal, Conchita Velasco, Fernando Rey, Tony Leblanc ou José Suárez. Entre os filmes em que contracenou com estes importantes atores, alguns dos quais valeram-lhe vários prémios e distinções, destacam-se “Barrio” (apresentado em Portugal com o título “Marcelino, Pão e Vinho”) de Ladislao Vajda, “Fuego”, “Dulce Nombre”, “La Danza del Corazón”, “Bajo El Cielo de Astúrias” e “La Hija del Mar”, onde trabalhou também com um dos mais internacionais actores português, Virgílio Teixeira.

Desfeita a paixão, veio a saudade e Isabel de Castro regressou definitivamente a Lisboa para retomar nos palcos portugueses uma carreira bruscamente interrompida pelo amor.

Ribeirinho acolheu-a de imediato no Teatro da Trindade, onde ela interpretou brilhantemente os papeis que lhe couberam em sorte em peças como “Amor de Perdição”a partir de Camilo Castelo Branco, “Noite de Reis” de Shakespeare e “O Diário de Anne Frank”, entre muitas outras. Isabel de Castro passou depois pelo Teatro Avenida, onde fez furor em “O Milagre de Ann Sullivan” e de seguida representou com algum sucesso, no Teatro Experimental do Porto, “A Estalajadeira” e “O Tempo e a Ira”.

O seu talento foi ainda reconhecido nas peças “O Segredo”, onde trabalhou ao lado de Maria Barroso e Dalila Rocha; “Antígona”, onde contracenou com Jacinto Ramos; A “Guerra do Espanador”, ao lado de Raul Solnado e Barroso Lopes; e “Quando é Que Tu te Casas Com a Minha Mulher?”, cujo elenco liderou com Armando Cortez.

Inesquecíveis são ainda as suas passagens pela Casa da Comédia (“A Invenção do Amor”…), pelo Teatro da Cornucópia (“Casimiro e Carolina”...); pelo Teatro Estúdio de Lisboa (“As Mãos de Abraão Zacut”…); pelo Teatro Experimental de Cascais (“Ivone Princesa da Borgonha”…); pelo Teatro Aberto (“Coelho. Coelho”); pelo Teatro São Luiz (“Conceição ou O Crime Perfeito”); e pelo Teatro Nacional São João (“Castro”).

Mas foi no Teatro da Graça que ela se impôs definitivamente como actriz, com um repertório memorável sob a direcção dos encenadores Carlos Fernando (“Bruscamente no Verão Passado”…), Rogério de Carvalho (“A Voz Humana”), Fernanda Lapa (“Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”), José Wallenstein (“Estrelas da Manhã”), Gastão Cruz (“A Gaivota”) e Elisa Lisboa (“Vassa Geleznova”).
Não se pense porém que, com este notável percurso teatral, Isabel de Castro tenha deixado o cinema para trás. Depois da sua carreira em Espanha, ela continuou a ser presença constante no grande ecrã. Nos anos 1960, participou, por exemplo, na adaptação para cinema da obra de Júlio Dinis “As Pupilas do Senhor Reitor”. Na década seguinte, fez “Brandos Costumes” e “O Rei das Berlengas”.

Os anos 1980 foram dos mais profícuos da actriz, tendo feito, designadamente, “Conversa Acabada”, “Sem Sombra de Pecado” e “Um Adeus Português”. Em 1990, obteve o papel de Geneviéve Largilliére no filme “Swing Troubadour”, integrou também o elenco do filme “A Lição de Inglês”, participou em “Vale Abraão”, e foi actriz convidada em “Casa de Lava”. O seu último filme foi “Aparelho Voador a Baixa Altitude”, em 2001.

Apesar da sua longa carreira no teatro e no cinema, foi contudo na televisão que Isabel de Castro granjeou uma imensa popularidade junto do grande público graças a um dos seus últimos trabalhos, como Angélica na telenovela “Anjo Selvagem”, que foi líder de audiências na TVI, em 2001.

No ano anterior, ela participara num telefilme coproduzido pela SIC, “Amo-te Teresa”, que também alcançou grande sucesso popular. Antes, porém, já a actriz havia prestado uma longa e preciosa colaboração na RTP, desde os anos 1960, sobretudo em peças de teatro televisivo. Do seu magnífico percurso é possível retirar a seguinte conclusão: entre o teatro e o cinema, e também na televisão, Isabel de Castro deixou a marca de alguém que, mesmo no interior de uma ficção convencional, era capaz de gerar um súbito momento de vida, uma luz mais forte do que tudo aquilo que a circundava. E sempre com a humildade de uma Grande Senhora!

Salvador Santos
Porto 2012. 04. 07

1 comentário:

Anónimo disse...

Muito bom.
Bem elucidativo este texto
Como fala em "Marcelino Pão e Vinho",tanto melhor.
Era muito pequeno e ainda recordo esta obra cinematográfica.
"sarg Estrela"

Obrigado Pela Sua Visita !