BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. O actor Jacinto Ramos é hoje recordado por Salvador Santos na rubrica “No Palco da Saudade”.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Teatro no Bancada Directa. O actor Jacinto Ramos é hoje recordado por Salvador Santos na rubrica “No Palco da Saudade”.

In memoriam 
Jacinto Ramos nasceu em Lisboa em 3 de Outubro de 1917 e faleceu nesta mesma cidade em 4 de Novembro de 2004. Morreu no seu ambiente, na Casa do Artista, onde residia nos últimos tempos da sua vida. Foi, sobretudo, um grande actor do cinema e teatro portugueses.


O Teatro no Bancada Directa
Salvador Santos traz-nos "No Palco da Saudade"


JACINTO RAMOS


 Aos vinte anos iniciou-se na rádio como locutor, onde apresentou, ao lado de Maria Leonor, Nuno Fradique e Graça Maria, o jornal “Diário do Ar”, um programa inovador na época, que contou com inúmeros colaboradores notáveis, entre os quais se salientam Alves Redol e José Cardoso Pires. Ao longo da sua passagem pela rádio, dirigiu e interpretou numerosas peças e folhetins radiofónicos na antiga Emissora Nacional e na Rádio Clube Português, colaborando igualmente no Rádio Peninsular e no há muito desaparecido Rádio Continental. No entanto, o teatro seria, assumidamente, a sua grande paixão, à qual dedicou grande parte da sua carreira, dispensando sempre especial atenção ao teatro amador, onde, aliás, Jacinto Ramos nasceu como actor. 


 A sua estreia aconteceu na Sociedade Guilherme Cossoul, onde, em 1945, fundou um Grupo Cénico amador que fez escola. “Cravas de Todo o Ano”, uma brincadeira de carnaval, que consistia numa paródia à peça Rosas de Todo o Ano de Júlio Dantas, foi um dos primeiros espetáculos por ele levados a cena na popular Guilhas, a que se seguiram textos como “O Urso” de Tchekov, “O Doido e a Morte” de Raul Brandão ou “O Monta-Cargas” de Harold Pinter. Na mesma década, formou com José Viana, Maria Barroso, Carlos Wallenstein e o maestro Lopes Graça uma Troupe que percorreu os arredores de Lisboa com espetáculos de teatro, poesia e música, que visavam, como muitas vezes afirmava, «agitar politicamente as pessoas». 



Jacinto Ramos matriculou-se, entretanto, no curso nocturno do Conservatório Nacional. E pouco tempo depois, a convite de Alves da Cunha, que sempre considerou o seu maior Mestre, ingressou na sua Companhia, percorrendo, pela primeira vez, o país, como actor profissional. Em 1950 ingressa na Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro e estreia-se no Teatro Nacional D. Maria II, como protagonista na peça “Curva Perigosa” de Priestley, ao lado de Mariana Rey Monteiro. 


São também dessa época “Sonho de uma Noite de Verão” de Shakespeare, “Casaco de Fogo” de Romeu Correia, “Menina Júlia” de Strindberg e “Os Maias”, de Eça de Queiroz, espectáculos que o afirmaram definitivamente como um dos melhores actores da sua geração. 

 Após o incêndio do Teatro Nacional D. Maria II em 1964 e antes da sua reabertura em 1978, Jacinto Ramos representou nos principais palcos de Lisboa e do país peças dos mais variados géneros, algumas de extraordinário êxito, que viriam a tornar-se uma referência na história do teatro português. São disso exemplo “O Adorável Mentiroso” de Jerome Kilty, “Diário de Um Louco” de Gogol e “O Porteiro” de Pinter (três espectáculos que lhe valeram o Prémio da Imprensa para o Melhor Actor, na década de 1960), bem como “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” de Albee, “O Príncipe e a Corista” de Rattingan, “O Preço” de Miller ou “Antígona” de Anouilh. Ao logo da sua carreira Jacinto Ramos dirigiu vários grupos de teatro amador e universitário, entre os quais o CITAC de Coimbra e os Grupos Cénicos das Faculdades de Direito e de Medicina de Lisboa, do Instituto Superior de Agronomia, da empresa A Tabaqueira e do Banco de Angola. Criou e dirigiu também inúmeras Companhias profissionais, com destaque para o Teatro Experimental de Lisboa e o Teatro do Nosso Tempo, o célebre TNT, onde juntou alguns dos nomes maiores do teatro português e reuniu vários artistas plásticos e intelectuais da época que contribuíram com o seu talento para a qualidade dos espectáculos apresentados, nomeadamente Lima de Freitas, Sá Nogueira, João Vieira, Daniel Filipe, Conceição Silva, e muitos outros. 


 Após a reabertura do Teatro Nacional D. Maria II, Jacinto Ramos regressou àquele palco do Rossio, onde assinou, na dupla qualidade de actor e encenador, dois espectáculos memoráveis ao lado de Eunice Muñoz: “Gin Game” de Donald Coburn e “As Memórias de Sarah Bernhardt” de John Murrell. Esta última peça foi registada para televisão, onde Jacinto Ramos era presença regular deste os primórdios da RTP. Na televisão interpretou, entre outras, as peças “Volpone”, Adorável Mentiroso”, “Henrique IV” e “O Porteiro”, tendo encenado as três últimas. E como seria de esperar, ele também não resistiu ao fascínio das telenovelas e participou em cinco delas, com destaque para “Origens”, “Palavras Cruzadas” e “A Banqueira do Povo”. 



No cinema, Jacinto Ramos realizou “Nocturno”, uma curta-metragem transmitida pela RTP e seleccionada para exibição na BBC, elaborou quatro guiões e participou como actor em numerosos filmes, designadamente em “Chaimite” (como Mouzinho de Albuquerque), “A Costureirinha da Sé”, “Benilde ou a Virgem Mãe” e “Manhã Submersa”. Empreendedor, dinâmico e arrojado, gravou discos, escreveu livros, percorreu o país e o estrangeiro divulgando os nossos poetas, participou em numerosos colóquios e cursos de formação teatral e colaborou na imprensa, chegando a escrever regularmente para o Jornal de Notícias uma crónica sobre teatro. Só parou aos oitenta e sete anos, quando uma queda acidental na Casa do Artista o separou da vida. 

Salvador Santos

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