BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Na sua rubrica "No Palco da Saudade" Salvador Santos recorda a actriz Glicinia Quartin

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Teatro no Bancada Directa. Na sua rubrica "No Palco da Saudade" Salvador Santos recorda a actriz Glicinia Quartin

In memoriam
Glicínia Vieira Quartin nasceu em Lisboa a 20 de Dezembro de 1924 e faleceu na mesma cidade (no Bairro de Campo de Ourique) em 17 de Abril de 2006. Tinha 81 anos. Foi uma excelente actriz portuguesa.
Ao tempo do seu falecimento surgiu assim a notícia do mesmo:
Sentou-se à mesa para jantar com o marido, quinta-feira à noite, e já não se levantou. Aos 81 anos, Glicínia Quartin morreu como viveu: sem exuberância nem dramatismo. "Há uma certa beleza nesta morte tranquila", disse o encenador Jorge Silva Melo, amigo de longa data da actriz. "Ainda há dias vira A Gaivota do Tchekov, na Cornucópia, e a nossa encenação da Orgia, de Pasolini. Permaneceu lúcida até ao fim. Da última vez que estive com a Glicínia, no princípio desta semana, acabara de assinar a petição de apoio ao [João] Bénard da Costa e ela disse-me: 'Querem fazer-lhe mal, Jorge? Então põe o meu nome também'. Nunca deixou de ser uma mulher de combate, uma mulher de enorme exigência moral."

O Teatro no Bancada Directa. Glicínia Quartin é hoje recordada na rubrica “No Palco da Saudade”.

Texto integral e inédito de Salvador Santos para o blogue Bancada Directa

GLICÍNIA QUARTIN Filha de um jornalista luso-brasileiro próximo da esquerda radical e de uma professora e pedagoga feminista, ela formou-se em ciências biológicas, ao mesmo tempo que militava no MUD Juvenil, mas a sua paixão foi sempre o teatro e depressa trocou o “canudo académico” pelo Teatro da Rua da Fé, onde foi dirigida por Tomás Ribas. Glicínia Quartin passou depois pela Sociedade Guilherme Cossoul e por diversos outros agrupamentos teatrais de Lisboa e do Porto, onde teve oportunidade de trabalhar com alguns dos maiores encenadores portugueses dos anos 1950/60, como foi o caso do Mestre Pedro Bom. Mas o seu primeiro grande sucesso foi obtido no Teatro Experimental de Cascais, quando fez “A Maluquinha de Arroios” de André Brun, espectáculo que acabaria por consagrar também o encenador Carlos Avilez.

Antes de enveredar definitivamente pela carreira profissional, Glicínia Quartin integrou o elenco do Teatro Experimental de Lisboa, que produziu largas dezenas de peças de teatro para a RTP, em muitas das quais a actriz participou, de onde se destacam “Guerras de Alecrim e Manjerona” de António José da Silva e “O Fidalgo Aprendiz” de D. Francisco Manuel de Mello”, que mereceu a seguinte nota critica no Século Ilustrado: «[…] começa a saber-se que Glicínia Quartin é uma actriz portentosa». Sobre ela escrevia-se algum tempo depois no Diário Popular, a propósito da sua prestação na peça “Mesas Separadas” de Terence Rattigan, com encenação de Luzia Maria Martins: «[…] evidencia, uma vez mais, os seus inegáveis dotes de comediante».
Filme "Dom Roberto" ao lado de Raul Solnado

Em finais dos anos 1950, Glicínia Quartin surgiu pela primeira vez no Teatro Nacional D. Maria II, aceitando com a sua peculiar humildade segundas figuras que foi representando sempre com enorme rigor e profissionalismo. Inquieta, sempre em busca da renovação e de novas formas dramatúrgicas, traduziu e representou para o Teatro Experimental do Porto a peça “Os Burossáurius” de Silvano Ambrogi, em 1965, mantendo-se durante esse ano pela cidade invicta para fazer três autos de Gil Vicente, sob a direcção de Carlos Avilez, que a convidou depois a integrar o elenco do TEC. De seguida, o encenador e realizador Artur Ramos levou-a para a Casa da Comédia, onde ela rubricou um excelente trabalho de minúcia e sensibilidade na peça de Samuel Beckett “Dias Felizes”, com o qual obteve o Prémio da Melhor Actriz do Ano.
Não obstante esta grande criação, reconhecida pelo público e pela crítica, bem como por grande parte dos seus pares, a actriz voltou à Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro para fazer pequenos papéis em “Os Visigodos” de Jaime Salazar Sampaio, “Esfera Facetada” de Nuno Moniz Pereira, “O Pecado de João Agonia” de Bernardo Santareno e “A Celestina” de Fernando Rojas. Entretanto, a Rádio Televisão Portuguesa convidou Artur Ramos para dirigir o Teatro Maria Matos e Glicínia Quartin voltou a ter personagens à medida do seu talento, notabilizando-se mais uma vez como uma verdadeira intérprete da renovação do teatro português, em espectáculos como “O Processo de Kafka” de Gide-Barrault e “A Capital” a partir de Eça de Queiroz.

Na década de 1970, Glicínia Quartin toma parte activa no lançamento do teatro independente
em Lisboa, sendo fundadora de companhias como Os Bonecreiros e o Teatro da Cornucópia. Será, aliás, a esta última que regressará em Julho de 2004 para a sua derradeira representação, em “A Família Schroffenstein”, uma peça de Kleist encenada por Luís Miguel Cintra. Para trás ficavam “O Misantropo” de Molière, “Terror e Miséria no III Reich” de Brecht, “Os Pequenos Burgueses” de Gorki, “Casimiro e Carolina” de Horvath, “Barba Azul” de Biette e “Um Sonho” de Strindberg, entre muitos outros espectáculos que fizeram história no grupo do Teatro do Bairro Alto, e mais de cinquenta anos de actividade nos mais diversos teatros do país.
Glicinia Quartin na peça "As criadas"

Fora dos palcos, Glicínia Quartin participou também no arranque do Cinema Novo português, protagonizando “D. Roberto” de Ernesto de Sousa, a sua estreia na sétima arte, já depois de várias participações no teatro televisivo. “A Caixa” de Manoel de Oliveira, “A Comédia de Deus” de João César Monteiro, “Conversa Acabada” de João Botelho, “O Bobo” de José Álvaro Morais, “Agosto” de Jorge Silva Melo, “O Crime de Aldeia Velha” de Manuel Guimarães e “Antes do Adeus” de Rogério Ceitil, são alguns dos dezasseis filmes em que participou ao longo da sua carreira.

No dia do seu 80º aniversário, o então Presidente da República, Jorge Sampaio, distinguiu-a com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, o último de uma série de galardões com que foi obsequiada e dos quais se destaca ainda o Prémio da Crítica, em 1972, pela participação em “As Criadas”, de Jean Genet, uma das suas interpretações mais notáveis, ao lado de Eunice Muñoz e Lurdes Norberto. Os seus oitenta anos foram também assinalados com a estreia de "Conversas com Glicínia", um documentário-entrevista, assinado por Jorge Silva Melo, onde se passa em revista a vida de uma actriz de temperamento dramático ímpar que soube amar e respeitar o teatro como poucos, e que foi sempre um exemplo de liberdade e de independência.

Salvador Santos
Porto. 2012. 04. 14

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