BANCADA DIRECTA: Hoje damos uma folga ao Passos Coelho e Companhia. Pernas para que te quero? A censura, O Teatro, o Parque Mayer e a Revista à Portuguesa

terça-feira, 10 de abril de 2012

Hoje damos uma folga ao Passos Coelho e Companhia. Pernas para que te quero? A censura, O Teatro, o Parque Mayer e a Revista à Portuguesa

Hoje damos uma folga ao Passos Coelho e Companhia.

Pernas para que te quero?
Antes de 24 Abril 1974: A Censura, o Teatro, o Parque Mayer e a “Revista à Portuguesa”.

Cartaz da revista "Oh Zé aperta o cinto". 1971. Teatro Maria Vitoria. Produção de Giuseppe Bastos e de Vasco Morgado

A odiosa Censura, mais conhecida na época, pelo “sangrento lápis azul” assentava arraiais e metia-se em tudo o que era “comunicação com as massas”, nomeadamente na imprensa escrita (a mais sacrificada) a Rádio e Televisão, Cinema (com cortes gigantescos nos filmes, que desvirtuavam os argumentos) e especialmente no Teatro de Revista.

Neste Portugal cinzento dos anos sessenta, O Parque Mayer era a escapatória aproveitada pela imaginação dos autores das Revistas, que com a sua criatividade, conseguiam passar as suas mensagens, sem que o “lápis azul” se apercebesse das críticas que se faziam ao Governo e aos costumes vigentes e era um pouco tolerada para a repressão na política e nos costumes.
Cartaz e programa da revista Pois, Pois! 1967. Teatro Variedades. Produçao de Giuseppe Bastos e de Vasco Morgado

A talentosa comediante Ivone Silva e a autorização do biquini nas praias e nos palcos vão conferir ao decadente Teatro de Revista um último sopro de vida até 1974, quando a revolução de Abril liquida de vez o jogo do gato e do rato que o teatro musicado joga anos a fio com a Censura. Revista que se prezasse apresentava corpo de baile apurado que a propósito de tudo e de nada exibia as pernas em números musicados, filiação directa na tradição do “musical europeu”. Geralmente historiada como lugar de resistência possível à Ditadura, menospreza-se o papel da Revista à Portuguesa na cruzada pela libertação sexual do macho lusitano, a contas com uma moral provinciana e a proibição legal da prostituição, logo em 1962.

A produção dos espectáculos era cara, demorada e tinha que se pagar na bilheteira. Cartazes e programas faziam tiro ao alvo com o retrato laudatório das vedetas e as longuíssimas pernas das suas girls, bailarinas ou coristas, nomes diferentes para a mesma exibição de tentações carnais embrulhadas
em plumas e lantejoulas. As ilustrações têm traço preciso, acentuando o contraste entre a carne nua e a exiguidade dos adereços e roupas.

Obra de artistas hoje esquecidos, em muitos casos ligados directamente à cenografia dos espetáculos, vemos nestas imagens ecos de um “glamour” parisiense e, sobretudo, uma caricatura gráfica de pernas irreais para os padrões anatómicos indígenas. Não por acaso, a importação de pernas estrangeiras de proporções mais generosas abrilhanta os elencos da Revista, cumprindo a tradição ancestral das espanholas e italianas dos teatros elegantes do século XIX
.

Contribuições
Sempre fui um odioso compulsivo para com tudo o que se relacionasse com o famigerado lápis azul.

Já em homem as minhas convicções politicas e de vivencia numa Sociedade que se desejava ser livre e que vivesse num regime de Democracia, levavam-me a apostrofar de uma forma convincente e actuante tudo o que a Censura fazia e praticava desumanamente.
Sucursal de "O Século" no Rossio. Os lisboetas devoravam as noticias afixadas na montra. (muitas saudades do senhor Carvalho chefe da sucursal)
Instalações do Jornal "O Século" anos 30. O primeiro portão à direita da imagem era um pateo de acesso ao piso inferior onde se situavam as rotativas em laboração. Havia neste piso outro local onde se guardava, as rotativas já retiradas. O portão seguinte era a "casa da venda" e logo após era o acesso à redacção da revista Modas e Bordados (muitas saudades da então directora Etelvina Lopes de Almeida - anos 50) e o posto médico para consulta das crianças que iriam frequentar a Colónia Balnear

Mas este ódio já vinha da minha juventude. Já aqui disse no blogue que tinha trabalhado no Jornal O Século e nos primeiros tempos estava encarregue diariamente de levar e trazer para as instalações da Censura nos Restauradores (edifício do antigo SNI) algum expediente (o das revistas da SNT) que era para ser censurado obrigatoriamente. O pessoal que lá trabalhava era de uma arrogância enorme. Eu chegava lá por volta das 18 horas entregava o expediente desse dia e levantava o do dia anterior. Demorava em tempo de espera não mais do que 15 minutos. Acontece que o indivíduo que recebia o expediente abusava da sua situação e mandava-me sempre comprar um maço de tabaco High-Life à tabacaria do Café Palladium. Aquilo não me custava nada, mas ao fim de certo tempo reconheci para a minha idade que aquela ordem era um abuso. E a partir de certo dia recusei-me a obedecer-lhe. É que ele não pedia, mandava!...

Claro que o homem não teve outro remédio senão ir lá ele comprar o tabaco a partir da minha recusa.

Conclusão: a partir desse dia, em vez de esperar apenas 15 minutos passei a estar sentado num banco corrido de pedra que havia na recepção nunca menos de uma hora. Como ainda tinha passar pela sucursal no Rossio para trazer publicidade, chegava por volta das 21 horas ao jornal. E como morava na Damasceno Monteiro só jantava lá pelas 22 horas. Degradante esta situação para uma criança que começou a trabalhar aos 11 anos na tarde do mesmo dia em que fez o exame da 4ª classe.


Nota: parte do primeiro texto é do "O que é bom é para se ver", que me deu a ideia deste verbete e as "Contribuições" são de minha autoria

Adriano Rui Ribeiro

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