BANCADA DIRECTA: "Crime das Escadinhas dos Baldaques. Novela colectiva de Tempicos e Companhia. Ultimo episódio.

sábado, 14 de abril de 2012

"Crime das Escadinhas dos Baldaques. Novela colectiva de Tempicos e Companhia. Ultimo episódio.

Crime nas Escadinhas dos Baldaques
Capítulo Derradeiro
O Fim da Macacada


Tempicos acordou. Sentia-se atordoado. Olhando em volta, deu de caras com a dura e triste realidade. Afinal, aquelas cenas na Sociedade Recreativa União não tinham passado de um sonho, de um mero interlúdio. Fora posto a dormir de um modo violento.

Fafá, Novena e Carvalho já tinham sido despachados. Era na descoberta do respectivo assassino que se ocupava quando lhe deram com força na tola. E o agressor estava ali à vista. Com efeito, Mendinho, postado à sua frente, com ar ameaçador, perguntava-lha se era a ele, Mendinho, que o palerma do Tempicos queria abrir o bico, han!? Com a carola a latejar, o velho inspector achou por bem não responder e, resignado, baixou os olhos.

Notou, nesse preciso momento, que Serafim, o marido de Arnezinha, raspava um pé no chão, enquanto fitava Fofana, que se encontrava encostado à balaustrada da escada do prédio. Estaria Serafim na posse do punhal que servira para liquidar os outros três? Iria aquela arma branca desempenhar mais um vil serviço?

Correu para o animal a fim de o deter. Este, porém, já arrancara a toda a velocidade na direcção de Fofana, a quem despachou para o rés-do-chão com uma valente marrada. Entretanto, Arnezinha e Zeca Maluco procuraram amansar a fúria de Serafim. Nada feito, ele dava cabeçadas a torto e a direito e, num ápice, despachou o Zeca para junto de Fofana. Os dois morreram da queda, conforme se confirmou posteriormente.
Claro, que do Salvattore ninguém se vai lembrar, mas os leitores irão sentir a falta da Arnezinha, "tão boa" menina que era

Arnezinha, que fora atirada ao ar pelo marido, poisou nas costas de Espineta, que rolou pelas escadas, deslocando as cervicais e finando-se para sempre. Salvattore, desconfiado de vir a ser o próximo alvo de Serafim, tentou escapar, mas Adrianov que, por qualquer razão, estava a sentir a cabeça pesada, aplicou-lhe uma carolada seguida de rasteira. O infeliz agredido, tendo caído pelas escadas, faleceu segundos depois, tal qual como havia perecido, um minuto atrás, a viúva de Carvalho. Além dos gritos ouvia-se o ranger dos dentes!

Era o fim do mundo, pensava Tempicos, abismado perante o espectáculo que ali se desenrolava. Foi ajudar Arnezinha, que se levantava a custo depois do choque com Espineta. A jovem esposa do embarcadiço, todavia, tinha uma fisgada. Concluíra, no meio da barafunda, que fora Trioska quem teria badalado uma série de coisas – todas falsas – aos ouvidos do marido. Recomposta, correu até á cozinha e veio de lá brandindo o facalhão dos bifes no sentido de Trioska.

O autor deste episódio não o declara formalmente, mas dá a entender que armaduras como esta existiam na "colmeia" dos Baldaques.
Só me faltava mais esta se me tocasse a mim....


A pobre Katinha tentou intervir. Levou uma facada e não impediu que Arnezinha esfaqueasse Trioska, que acabou no chão, morta, num sumptuoso banho de sangue.
O inspector, ao ver a afilhada ferida, sacou da pistola.

-Finalmente!
Esse movimento não passou despercebido a Mendinho que se lançou sobre Tempicos. Este conseguiu disparar dois tiros. Um imobilizou para sempre o homem que vinha ao seu encontro e o outro foi atingir a afilhada que, quando poisou no chão, já saíra desta vida terrena para sempre.

Turvo de dor e raiva, Tempicos foi à procura de Arnezinha e do embarcadiço, que se digladiavam, ferozmente, junto da porta envidraçada de acesso à varanda do quarto.

Encostado à cama, agonizava Adrianov. Em má hora resolvera retirar-se para o quarto da Arnezinha. Serafim, mal o viu, acometeu-o furiosamente. Na sequência da segunda marrada, Adrianov bateu com a cabeça na parede e, vítima de traumatismo craniano, ali se encontrava a poucos minutos do fim da sua vida.

O casal beligerante, perante a iminência de uns balázios, precipitou-se para a varanda. O velho gradeamento cedeu, fazendo com que ambos se estatelassem nas Escadinhas dos Baldaques, onde morrerem juntos, perante a estupefacção dos transeuntes.

Tempicos viu que tinha de sair do prédio quanto antes, senão ainda poderia ser acusado daquela chacina, para a qual não contribuíra, a não ser nalguma parte da paixão, do muito sexo e do ciúme que por ali vigoraram.

Epílogo
Tempicos que tinha fama de ser eventualmente organizado que todos os seus amigos o conheciam como tendo uma mente matemática e prática, começara a perder a calma e a entrar em stress.

A sua cabeça dizia-lhe que se todos os ocupantes da casa das Escadinhas dos Baldaques “bateram a bota” e se o criminoso não era lógico ser encontrado em gente de fora, não lhe restava outro remédio e não apontar-se a si próprio como o autor de tanto morticínio. Seria um problema insolúvel, o primeiro da sua vida?

Por menos que isso muita gente tem ficado “pírulas”!
Mas – pensando como faria Hercule Poirot nos velhos tempos – não lhe restava saída. Ainda pensou que se tivesse montado um cenário do tipo do livro da Agatha Christie – “ten little niggers “– que a Colecção Vampiro traduziu por “Convite para a Morte”.
Um dos mortos não estaria morto, fingia estar e depois aparecia vivinho da Costa, tendo previamente limpo o “sarampo” ao pessoal todo.
Tempicos pensou e bem que isso só sucede nos romances – aqui e agora na vida real não havia volta a dar.

Ou era ele o criminoso ou estava tudo maluco!
Lisboa reluzente ao fim da tarde de Verão, vista da Ponte 25 de Abril. Nesta altura Tempicos preparava-se para embarcar para as Caraíbas e deixar o Ferrari ao modesto autor deste blogue

Não aguentou o stress pós traumático e foi rebuscar a chave do carro do Zeca que estava ali à mão. Meteu-se no bólide e rumou na direção da ponte sobre o Tejo. Lembrou-se que já lhe caducara a carta de condução e sorriu pelo contra-senso. Pelo caminho recordou a sua já longa vida vivida. Valera a pena. Gozou o que havia para gozar. Sabia que o seu funeral havia de aparecer dezenas de viúvas. Chorando baba e ranho.
Mulheres que o amaram mau grado os seus pequenos defeitos. Para elas tivera sempre um chamego, um braço apertado na cintura, uns lábios carnudos disponíveis. Tempicos fora amado e adorado. Era como o mel. Pegajoso. Um atractivo irresistível, uma força da natureza. Um pinga-amor.

Sabe-se que Tempicos jazia inconsciente prostrado no tombadilho do paquete. Quando acordasse saberia que um seu antigo colega era suspeito de andar a armadilhar "liners". Tretas são o que são...

A brisa entrava pelo descapotável e acariciava-lhe a cara e ao canto da boca soltou-lhe se uma frase “gaba-te cesto…”.
Parou o bólide a meio da ponte. Num gesto breve pulou a grade de resguardo e nesse instante lembrou-se que não sabia nadar, aliás só nadava de costas, ironia do destino.


Não era importante, iria na mesma ao fundo.
Lisboa reluzia ao claro fim da tarde de verão. Um enorme paquete iniciava o seu percurso de cruzeiro saindo a barra, passando por baixo da ponte.
Tempicos na sua queda nem o viu. Já ia de olhos fechados, não queria ver mais o mundo. No tombadilho superior do enorme paquete uma enorme piscina e muitas inglesas velhas e enrugadas, ricas e reluzentes de cosmética apanhavam os últimos raios de sol.
Terá tido Tempicos uma morte rápida e fulminante? Terá havido a mão de Deus que sempre amparava – o menino e o borracho?
Quem poderá saber? Só ELE.


Fim

Os administradores do Bancada Directa, Pedro Sousa e Adriano Rui Ribeiro, agradecem aos autores desta novela colectiva a sua participação e a possibilidade da mesma ser publicada no nosso blogue.

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