BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. Hoje recordamos José Viana, um grande actor!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. Hoje recordamos José Viana, um grande actor!

In memorian
José Maria Viana Dionísio nasceu em Lisboa a 6 de Dezembro de 1922 e faleceu nesta mesma cidade em 8 de Janeiro de 2003, Foi um actor português, de teatro de revista, cinema e televisão
O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. Hoje recordamos José Viana, um grande actor!

No Palco da Saudade

Uma rubrica de Salvador Santos

JOSÉ VIANA

Ele começou por ser desenhador, pintor, cenógrafo e… cantor. Ainda muito jovem, os seus desenhos foram impressos em diversas publicações. Tinha apenas treze anos quando desenhou para o jornal infantil “O Senhor Doutor”. Um pouco mais tarde, prestou colaboração também como desenhador no suplemento Pim-Pam-Pum do jornal “O Século” e na revista “O Papagaio”, ao mesmo tempo que foi acumulando empregos como retocador de carimbos e publicista, enquanto, aos fins-de-semana, percorria as colectividades de cultura e recreio dos bairros de Lisboa como vocalista de conjuntos musicais que animavam os salões de festa com música de sua preferência, que ia desde o velho Swing ao sempre novo Jazz. Chamava-se então… Viana Dionísio!

Nessa altura, a pintura já tinha tomado conta de boa parte dos seus tempos livres, tendo exibido pela primeira vez algumas das suas obras na II Exposição Geral de Artes Plásticas da Sociedade Nacional de Belas Artes, ao lado de trabalhos assinados por artistas como Abel Salazar, Júlio Pomar, João Abel Manta, Marcelino Vespeira, Sá Nogueira e Lima de Freitas. Mas a sua paixão era a arte de representar, razão por que passou a frequentar a Sociedade Guilherme Cossoul, onde militavam os jovens actores amadores Raul Solnado, Varela Silva e Jacinto Ramos. E foi aí que nasceu o actor José… Dionísio. “O Auto do Curandeiro” de António Aleixo e “O Pedido de Casamento” de Anton Tchekhov, foram as primeiras peças que representou.
José (ainda) Dionísio tomou o gosto pelos palcos e passado pouco tempo estava no Teatro Apolo a representar “Um Chapéu de Palha de Itália”, ao lado de Armando Cortez. Porém, a crítica foi arrasadora e o actor decidiu fazer uma pausa de dois anos, aproveitando para aperfeiçoar as técnicas de representação. O regresso do actor aconteceu no Parque Mayer na revista “Lisboa é Coisa Boa”, já como José Viana. Passou depois pelo Teatro Sá da Bandeira, no Porto, onde substituiu um dos maiores nomes do teatro musicado português, Estevão Amarante, na revista “Porto é Porto!”. E quatro anos depois, quando todos lhe auguravam uma fulgurante carreira, o actor decide fazer uma nova pausa. Fixa-se em Angola e dedica-se por inteiro à pintura.

Foi como artista plástico e não como actor que José Viana se estreou na televisão, depois de regressar de Angola, em 1958, com “Riscos e Gatafunhos”, um programa de carácter didáctico que pretendia estimular nas crianças o gosto pelo desenho e pela criatividade. A sua colaboração na televisão estender-se-ia a outros registos, desde a participação em programas de variedades à animação de concursos ou à apresentação de festivais da canção e, claro está, à interpretação de peças de teatro, entre as quais se destacam “A Visita da Velha Senhora” de Durrenmatt e “Dulcineia ou a Última Aventura de D. Quixote” de Carlos Selvagem, ambas dirigidas pelo encenador e realizador Artur Ramos, e “Topaze” de Achard com direcção de Oliveira e Costa.


No cinema, José Viana teve pequenas participações em filmes como “Cerro dos Enforcados” de Fernando Garcia ou “Perdeu-se um Marido” de Henrique Campos, mas é em “O Recado” de José Fonseca e Costa, em “A Fuga” de Luís Filipe Rocha, em “A Ilha” de Joaquim Leitão e em “Fim do Mundo” de João Mário Grilo que se reconhece o seu talento.

Porém, é no teatro que o actor ganha notoriedade, conquistando um lugar de destaque nos palcos da revista a partir de 1959, como actor, encenador e autor. Escreve nesse ano a sua primeira revista em parceria com Nelson de Barros (“Mulheres à Vista”), onde se destaca como intérprete da rábula “Inimigo de Lisboa”. E a sua primeira revista como encenador acontece em 1963 (“Elas São o Espectáculo”), onde regista outro grande sucesso como actor na rábula “Embaixador do Fado”.

Nas suas andanças pelos palcos, José Viana apaixonou-se por uma actriz brasileira, Juju Baptista, que lhe deu uma filha, Maria – que foi também actriz e hoje em dia desenvolve actividade como cantora de Jazz. Passados alguns anos, o actor conheceu a actriz Dora Leal, com quem formou dupla no palco e na vida, resistindo a todos os contratempos e contrariedades. As convicções ideológicas do actor, que cedo descobriu a política lendo às escondidas o jornal “Avante”, provocaram alguns anti-corpos junto dos empresários e de uma parte da classe teatral, no período pós-Revolução de Abril, que aos poucos foram afastando dos palcos este extraordinário actor de revista, de quem guardamos na memória êxitos como “Carlos dos Jornais”, “Zé Cacilheiro”, “Catedrático do Fado”, “Sinaleiro da Liberdade” ou “Miss Chalada”.


Grande como actor, excelente como pintor. Esta tela esteve em exposição nos Recreios da Amadora, mostra que teve grande sucesso. Cremos ser um auto-retrato de José Viana, segundo se depreende das palavras de uma das suas netas.

Nos últimos vinte anos da sua vida, José Viana dedicou-se quase exclusivamente à pintura, estando a sua obra representada na Fundação Gulbenkian, no Museu de Angola, nas Câmaras Municipais de Benguela, Lobito e Oeiras e em inúmeras colecções particulares

O actor, encenador e pintor José Viana/Viana Dionísio morreu no dia 8 de Janeiro de 2003, na sequência de um estúpido acidente de viação. Tinha oitenta anos e deixou-nos, no palco e nas telas, uma extensa e magnífica obra, complexa e inquietante, repleta de sonhos, de interrogações, de pesquisas e nostalgias… Que saudades, Zé!

Salvador Santos


Porto. 2011. 12. 20

2 comentários:

luis pessoa disse...

Conheci pessoalmente o José Viana, por mero acaso, na casa em que vivia, em Miraflores, Algés.
Na altura vivia por ali, ainda em casa dos meus pais e uma noite, quando procurava um amigo que morava por aqueles lados, um número errado fez-me tocar à campainha errada. Apareceu o José Viana, todo sorridente a dizer-me que estava enganado!
Palavra puxa palavra, o José Viana não me deixou ir embora sem saber quem é que eu procurava e acabou por descobrir que quem eu procurava era um vizinho dele, de um outro andar do prédio.
Por essa altura eu andava num projecto cultural, "Aleph", dirigido às histórias em quadradinhos e desde logo o José Viana ficou com as "orelhas em pé", como se costuma dizer.
O 25 de Abril de 1974 já vinha a caminho e recordo a cara dele quando mais tarde, lhe dei algumas coisas a ler e ver, daquilo que publicámos!... "Ó Luís, vocês arriscam publicar isto?"
"Claro que sim, logo se vê...."

Alguns meses depois, quando se deu o 25 de Abril, já alguns de nós andávamos com "gente" à perna, apesar da revista não ter tido uma grande saída...

O José Viana, vi-o e falei com ele várias outras vezes, mas os nossos caminhos já não se cruzavam e não havia proximidade nas residências. Os meus pais ficaram por lá e o José Viana também. Eu é que zarpei para outras paragens.

Vidas... e momentos que recordo com alguma saudade...

Adriano Ribeiro disse...

Bonito
Abraço e Bom Fim de Ano
Onaírda

Obrigado Pela Sua Visita !