BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. Varela Silva

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. Varela Silva

"In memorian"
Alberto Varela Silva nasceu em Lisboa em 15 de Setembro de 1929 e faleceu nesta mesma cidade em 15 de Dezembro de 1995. Foi um grande actor e encenador do Teatro português.



"No Palco da Saudade"
Rubrica coordenada e apresentada por
Salvador Santos

Varela Silva



A Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, a popular Guilhas da Madragoa, em Lisboa, foi um autêntico conservatório de arte de representar para alguns dos maiores nomes do teatro português. Por lá, por aquele verdadeiro centro cultural de bairro, passaram, por exemplo, Raul Solnado, José Viana e… Varela Silva. Foi na Guilhas que estes miúdos do bairro da Madragoa cresceram por entre livros de poesia e de teatro e por lá se fizeram homens e actores. Foi lá que Varela Silva descobriu Alves Redol, Pirandello e Tchekov. E foi lá que pisou o palco pela primeira vez, ainda como amador, com a peça de Almeida Garrett “Falar Verdade a Mentir”, enquanto ia ganhando a vida durante o dia como funcionário do Jardim Zoológico de Lisboa. A sua primeira peça como actor profissional aconteceu no Teatro Nacional D. Maria II, há cinquenta e oito anos, depois de ali prestar provas para um pequeno papel na peça “O Regente” de Marcelino Mesquita. Amélia Rey-Colaço, a sua “deusa” – como ele a definia – gostou da prestação do jovem e acolheu-o como estagiário. Era o começo de uma grande carreira, feita com extrema devoção, ao longo da qual escreveu e encenou peças, contracenou com grandes actores e foi dirigido por importantes Mestres. Pela nossa memória passam trabalhos que o apaixonaram como actor e mereceram a recepção calorosa do público, desde “Os Peraltas e Sécias” ao “Lugre”, de “A Gaivota” a “O Motim” e de “Tá Mar” a “O Judeu”, quase sempre no D. Maria II.
A popular "Guilhas" verdadeiro forno de artistas teatrais.


Como encenador vivem na nossa saudade as suas criações em “A Sapateira Prodigiosa”, “Rómulo, o Grande”, “Tango” e “A Senhora da Boca do Lixo”, para além de muitos outros espectáculos, da tragédia à farsa e da comédia à revista. “A Gaiola das Loucas”, com Curado Ribeiro e Nicolau Breyner como cabeças de cartaz; “O Pascoal”, com Camilo Oliveira em primeiro plano; “Empresta-me o teu Apartamento”, com Henrique Santos e Maria Dulce nos protagonistas; e “A Menina Alice e o Inspector”, com Laura Alves e Nicolau Breyner como primeiras figuras, foram algumas das peças que ele dirigiu com mestria e talento no chamado “teatro comercial”.

Para Varela Silva não havia, porém, teatro comercial e não-comercial. Para ele, havia apenas teatro, as diferenças residiam nos géneros. E a revista merecia-lhe um carinho muito especial. «A revista é muito difícil. Nela temos, três, quatro minutos para levantarmos uma personagem. Nos outros géneros temos três ou quatro actos para isso» – afirmava ele. E rematava: «O teatro de revista é eminentemente popular, na linha de Gil Vicente. E devemos prezar muito o que é genuinamente português». Por estas razões, a revista não podia faltar no seu currículo. Ele escreveu, interpretou e dirigiu a sua primeira revista (“Ponto de Vista”) para o Teatro Nacional D. Maria II, seguindo-se a co-autoria de “O Pato das Cantigas”, a interpretação de “Até Parece Mentira”, entre outras, e a encenação de “Ó da Guarda!”, todas no Parque Mayer, em Lisboa.
Lisboa. Bairro da Madragoa


O cinema teve Varela Silva em doze produções, das quais “Benilde ou a Virgem Mãe” de Manoel de Oliveira terá sido porventura a mais importante, deixando também pela sétima arte todo o seu talento à mercê dos mais diversos realizadores. “A Ribeira da Saudade”, “Via Macau”, “O Diabo Desceu à Vila”, “Os Filhos da Noite”, “O Cântico Final”, “Aqui D’El Rei” e “O Judeu” estão na lista dos melhores filmes em que participou. O cinema sempre o atraiu, embora confessasse não entender algum do cinema moderno, cujos sinais tinha dificuldade em descodificar. Apesar disso, também aí soube sempre dar-se por inteiro, sem impor limites ou condições.

A rádio foi sua “oficina de actor” e companheira de muitas e boas horas, em inúmeras rádio-novelas e peças de teatro, e a televisão nasceu para ele quando esta ainda quase “gatinhava” nos velhos estúdios do Lumiar. Por lá, fez dezenas de peças, os mais diversos tele-dramáticos e telenovelas. A nossa memória mais recente regista a sua participação nas novelas “Vila Faia”, “Na Paz dos Anjos” e “Origens”, e na série humorística “Gente Fina é Outra Coisa”. Mas decerto jamais esqueceremos o seu “baptismo televisivo”, em 1958, com a peça de Romeu Correu “O Céu da Minha Rua”, que marcou também a estreia de Amália Rodrigues como actriz na televisão, e uma série que escreveu e dirigiu com sucesso em 1960: “Gente Simples Cá do Meu Bairro”.
Do seu bairro, a Madragoa, nunca se esqueceu, sobretudo da Guilhas, onde cresceu e se fez homem da cultura, tendo sido sempre o primeiro a dizer “presente!” quando a colectividade precisou. No mesmo ano em que a maldita doença o destronou, faz agora exactamente dezasseis anos, ele mobilizou os seus companheiros de juventude para salvar a sede da Sociedade Guilherme Cossoul de ruína eminente. Nesta breve evocação de Varela Silva não podíamos, aliás, deixar de sublinhar a sua inexcedível bondade, que, curiosamente, procurava esconder sob uma ironia implacável que muitas vezes era interpretada como arrogância. Mas, na verdade, para além do grande actor e do extraordinário homem de teatro que sempre foi, ele era acima de tudo um companheiro solidário e um braço amigo em todas as horas.


Salvador Santos
Porto. 2011. 12 .17

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