BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. A grande actriz Maria Lalande é hoje recordada

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. A grande actriz Maria Lalande é hoje recordada

Maria Adelaide da Silva Lalande nasceu em Salgueiro do Campo. Castelo Branco em 7 de Novembro de 1912 e faleceu em Lisboa em 21 de Março de 1968). Foi uma actriz do Teatro Português e fez vários filmes.
O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a rubrica “No Palco da Saudade”. A grande actriz Maria Lalande é a recordação de hoje


“No Palco da Saudade”
Texto original de Salvador Santos

MARIA LALANDE

Filha de um conceituado inspector escolar, ela abandonou o liceu aos 13 anos e matriculou-se no curso de Arte de Representar do Conservatório Nacional quando ainda subsistiam grandes escrúpulos de ordem social à escolha da carreira teatral por parte das meninas de boas famílias. A resistência inicial dos pais, não impediu porém que ela acabasse o curso com distinção e cinco anos depois se estreasse no Teatro da Trindade, em Lisboa, ao lado da actriz Adelina Abranches, no espectáculo “A Cova da Piedade”.

O talento que despontava em Maria Lalande não passou despercebido ao olhar clínico de Amélia Rey Colaço, que a convidaria logo de seguida para o Teatro Nacional D. Maria II, onde acabaria por ficar durante largos anos.
Com a sua figurinha frágil, de grandes olhos expressivos, ela passou a ser a ingénua dramática por excelência do elenco do Teatro D. Maria, ao mesmo tempo que foi crescendo como actriz em papéis de maior protagonismo.

Salgueiro do Campo, povoação onde nasceu Maria Lalande

Na verdade, Maria Lalande passou a imprimir uma extraordinária força dramática em todos os espectáculos que participava, tanto nos grandes clássicos portugueses e universais como nas peças de dramaturgos contemporâneos. As suas criações em produções como “Casa das Bonecas”, “Frei Luis de Sousa” e “Ascensão de Joaninha”, que foram alguns dos seus maiores êxitos de sempre, estiveram aliás na origem de um convite para integrar o elenco de uma companhia alemã, dirigida por Gerhart Hauptnann, em 1944.

Mas nesse mesmo ano, Francisco Ribeiro (Ribeirinho), com quem a actriz entretanto se casara, e António Lopes Ribeiro resolveram alugar o Teatro da Trindade e fundar Os Comediantes de Lisboa, e ela acabaria por ficar em Portugal.

Entretanto, alguns dos melhores actores portugueses da época, insatisfeitos com a política de repertório seguida pelo Teatro Nacional, acompanham os manos Ribeiro até ao Trindade, e Maria Lalande foi um deles. Aí, nos ’Os Comediantes de Lisboa, ela voltaria a demonstrar mais uma vez o seu enormíssimo talento em espectáculos como, por exemplo, “Pigmaleão”, “Miss Bá” e “O Baton”. Mas, no inicio dos anos 1950, com o desmembramento d’ Os Comediantes de Lisboa e com o fim do seu casamento com Ribeirinho, a actriz resolve experimentar outros projectos e outras Companhias.
A sua participação em peças como “A Casa dos Vivos”, “Yerma”, “A Hipócrita”, “O Milagre da Rua” e “O Serão das Laranjeiras”, em teatros como o Avenida e o Maria Vitória ou no velho cinema Ódeon, deixaram marcas indeléveis na história do teatro português.

O mesmo aconteceu com a sua brilhante actuação no espectáculo “Auto da Alma”, que Almada Negreiros encenou para o Teatro Nacional São Carlos, em 1965, no âmbito das comemorações do centenário de Gil Vicente. Nessa altura, a propósito da sua inesquecível Alma, alguém escreveu nas páginas de um jornal diário: «Maria Lalande, franzina e minúscula, é no palco a maior de todas».

Infelizmente, os registos cinematográficos que Maria Lalande nos deixou não fazem justiça ao seu enorme talento de actriz. A captação de som em filmes como “Lisboa, Crónica Anedótica” de Leitão de Barros, “Campinos do Ribatejo” de António Luís Lopes, “A Rosa do Adro” de Chianca Garcia, “Fátima Terra de Fé” de Jorge Brun do Canto ou “Não Há Rapazes Maus” de Eduardo Garcia Maroto, deixam-nos grandes amargos de boca.

As soberbas pausas que ninguém fazia como ela, a forma como deixava suspensa cada emoção ou como dividia as frases, no cinema não eram acompanhadas por silêncios mas por arreliadores ruídos que anulavam fatalmente as intenções colocadas em cada intervenção. Sem procurar desculpar-se das culpas que, aliás, não tinha, ela própria dizia que era no teatro que se sentia verdadeira.

Na verdade, como alguém também escreveu um dia: «Lalande era labareda viva; uma vez no palco, queimava-se e queimava-nos. Dava-se toda, corpo e alma, a alma tanto como o corpo, aos seus papéis. Vibrava e fazia vibrar». Ao seu talento e intuição artística juntava-se uma grande cultura e inteligência, que levaram a apelidá-la de «o milagre do teatro português» e de «a imortal». Mas… em meados dos anos 1960, a doença, que acabaria por levar Maria Lalande há exactamente quarenta e três anos, começava a dar sinais e a limitar as potencialidades físicas da actriz, que teimava no entanto em não parar. Já muito doente, ela viria ainda a representar “As Raposas” (uma produção da Companhia Portuguesa de Comediantes que lhe valeu o Prémio Lucinda Simões para a Melhor Actriz) e “Fumo de Verão”, no Teatro Villaret.

Maria Lalande despediu-se do palco e do público no Teatro Municipal São Luiz, na peça “António Marinheiro” de Bernardo Santareno, com uma interpretação notável, considerada por muitos como a melhor da sua vida. A morte já espreitava e pouco tempo depois levou consigo uma das maiores actrizes portuguesas de sempre. O seu funeral teve honras de Estado. Honras justas e merecidas!

Salvador Santos



Porto. 2011. 12. 11

O autor desta rubrica é um homem do Teatro, conhecedor profundo das suas envolventes artísticas e administrativas. Em Portugal poucos haverão que possuam os seus conhecimentos sobre o Teatro

Desenvolve a sua actividade profissional no Teatro Nacional de São João no Porto

Bancada Directa apresenta-lhe os seus calorosos agradecimentos pela sua disponibilidade em levar a efeito esta rubrica

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