BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade”. Recorda-se hoje a notável actriz Irene Isidro

domingo, 4 de dezembro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade”. Recorda-se hoje a notável actriz Irene Isidro



"Passa por mim no Rossio". Teatro Nacional Dª Maria II. Homenagem a Irene Isidro

O Teatro no Bancada Directa.

Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade”.

Recorda-se hoje a notável actriz Irene Isidro

Irene Isidro . Nasceu em Évora em 4 de Setembro de 1907 e faleceu em Lisboa em 7 de Abril de 1993

“No Palco da Saudade” rubrica coordenada e escrita por Salvador Santos.

IRENE ISIDRO

Subimos hoje mais uma vez o pano do palco da nossa saudade para recordar agora uma das mais respeitáveis actrizes portuguesas, desaparecida há pouco mais de dezoito anos: Irene Isidro, uma mulher que, para além do seu inquestionável talento de actriz, foi também uma destacada lutadora feminista.


Irene Isidro e Luisa Satanella

Ela terá sido uma das primeiras mulheres a conduzir um automóvel no nosso país e uma das maiores responsáveis pela introdução das calças no vestuário feminino, tendo chocado as mentalidades de Lisboa dos anos 1920 com as suas posições públicas em defesa dos direitos da mulher. Já quanto à actriz, foi com a peça “Entre Giestas”, de Carlos Selvagem, que Irene Isidro concluiu o curso do Conservatório Nacional, em 1925, com a nota máxima de 20 valores!

A partir desse dia, Irene nunca mais parou e o seu talento impôs-se definitivamente nos palcos portugueses, primeiro no Teatro Nacional D. Maria II e logo de seguida na Companhia de Lucília Simões e Erico Braga. O drama “O Pasteleiro do Madrigal”, as comédias “O Príncipe João” e “O Sonho da Madrugada”, a revista “O Papo Seco” e a farsa “O Meu Menino” foram os seus espectáculos iniciáticos.


Moçambique. 1970. Nesta foto da esquerda para a direita estão Palmira Ferreira; Irene Isidro; Luisa Durão; Isabel Ferreira e Luis Horta

A sua explosão dar-se-á em 1933 na revista “Pernas ao Léu”, da Companhia de Luísa Satanela e Estevão Amarante. Satanela, muito ocupada com as suas funções de actriz, produtora e empresária, cedeu um dos seus números à jovem pupila. Esse número chamava-se Marlène, uma homenagem à actriz alemã Marlène Dietrich que transformou Irene Isidro numa estrela da noite para o dia.

Cocotte Antiga, Zé Ninguém e Tudo Isto é Fado foram outros dos números de grande sucesso que fizeram de Irene Isidro uma primeiríssima vedeta do nosso teatro de revista. Paralelamente à sua experiência no teatro musicado, que abandonou quase definitivamente a partir de 1958, a actriz continuou a somar êxitos no chamado teatro declamado. A Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro permitiu-lhe a representação dos grandes clássicos universais, do drama à tragédia. Maria Matos, Vasco Santana e Ribeirinho levaram-na da comédia popular à farsa por caminhos seguros e experientes de Grandes Mestres que souberam ser. E com estes três saudosos colegas e outros, como Henrique Santana ou Laura Alves, Irene percorreu o país e as ex-colónias portuguesas com diversas produções.

Irene Isidro reunia às suas qualidades profissionais uma personalidade onde imperava a simpatia, o humor, a generosidade e o companheirismo, que fizeram dela uma das nossas actrizes mais queridas. Outra característica que a distinguia dos demais eram as suas incríveis distracções. Uma das mais desconcertantes passou-se em Luanda, numa recepção promovida por um colono português, na sua própria casa, durante a qual, numa pequena conversa a sós com um dos presentes, Irene criticou amargamente o novo-riquismo da decoração da casa, esquecendo-se que estava a falar com o… anfitrião. Outra das suas distracções mais divertidas que ela contava com muita graça, foi quando estava a tomar um banho de imersão e o seu pequeno rádio de pilhas, que nunca dispensava nessas alturas, se calou inesperadamente. Ela estava a ensaboar-se com o rádio… e o sabonete encontrava-se no lugar daquele, na borda da banheira!
Feira da Luz.1930

No palco não havia distracções. Irene era uma actriz concentradíssima, de um profissionalismo irrepreensível, cujo talento foi sempre reconhecido pelos seus pares. Foi muito devido a esse seu perfil, que Ribeirinho a convidou, em 1979, a integrar o elenco residente do Teatro Nacional D. Maria II, onde ela se manteve até ao fim da vida. Ali foi consolidando uma sólida reputação como actriz “dramática”, apesar de ter feito algumas incursões pela comédia naquele mesmo palco. “As Sabichonas”, “O Morgado de Fafe em Lisboa” ou “As Alegres Comadres de Windsor”, por exemplo, foram algumas das peças que lhe permitiram retornar ao registo cómico que a havia tornado popular. E até às cantigas ela havia de voltar no “Nacional”. Sim, porque, não sendo cantora, Irene Isidro, quase por ironia, como aconteceu com a “sua” Marlène, foi responsável pela criação de algumas das mais perenes cantigas populares do seu tempo.

E foi assim, a cantar, que Irene Isidro se despediu dos palcos em “Passa Por Mim no Rossio”, de Filipe La Féria, no “D. Maria”, evocando um glorioso passado vivido ao lado dos maiores nomes do nosso teatro, de diferentes gerações. António Silva, Beatriz Costa, Paulo Renato e Varela Silva, são alguns dos colegas com quem Irene Isidro, esteja ela onde estiver, estará agora reunida a recordar os mais belos momentos que viveram juntos nos palcos. Quanto a nós, fazedores de teatro ou “meros” espectadores, resta-nos recordar com imensa saudade aquela que foi uma das mais queridas actrizes que pisaram os palcos do teatro português.

Salvador Santos

Porto 2011.11.29




O autor desta rubrica é um homem do Teatro, conhecedor profundo das suas envolventes artísticas e administrativas. Em Portugal poucos haverão que possuam os seus conhecimentos sobre o Teatro

Desenvolve a sua actividade profissional no Teatro Nacional de São João no Porto

Bancada Directa apresenta-lhe os seus calorosos agradecimentos pela sua disponibilidade em levar a efeito esta rubrica


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