BANCADA DIRECTA: "Crime das Escadinhas dos Baldaques". Novela colectiva da autoria do Detective Tempicos e Companhia. 6º episodio "A Morte do Ressuscitado".

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Crime das Escadinhas dos Baldaques". Novela colectiva da autoria do Detective Tempicos e Companhia. 6º episodio "A Morte do Ressuscitado".

"Crime das Escadinhas dos Baldaques" Novela colectiva da autoria do Detective Tempicos e Companhia. Inspector Boavida escreve o episódio de hoje. 6ª ou 7º não interessa.

VI Capítulo

A MORTE DO RESSUSCITADO

Autor: Inspector Boavida

«Então, não queres a injecçãozinha?!» – aquela insidiosa oferta de Fafá veio mesmo a calhar. Salvattore estava de rastos, a necessitar de um complexo vitamínico que o preparasse para o devir. Os últimos dias tinham sido arrasantes. Primeiro foi a ida de Zeca Maluco para o Banco de Urgências com a cachola rachada; depois a morte deste e a sua estranha ressuscitação; e agora a morte do ucraniano Adrianov, que sucumbiu numa cama do “São José” para onde fora levado após ter sido encontrado inanimado junto ao corpo do morto-ressuscitado. Mas se os últimos dias tinham sido esgotantes, os próximos prometiam ser muito exigentes. E Fafá podia ajudá-lo a renovar energias. De seringa em punho, ela quase nem deu tempo a que baixasse as calças. Enquanto isso o rafeiro Trucas alçou a pata e marcou território na perna direita de Salvattore.

Só faltava esta do cão a alçar a perna na perna do Salvattore

A energia voltou ao corpo cansado de Salvattore. Começou a sentir uns estranhos calores pela espinha acima, o que animou Fafá. Que rico remédio! Depois de pagar com o corpo o servicinho da enfermeira, ele correu o prédio de alto a baixo. Só escapou a Katinha, que tinha a porta fechada a sete chaves. No primeiro esquerdo, Novena e o velho Carvalho tinham saído para a missa das dez, deixando a D. Espineta sozinha em casa, e foi o bom e o bonito! No último andar, foi um “ver-se-te-avias” que meteu gritos, ais e uis que se ouviram distintamente no rés-do-chão, onde a ucraniana Trioska chorava desesperadamente a morte de Adrianov. E apesar desta manhã super-agitada, quando a noite chegou, Salvattore ainda estava pronto para mais uma aventura dançante nos braços de uma qualquer mulher que quisesse voar com ele até às estrelas.

Indiferente aos dramas que se vivem no velho condomínio conhecido como a colmeia dos loucos, da vizinha Escadinha dos Baldaques, a União Musical continua a organizar as suas famosas e muito badaladas soirées dançantes que animam jovens e velhos do Alto do Pina. Salvattore não perde um pé de dança. E lá está ele, rodopiando enroscado na barwoman Marilete, dengosa e derretida que nem manteiga ao sol dos trópicos, convencida de que tem o dançarino-poeta no papo. De súbito, tudo pára. A fogosa Katinha, que parece ter escapado às amarras do inefável Tempicos, acaba de entrar no Clube. Teme-se o pior. A Marilete, que em tempos teve um affair de caixão à cova com Mendinho, ainda deita um olhar ameaçador à rival, mas tudo não passa de pólvora seca. O duelo termina ali. Segue-se a dança apache, com Katinha nos braços de Salvattore.
Salvattore e Katinha esmeravam-se na dança apache

Katinha avança bamboleante, de mãos firmes nos quadris, sorriso malicioso nos lábios e de olhar doce, quente e sexual. Salvattore segue ao seu encontro, de ar duro, determinado e machão, mas ao mesmo tempo apaixonado e sensual. Ela assume um ar frágil de gata desprotegida e sem dono, com requebros febris de fêmea com cio, pronta a ser levada à força bruta por qualquer gigolô sem escrúpulos. Forma-se uma grande roda em torno do par. Salvattore segreda algo aos ouvidos de Katinha, provocando-lhe uma frase imperceptível que mais parece um gemido. Num gesto brusco, ele agarra-a pela cintura, puxa-a contra si e rouba-lhe um beijo violento; ela simula sofrimento físico, mas arfa com nítido gozo. Os aplausos não tardam. Toda a gente vibra com o casal. Toda a gente… menos o detective Tempicos, que acabara de chegar.

Esbaforido, chispando pragas pelos olhos, o velho investigador arranca dos braços do par a sua protegida, a sua “querida afilhada”, como ele a designa, e puxa-a pelos cabelos para fora do Clube. Já na rua, de olhos esbugalhados, desata aos berros com ela: «Vadia, cabra, galdéria, és igual à tua mãe. Mas eu ensino-me, nem que para isso tenha que fazer o mesmo que fiz a ela». E arrasta-a. Na correria forçada, levada pela mão férrea do homem que a aprisiona a uma vida que não quer, Katinha perde um dos seus sapatos. Ainda tenta apanhá-lo do chão, mas a força bruta do sequestrador que a arrasta não o permite. Pelo caminho, já a chegar às Escadinhas dos Baldaques, Katinha tenta escapar-se por uma última vez, mas não tem energia para tanto. Ela ainda grita: «Largue-me, ordinário, seu sabujo, seu… seu… seu…». Não consegue acabar a frase.

No bar do Clube, Salvattore afoga a sua raiva na vigésima mini. Mendinho, acabado de dirigir mais um ensaio da nova versão de “O Pai Tirano”, da autoria do poeta-dançante, que subirá a cena com o título de “O Padrinho Tirano” parodiando uma figura muito conhecida do bairro, ainda tenta convencê-lo a ir para casa, mas sem sucesso. Ao reparar no olhar tentador de Marilene, Mendinho não se demora nem mais um minuto e foge em direcção à colmeia dos loucos. Meio enfrascado, Salvattore não tarda muito a seguir-lhe o exemplo. Cambaleando, lá vai ele rua abaixo. Detém-se a meio do caminho. Na berma do passeio, encontra um pequeno sapato de mulher. Não tem dúvidas: o sapatinho pertence à sua querida Katinha. Chegado ao prédio onde mora, segura no sapato como se fosse um microfone e começa a cantar alto e bom som.
Katinha, minha musa amada,
Perdeste o pé pela calçada.
Mas eu encontrei-o, Cinderela.
Vem, meu amor, vem à janela!

Uma caixa de seringas vazia voa até aos seus pés. Um búzio em muito mau estado e uma pedra de cristal lascada quase o atingem na cabeça, mas Salvattore não se cala.

Pelo cheiro, este sapato é teu.
Sou o teu príncipe, amor meu.
Não tenho coroa nem manto,
Mas, amor, eu quero-te tanto.

Katinha/Cinderela, versão Inspector Boavida para o Salvatore

«E eu quero-te é daí para fora, meu paspalho» – grita o enraivecido Tempicos, que assomou à janela. «Isto não são horas para serenatas, minha besta» – rosna o Zeca Maluco de uma janela das águas furtadas. «Deixai dormir os filhos do Senhor, servos do demónio» – pragueja Novena da varanda do seu quarto. «Vai trabalhar, malandro, que já não posso ouvir os teus versos de pé quebrado. Ou te calas ou quebro-te um vaso no toutiço – grita Arnezinha. E quase toda a gente que habita na colmeia vem às respectivas janelas munida de sacos com os mais diversos dejectos. De súbito, falta a luz nas Escadinhas dos Baldaques e começa a ouvir-se o Tango dos Barbudos. Cerca de três minutos depois faz-se silêncio e a luz volta. Aos pés de Salvattore jaz um corpo. O ressuscitado Zeca Maluco morrera “de novo”, agora atingido por um tiro nas costas.

O detective Tempicos diz não ter dúvidas de que se trata de um homicídio por mimetismo (acho que é assim que se escreve, com um “m” na segunda sílaba…). Segundo ele, o assassino inspirara-se num célebre problema escrito por Luciano brasileiro/português de Olhão, publicado numa secção policial que o jornal Público dá à estampa todos os domingos. Mendinho alvitra que alguém vá a Varginha falar com o autor do problema. Salvattore grita logo: «Vou eu, vou eu. Varginhas é comigo!». Katinha sorri e desculpa-o: «Não liguem. O pobre está bêbedo». Tempicos intervém de novo: «Qual Varginha, qual carapuça. Daqui não sai ninguém, enquanto não chegar a polícia». E continua: «Isto não é normal. Primeiro o Zeca aparece desfalecido, morre durante umas horas, depois ressuscita e agora morre de morte matada?! Nã!!!».

Então, não vai a injecçãozinha? Salvattore estava de rastos. Não era por causa de dar ou levar a injecção, mas sim porque o pestilento cheiro a chi-chi de cão que ainda morava na sua perna deixava-o nauseado




Algo de estranho se passa na colmeia dos loucos – disso ninguém tem dúvidas. E se dúvidas existem de que ali há mistério, elas são dissipadas pela notícia que chega na voz da enfermeira Fafá: «este foi-se com um tiro e o ucraniano de uma figa morreu envenenado!» Mas como é que ela sabe as causas da morte de Adrianov, se a própria Trioska nada sabe e a autópsia ao corpo do infeliz ainda não fora realizada? Estas e muitas outras interrogações bailam na cabeça de Tempicos: «O Zeca foi atingido nas costas, quando se encontrava a uma janela do último piso do prédio; logo, quem o matou mora no mesmo piso e, talvez, na mesma casa. E aí habitam Arnezinha, o seu quase sempre ausente maridinho e o mago Fanfona. Mas que relações existem entre estes e a menina Fafá? Sim, porque a maluquinha das injecções está metida nisto!».

Inspector Boavida
21 de Dezembro de 2011


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Retrospectivas: 3º capitulo. Clicar aqui

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