BANCADA DIRECTA: "Crime das Escadinhas dos Baldaques! Anexo ao capítulo 4. Tempicos desmancha-se todo e volta aos seus recursos mirabolantes

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

"Crime das Escadinhas dos Baldaques! Anexo ao capítulo 4. Tempicos desmancha-se todo e volta aos seus recursos mirabolantes

"Crime das Escadinhas dos Baldaques"
Novela colectiva do Detective Tempicos e Companhia
Anexo ao capítulo 4º. Titulo "O Velório".......
Tempicos é o autor

O VELÓRIO

A menina Fafá foi peremptória. Não havia dúvida: Zeca Maluco dera o” berro”. E Fafá sabia o que dizia pois tinha feito um curso de nadadora-salvadora algures. Seguiu os procedimentos oficiais, apalpou-lhe a carótida, e em seguida pôs um espelho na boca de Zeca. Tudo confirmado e garantido – Zeca pifara definitivamente.

Depois seguiram-se os trâmites habituais. A Dona Arnezinha oferecera a sala para à noite se fazer o velório. Foi só afastar a televisão e a cristaleira. À roda do féretro umas cadeirinhas e no aparador um frasquinho de aguardente branca, de amêndoa amarga, conhecido como a “amarguinha” da dona Arnezinha. Diziam, faria acordar um morto. A noite caia e o velório seguia-se inevitavelmente
Algarvio de gema e possuidor de mais de 130 amendoeiras, Tempicos produzia a sua própria "amarguinha". Com saudades dos tempos de Paris com a Nelinha, afrancesava os rotulos das garrafas

Os homens juntavam-se à porta para poderem fumar e contar anedotas e as senhoras choravam o morto, intercalado por algumas rezas e distribuição de copinhos de aguardente pois a noite já esfriava. Era um bom programa.

Toda a vizinhança do prédio estava presente. Só faltava o cónego Novena que tivera uma chamada urgente para dar uma extrema-unção rapidinha mas até ele pouco se demorou pois ali tinha o papel principal: comandar as orações.

Antes porém, Tempicos num acto de amizade e algum remorso pela forma como tratou Zeca Maluco em vida, resolveu levantar-se e fazer o elogio ao defundo.Com uma voz roufenha e compungida falou:
“ Amigos, estou aqui na qualidade de amigo do peito do Zeca. Ele não era um santo. Para a minha afilhada Kátinha Vanessa era até um pouco abusador. Mas a vida é assim e a gente tem de perdoar mesmo aos piores malandros. Sei que o Zeca não respeitava a Dona Arnezinha aproveitando-se do facto de ser sonâmbulo acabava a aninhar-se durante a noite na cama dela que, coitada, acordava sobressaltada, pensando no seu marido, tão longe, na pesca do bacalhau…”
A Marilete afastava os atrevidos do bar do Clube União com esguichos de agua mineral. Zeca Maluco era tratado diferentemente. Amor era o que ela sentia por ele...


Sim- disse Salvattore do 2º direito – Eu não quero dizer mal do pobre Zeca mas sei que outro dia conseguiu levar na sua viatura a menina Marilete do Bar do Clube União e Deus sabe como ela chegou toda afogueada e amarrotada. Ora o carro do Zeca tem as molas duras mas não amarrota as saias que eu saiba…”

Mendinho quis também botar faladura.
“ Quem sou eu para dizer mal dos meus amigos….mas não posso esquecer o dia que estava a ensinar a Kátinha
a técnica do aquecimento da voz, quando o Zeca apareceu esbaforido e começou a chamar nomes à Kátinha e a dizer-me que eu não era homem nem era nada se não aceitasse um duelo à naifada. O homem não batia bem da bola! Pois que descanse em paz. Agora já não fará mais maldades. Deus é grande.”






O velório agalinhado





O cónego Novena não estava a gostar nada do que estava a ouvir e tentou deitar água na fervura. Enquanto impávido e morto jazia no seu caixão Zeca maluco branco como a cal mas com um sorriso estranho ao canto da boca.

E de repente. Não mais que de repente, o morto eleva-se do caixão, como uma mola e sentado exclamou:
“ Meus amigos, como já disse Mark Twain, a notícia da minha morte foi manifestamente exagerada…”
Sonâmbulo ou não, o Zeca subia a escada, pé ante pé, com fins inconfessados. Só Tempicos é que sabia o seu objectivo.

Foi o fim da macacada. As senhoras todas horrorizadas começaram aos berros. Os homens que estavam no patamar da escada a contar anedotas regressaram assustados sem perceber o que se passava e o morto sentado no caixão sorria com um ar displicente, segurando o pano que anteriormente lhe cobria o rosto em forma de bandeira em braço erguido.

O cónego Novena caiu desmaiado,redondo no chão. Dona Espineta sugeriu – será que lhe caíram mal os ossinhos de assuã que lhe servimos ao jantar? Kátinha correu ao caixão abraçar o seu queridinho, beijando-o na face. No canto da sala, Fafá, sorria comprometida. Naquela tramóia toda havia um segredo. Esse segredo teria que ser
descoberto. Era fatal como o destino.

Detective Tempicos
Lisboa. 2011. 12. 04

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !