BANCADA DIRECTA: “Crime das Escadinhas dos Baldaques”. Capitulo 4 desta novela colectiva da autoria de Tempicos e Companhia.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

“Crime das Escadinhas dos Baldaques”. Capitulo 4 desta novela colectiva da autoria de Tempicos e Companhia.

“Crime das Escadinhas dos Baldaques”. Capitulo 4 desta novela colectiva da autoria de Tempicos e Companhia. Nota de Bancada Directa: como já foi dado noticia este capítulo 4 compõe-se de um texto original da Detective Jeremias e de um anexo da autoria do Detective Tempicos.

CAPÍTULO QUATRO

TEMPICOS PÕE TUDO A NU – Finalmente o Crime
Passada uma semana … começava um mês novinho em folha. Mais precisamente o mês de Dezembro do ano 2011 de era Troika. A nossa colmeia das Escadinhas dos Baldaque era o espelho do país: coexistência pacífica à superfície e bem lá no fundo uma incógnita.

Honestos e mentirosos, virtuosos e pequenos burlões, fiéis e traidores inveterados partilhavam o espaço, todos com um comportamento bipolar, indecisos entre o ódio de morte e o amor para toda a vida. Tempicos empacotado neste agregado, num momento de fulgurante lucidez, chegou á conclusão que não era um zangão da colmeia, mas antes um Hymenoptera num ninho de vespas.

Temos "ouvisto" chamar muita coisa a Tempicos. Mas esta de himnoptera é de mestre A crise e a redução coelhal na reforma foram a machadada fatal nos seus sonhos de futuro na Quinta do Lago. Puxou dos galões de detective, auto-nomeou-se administrador de condomínio do prédio e passou a ter pretextos para espreitar às fechaduras, vasculhar as caixas do correio e inspeccionar os sacos do lixo. Desta maneira matava um cardume de coelhos só com uma cajadada: sacava uns euritos, controlava as eventuais traições da Kátinha e ficava a par dos segredos dos moradores do prédio - quem sabe uma fonte receita futura.
Uma semana de pesquisa deu resultados surpreendentes, alguns ainda em processo de investigação, que agora aqui se divulgam.

Tempicos começou por vasculhar o lixo de Fafá, mais por estranheza do volume do que por curiosidade. O avantajado saco preto estava atulhado de embalagens da “Pastelaria Bijou – Doçaria Conventual Escalabitana – Especialidade Celestes”.

Celestes de Santarém: as perdições da Fáfá

“Grande aldrabona” – exclamou Tempicos quando se lembrou de Fafá transportando tabuleiros de forno repletos de Celestes fumegantes, que entregava para venda no bar do “União”, com o aviso “Cuidado…acabadinhos de fazer…”. “Grandessíssima aldrabona” – reformulou Tempicos – “Celestes de compra, aquecidos no microondas… Bom, pelo menos eram Celestes de compra genuínos”.

Seguiu-se a Arnezinha. Tempicos verificou que a fada do búzio e do dedal recebia diariamente na sua caixa do correio um jornalzinho de província. Não seria de estranhar não fosse a informação em destaque na cinta do jornal – Publicação Quinzenal – e ansiedade excessiva com que Arnezinha aguardava o carteiro. Tempicos ficou com a pulga atrás da orelha.

E foi com a orelha encostada à porta do casal ucraniano que ele conseguiu ouvir uma conversa sussurrada que viria a tornar-se uma verdadeira bomba, não pelo conteúdo, mas pelo que acabaria por revelar.

Trioska lançou a Arnezinha no mundo da dança da Kalinka. A nortenha lampeã tornou-se especialista nos volteios apoiada em botas de tacão alto..

Enquanto escutava à porta Tempicos lembrava-se que Trioska tinha ido ao cabeleireiro com a sua “senhoria”. Saíram as duas de braço dado, chilrearam risinhos adolescentes quando se cruzaram na escada com Tempicos. Trioska, que arrastava a asa ao detective, tinha atirado com a ponta dos dedos um beijinho carregado de insinuações: “Vamos ali ao cabeleireiro, para ficarmos bonitas para o Senhor Administrador do Condomínio…”.

Ora Tempicos sabia que Adrianov era conhecido por não dar um grunhido sequer na língua de Camões. Com quem estaria ele à conversa? Espante-se caro leitor, tal como o nosso amigo Tempicos! Adrianov combinava negociatas nem mais nem menos com o Zeca Maluco. A indecisão de ambos oscilava entre se lançarem uma sociedade numa empresa de transporte alternativo sustentável de acompanhantes de luxo até hotéis de 5 estrelas, ou investirem numa firma especializada em ligação directa a cabos da EDP com garantia garantida para o cliente de redução imediata na conta da luz.

“Com que então o Adrianov fala português sem sotaque russo, mas com sotaque alentejano” – murmurou Tempicos, afastando-se da porta, alheio ao tema da conversa e determinado a investigar os segredos do casal “eslavo”. Contactos antigos na Judiciária deram de borla os esclarecimentos necessários. Adrianov e Trioska eram afinal nados e criados em Gasparões, aldeia alentejana.

Namorados desde sempre, com sonhos altos de Bonnie e Clyde, serviam-se do aspecto loiro e espadaúdo dado pelos resquícios de ADN celta, da facilidade para as línguas e dos passos de dança apreendidos na Sociedade Recreativa da terra para partirem pelo país acima e burlarem incautos moradores da capital lisboeta.

Tempicos regressava a casa remoendo tantas informações. Subia, a passo cansado, a Morais Soares quando encontrou Mendinho e Salvattore. Estes dois andavam em mó de baixo, porque tinham acalentado esperanças de nomeação como directores do Teatro Nacional, por motivos que são do conhecimento geral. Foram juntos para casa, para as escadinhas dos Baldaque, calados como toupeiras.

Eram apenas seis horas da tarde e o anoitecer precoce de Dezembro também não ajudava a conversas. Porém, no patim do prédio, depois do flash branco e cru da luz das escadas, se iam os três calados ficaram mais mudos ainda. Caídos no chão frio de mosaico antigo jaziam, lado a lado de borco para cima, os corpos inertes e exangues de Adrianov e Zeca Maluco.

Tempicos berrou “Acudam, acudam!”.
O cónego Novena era avesso a dar extremas-unções aos amigos

Fafá surgiu de imediato, como por magia. Avaliou o estado clínico e com tacto profissional declarou: “ Chamem o cónego Novena. Um respira… mas outro bateu a bota!”

Detective Jeremias
Santarém. 2011.11.30


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