BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta e coordena “No Palco da Saudade”. Recorda-se hoje a grande Hermínia Silva

domingo, 27 de novembro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos apresenta e coordena “No Palco da Saudade”. Recorda-se hoje a grande Hermínia Silva

Herminia Silva nasceu em Lisboa a 2 de Outubro de 1907 e faleceu nesta mesma cidade a 13 de Junho de 1993

O Teatro no Bancada Directa.

Salvador Santos apresenta e coordena “No Palco da Saudade”.

Recorda-se hoje a grande Hermínia Silva



“No Palco da Saudade”. Uma rubrica de Salvador Santos

HERMÍNIA SILVA

No verão de 1915, já lá vão mais de noventa e seis anos, subia a cena no Teatro Taborda, em Lisboa, a peça “A Castro”, de António Ferreira. No palco, com apenas seis anos de idade, vestindo a pele do Infante D. João, estreava-se no teatro uma menina do bairro do Castelo que foi grande no fado e enorme na revista à portuguesa.

Chamava-se Hermínia Silva e andou ainda menina e moça pelos palcos amadores e pelas verbenas dos velhos bairros de Lisboa a representar teatro e a cantar fado. Com apenas treze anos ela passou pelo Parque Mayer como cantadeira, no popular Pavilhão do Valente das Farturas, e a sua graça e espontaneidade despertaram o interesse dos empresários do teatro de revista.

Nessa altura, a actriz Hortense Luz, então também empresária, desafiou-a para um espectáculo no Teatro Maria Vitória, mas o que ela queria mesmo era cantar o fado à sua maneira e ficou-se pelo… Valente das Farturas.

Porém, dois anos volvidos, Hermínia Silva não resistia ao assédio dos empresários dos teatros do Parque Mayer e acabaria por se estrear na opereta “Fonte Santa” e logo de seguida na revista “Feijão Frade”. Diversos especialistas de teatro, ao perceberem que ela transcendia as fronteiras do fado, aliando aos seus dotes inconfundíveis de fadista uma extraordinária capacidade de comunicação, queriam à viva força que ela tivesse aulas de representação, mas Maria Matos logo se opôs, porque, segundo aquela actriz,
Hermínia Silva tinha que ser ela própria quando estava em cena, sem recurso a técnicas. Isto porque nela existia tudo o que uma actriz de teatro popular tinha que ter: a espontaneidade e a generosidade da alma dos bairros populares de Lisboa. E isso, Hermínia tinha como ninguém.

Depressa a actriz cómica, intuitiva e dotada de um sentido agudo de observação, emergia da cantadeira, a tal ponto que o Mestre António Pedro, depois de a ver na revista “Tico-Tico” (1945), dizia a seu respeito num artigo de opinião publicado no “Mundo Literário: «[Hermínia Silva] é a melhor actriz que conheço». E para que não restassem dúvidas, acrescentava: «A melhor sem nenhuma restrição de género ou qualidade.
A melhor querendo dizer exactamente a melhor, sem mais reticência nenhuma». Por seu turno, Amália Rodrigues, a maior voz de sempre da chamada canção nacional, falando certa vez a propósito de Hermínia, disse que ela podia ter sido a maior… se quisesse. Mas o que Hermínia sempre quis foi “simplesmente” cantar o fado com o coração e fazer de cada fado um hino de optimismo e amor à vida.

No fado, assim como na revista, ou até mesmo no cinema, onde cantou o célebre “Fado da Sina” no filme “O Homem do Ribatejo”, Hermínia foi sempre ela própria, inteira e única. A sua popularidade atingiu uma tal dimensão que o cinema não dispensou o seu contributo de actriz e cantadeira. Apenas nove anos após a sua estreia na revista, Hermínia foi convidada a integrar o elenco do filme “A Aldeia da Roupa Branca”, de Chianca de Garcia. E a partir daí, as propostas de contratos surgiram em catadupa, provenientes das mais diversas latitudes.

O Brasil, a nossa vizinha Espanha e outros países europeus reclamaram a sua presença “fora de portas”. Não fora o seu pavor de andar de avião e Hermínia teria tido uma carreira internacional fulgurante a julgar pelos convites recebidos para actuar nos mais diversos pontos do Globo.

Hermínia Silva acabou por concentrar a sua carreira em Portugal, passando regularmente pelo Parque Mayer, onde rubricou actuações inesquecíveis em revistas como “Sempre em Pé”, “Ai Bate, Bate”, “Ai Venham Vê-las” ou “Afinal Como É?”.
Paralelamente às suas participações nos palcos da revista, ela “passeou” o seu enorme talento por inúmeros espectáculos de variedades realizados um pouco por todo o país e em vários programas televisivos, para além de muitos êxitos populares registados em disco.

A partir de 1958, com a inauguração do Solar da Hermínia, em Lisboa, no popular Bairro Alto, onde lançou inúmeros artistas que despontavam para o fado, ela passou a marcar encontro todas as noites com o imenso público que a idolatrava quase fanaticamente e que se deliciava com o seu sentido de humor muito peculiar e com o seu divertido jargão … “Anda, Pacheco!”

São muitos os prémios e distinções que Hermínia Silva foi acumulando ao longo dos anos, entre os quais se encontram o justificadíssimo Prémio Nacional de Teatro Ligeiro atribuído pelo ex-SNI, a Grã Cruz da Ordem do Infante e a Medalha de Ouro da cidade de Lisboa. Hoje, passados mais de dezoito anos sobre o seu desaparecimento (Hermínia faleceu no dia Santo de António – 13 de Junho de 1993), impomo-nos recordar a fadista, a actriz e, sobretudo, o povo quer havia naquela mulher.

Salvador Santos
Porto. 2011. 11. 25

O autor desta rubrica é um homem do Teatro, conhecedor profundo das suas envolventes artísticas e administrativas. Em Portugal poucos haverão que possuam os seus conhecimentos sobre o Teatro

Desenvolve a sua actividade profissional no Teatro Nacional de São João no Porto

Bancada Directa apresenta-lhe os seus calorosos agradecimentos pela sua disponibilidade em levar a efeito esta rubrica


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