BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. A rubrica “No Palco da Saudade” recorda hoje Humberto Madeira. Coordenação e texto do Salvador Santos

domingo, 20 de novembro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. A rubrica “No Palco da Saudade” recorda hoje Humberto Madeira. Coordenação e texto do Salvador Santos

Humberto Madeira. Nasceu em Lisboa a 3 de Agosto de 1921 e faleceu na mesma cidade a 17 de Junho de 1971

O Teatro no Bancada Directa. A rubrica “No Palco da Saudade” recorda hoje aquele que foi o grande Humberto Madeira. Coordenação e texto do Salvador Santos

Humberto Madeira


O teatro português perdeu há quarenta anos um dos seus mais genuínos e populares comediantes de sempre e um profissional profundamente honesto e generoso: Humberto Madeira. Bé, como carinhosamente o tratavam os amigos e camaradas de trabalho, tinha um coração de ouro e um refinado sentido de humor, capaz de transformar o texto mais sem-graça num momento verdadeiramente hilariante. Ele começou a sua actividade profissional como imitador e animador nos espaços nocturnos “Solar da Alegria” e “Casablanca”, em Lisboa, e na antiga Rádio Peninsular, tendo também feito parte da famosa e divertida Orquestra Aldrabófona. Mas foram os espectáculos publicitários muito em voga na época, como o popular Passatempo APA, que lhe abriram os caminhos para o teatro musicado.
Parque Mayer. Teatro Maria Vitoria. Revista "Fogo de Vista". Um grande elenco: Humberto Madeira, Antonio Silva, Eugenio Salvador, Maria Domingas, Leónia Mendes, Barroso Lopes e Bibi Ferreira

Humberto Madeira pisou os palcos do teatro de revista pela primeira vez em 1940, no espectáculo “Retalhos e Recortes”, uma miscelânea de diversos autores e compositores de revista, que fez sucesso no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, mas ainda não foi dessa vez que o actor veio para ficar. Algum tempo depois da sua participação naquele espectáculo, ele passou pelo antigo Teatro Apolo e integrou depois uma companhia liderada por Amália Rodrigues que o levaria ao Brasil. No seu regresso o actor retomou os espectáculos publicitários ao vivo, que animava com imitações e pequenas rábulas de sua autoria, até que a censura determinou a proibição daquelas iniciativas e ele resolveu dedicar-se quase exclusivamente ao teatro.

Com as revistas “Parada da Alegria” e “Ó Rosa Arredonda a Saia”, Humberto Madeira, entretanto apelidado pelos publicistas de “o milionário do riso”, conquista definitivamente o público e em pouco tempo o seu nome encabeça os cartazes dos teatros do Parque Mayer, em Lisboa. As duplas que constituiu com Eugénio Salvador, ou os conjuntos formados com este, António Silva e Max ou Raul Solnado e Carlos Coelho, tornaram-se célebres pela sua graça irresistível. Inesquecíveis são também as suas prestações na revista “Bate o Pé”, ao lado de Florbela Queiroz, assim como as suas criações na rábula “Museu do Cinema” e, sobretudo, no monólogo “Insabel” (uma paródia à Rainha-Mãe de Inglaterra), que ele interpretava num tom cómico-dramático e que fez história nos palcos da revista à portuguesa.
No filme "Eram duzentos irmãos" Humberto Madeira" é o Pato Bravo


Mas a sua actividade como actor não se resumia apenas ao teatro de revista. Humberto Madeira fez esporadicamente opereta, abordou a comédia por diversas vezes e experimentou o cinema em Portugal, Espanha e Estados Unidos da América. “O Diabo São Elas” de Ladislao Vadja, “Zacalaín el Aventurero” de Juan de Orduña, “Capas Negras” de Armando de Miranda, “O Grande Elias” de Arthur Duarte, “O Comissário de Polícia” de Constantino Esteves, “O Passarinho da Ribeira” de Augusto Fraga, “As Pupilas do Senhor Reitor” de Perdigão Queiroga, “Pão, Amor e Totobola” de Henrique Campos e “Aqui há Fantasmas” de Pedro Martins, são apenas alguns dos muitos filmes em que participou. A terrível doença que o vitimou, há exactamente quarenta anos, começou a declarar-se em 1965, quando estava a fazer a revista “É Canja”, no Teatro Capitólio, que ele dirigia na altura com Raul Solnado e Carlos Coelho. O optimismo de Humberto Madeira e o seu obstinado amor à vida levou-o a travar uma luta tenaz contra a doença, chegando a dividir o seu tempo entre actuações no palco, a divertir o público, e estadias no Instituto Português de Oncologia, em dolorosos tratamentos. São também desse período as revistas “A Ponte a Pé” no Teatro Monumental, “De Vento em Popa” no Teatro ABC, e “Mulheres à Vela” no Teatro Maria Vitória, que acabaria por ser o seu último trabalho no teatro musicado.

Já muito doente, de rosto meio desfigurado, o seu coração imenso e voluntarioso determinou que Bé fizesse absoluta questão em disponibilizar-se para substituir durante algumas semanas, na comédia “O Fusível”, de Peter Shaffer, em cena no Teatro Villaret, o seu grande amigo Raul Solnado, que tinha de satisfazer um compromisso urgente e inadiável no Brasil. Esta e muitas outras provas de amizade por ele dadas ao longo da sua curta vida bastariam para explicar as manifestações públicas de apreço e solidariedade que a classe teatral lhe promoveu, no Porto e em Lisboa, algum tempo antes da sua morte.

Humberto Madeira ainda tentou uma operação nos Estados Unidos da América. Mas, em vão. A morte acabaria por levá-lo em 17 de Junho de 1971, para imenso desgosto dos colegas que ainda hoje recordam com saudade o grande comediante e o extraordinário amigo que ele soube ser.


Salvador Santos


Porto 2011.11.17

O autor desta rubrica é um homem do Teatro, conhecedor profundo das suas envolventes artísticas e administrativas. Em Portugal poucos haverão que possuam os seus conhecimentos sobre o Teatro

Desen
volve a sua actividade profissional no Teatro Nacional de São João no Porto

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