BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” (7). Eugénio Salvador é hoje recordado na nossa rubrica. Coordenação de Salvador Santos

domingo, 13 de novembro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” (7). Eugénio Salvador é hoje recordado na nossa rubrica. Coordenação de Salvador Santos

Eugénio Salvador Marques da Silva nasceu em Lisboa em 31 de Março de 1908 e morreu na mesma cidade em 1 de Novembro de 1992. Foi um actor, dançarino, encenador e empresário teatral.

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” (7). Eugénio Salvador é hoje recordado na nossa rubrica. Coordenação de Salvador Santos

No Palco da Saudade

Texto de Salvador Santos

EUGÉNIO SALVADOR

Filho de um importante cenógrafo e neto de um empresário e autor teatral de sucesso, Eugénio Salvador tinha o teatro na família mas foi no futebol que começou por se destacar, como extremo esquerdo, no seu clube de sempre: o Sport Lisboa e Benfica. O futebol não tinha na época a importância social e económica que hoje detém, e Salvador acabaria por arrumar as chuteiras e fazer a vontade ao “bichinho” dos palcos que lhe corria nas veias. A sua primeira actuação, ainda como discípulo e aluno do Conservatório Nacional, teve lugar no Teatro Nacional D. Maria II, em 1926, na peça “O Regedor” de Marcelino Mesquita. E no ano seguinte estreava-se, então já como profissional, no Teatro Maria Vitória, no melodrama “O Grão-de-Bico”, produzido pela Companhia da actriz Hortense Luz.

Numa "revista à portuguêsa" contracenando com Victor Espadinha, Ivone Silva e a escultural Odete Antunes.

Foi no entanto como bailarino e coreógrafo que Salvador começou por conquistar maior popularidade, num duo formado com a sua mulher Lina Duval, preenchendo “quadros” de revista e actuando nos célebres “complementos vivos” que intervalavam as sessões de filmes “duplos”, no antigo Cinema Éden, em Lisboa. No inicio da década de 1940, dedica-se então quase exclusivamente à sua faceta de actor, criando bonecos fantásticos de graça e oportunidade em revistas de sucesso, como “Tico-Tico” e “Lisboa Nova”, conduzidas num andamento que não admitia tempos mortos, recorrendo a um tipo de humor vertiginoso à base de non-sens e do absurdo, sem todavia renunciar totalmente aos processos tradicionais, onde ele começou também a destacar-se nas réplicas que dava aos compères. Entre 1942 e 1961, Salvador assume a dupla função de actor-empresário e dirige, em parceria com outros camaradas de profissão, os teatros Apolo e Maria Vitória e o Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Praticamente todos os grandes actores da época, incluindo algumas das maiores vedetas internacionais, fizeram parte dos elencos dos espectáculos que produziu naquelas Salas. Humberto Madeira, António Silva, Beatriz Costa, Irene Isidro, Max, Camilo de Oliveira e Raul Solnado foram alguns dos actores portugueses que fizeram contracena com ele nessas produções, ao lado de vedetas internacionais como as brasileiras Bibi Ferreira e Juju Baptista, as cubanas Canelina e Xiomara Alfaro, a romena Anne Nicolas, a francesa Mary Vincent, a espanhola Carmen Flores, a argentina Perla Cristal, a grega Zulla Curtis, a norte-americana Nancy Holloway, a chinesa Mai-Pen, ou a belga Simone Deby…



Apesar de ter actuado em quase todos os teatros do país, designadamente nos de Lisboa e Porto, bem como nalguns palcos do Brasil e das antigas colónias portuguesas, um teatro houve que chamou sempre de “seu” desde a primeira hora e com o qual o público mais o identificava: o Maria Vitória, o “palco vedeta” do Parque Mayer, onde ele brilhou até bem perto da sua morte, sem perder o seu estilo trepidante que o caracterizava. Foi aliás graças a esse estilo muito pessoal, a que a sua figura franzina e desenvolta, aliada a uma grande capacidade de improviso, ajudava a criar uma particular empatia com o público, que Eugénio Salvador depressa atingiu o estatuto de vedeta popular. E foi ali, no seu “Maria Vitória”, nas revistas “Cantigas Ó Rosa” e “Ó Rosa Arredonda a Saia”, que ele criou o seu primeiro compère, o Zé de Olhão, que foi o paradigma de muitos outros Zés que lhe sucederam até ao seu desaparecimento.
Apesar de ser fundamentalmente um homem de teatro, Eugénio Salvador também fez algum cinema, com destaque para as suas participações em “Cais do Sodré” e “Sonhar é Fácil”, tendo evidenciado neste último uma intuição dramática que até então se desconhecia nele. Mas não se ficou por aqui a prestação do actor nos domínios da sétima arte. “Lisboa, Crónica Anedótica” de Leitão de Barros foi a sua primeira experiência no cinema. Seguiram-se “Maria Papoila” do mesmo realizador, “Fado, História de uma Cantadeira” de Perdigão Queiroga, “Eram Duzentos Irmãos” de Constantino Esteves, “A Maluquinha de Arroios” de Henrique Campos e, por último, já em 1992, “Aqui D’El Rei” de António Pedro Vasconcelos.

Encenador exigente e moderno, bailarino e coreógrafo brilhante, empresário arrojado e, principalmente, um dos maiores e mais dinâmicos actores do teatro musicado português, Eugénio Salvador foi um grande inovador do teatro de revista, um cómico de estilo pessoalíssimo e fantasia exuberante, que fazia rir através de uma imaginação sempre viva e de uma simplicidade atraente de processos em que se adivinhava o seu passado de bailarino e de… futebolista.

Com o seu desaparecimento, a 1 de Novembro de 1992, o nosso teatro perdeu o último dos grandes compères da revista à portuguesa.

Salvador Santos
Porto. 2011. Outubro. 08


O autor desta rubrica é um homem do Teatro, conhecedor profundo das suas envolventes artísticas e administrativas. Em Portugal poucos haverão que possuam os seus conhecimentos sobre o Teatro

Desenvolve a sua actividade profissional no Teatro Nacional de São João no Porto

Bancada Directa apresenta-lhe os seus calorosos agradecimentos pela sua disponibilidade em levar a efeito esta rubrica

3 comentários:

luis pessoa disse...

Tive oportunidade de ver algumas actuações de Eugénio Salvador, no Parque Mayer, na altura o local mais extraordinário da noite lisboeta. Lembro-me de o ver numa estreia, não consigo localizar a data nem a revista, mas recordo que foi um estrondoso sucesso e Eugénio Salvador, com o seu corpo pequeno, com carradas de talento, fez desabar o teatro com as suas tiradas, algumas delas metidas no momento, porque ele tinha a noção exacta do ponto em que o público estava e avançava com improvisos que deitavam o teatro abaixo, às gargalhadas!
Um "monstro" do teatro de revista!

E já agora, uma "cunha" para o Amigo Salvador Santos, para a Grande Senhora do Teatro, Amélia Schmidt Lafourcade Rey Colaço Robles Monteiro, que tive a suprema honra de conhecer pessoalmente, tal como à sua filha Mariana Dolores Rey Colaço Robles Monteiro.

Adriano Ribeiro disse...

Caro amigo Luis Pessoa
De certeza que o Salvador não se vai esquecer da Dª Amélis Rey Colaço e nem do seu esposo Robles Monteiro. Aliás eles foram grandes amigos dele, assim como sua filha Mariana
Abraço
Adriano Rui Ribeiro

Anónimo disse...

Gostei da recordação deste grande actor que muito nos fez rir. Mas acho que tambem fez papeis dramaticos
Bjs para a sua familia
Maria de Lourdes Bonito. Venteira

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