BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” tem a coordenação de Salvador Santos que hoje recorda o actor Estêvão Amarante

domingo, 6 de novembro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” tem a coordenação de Salvador Santos que hoje recorda o actor Estêvão Amarante

Estêvão Amarante. Actor e empresário teatral português, nascido em 9 de Janeiro de 1894 em Lisboa e falecido no Porto a 6 de Dezembro de 1951

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” tem a coordenação de Salvador Santos que hoje recorda o actor Estêvão Amarante

No palco da saudade: ESTEVÃO AMARANTE

Texto integral de Salvador Santos

Ele foi uma das verdadeiras lendas da revista à portuguesa, mas revelou-se sobretudo como intérprete de comédia, género em que se estreou ainda criança, com apenas onze anos de idade, no arranque do século vinte, em “A Viagem de Suzete”, no há muito desaparecido Teatro Avenida, em Lisboa.
No ano seguinte, o palco do novel e efémero Teatro Infante, também erguido na lisboeta Avenida da Liberdade, recebia-o integrado numa Companhia de Teatro Infantil dirigida por José dos Santos Libório, na peça “A História da Carochinha”, onde o petiz sobressaía de um numeroso grupo de jovens actores, pela fantasia e graça da sua interpretação.

O talento natural do petiz, o à-vontade e o domínio dos tempos de comédia que então já evidenciava, levaram o empresário a prolongar a sua estada na Companhia por mais seis anos. Oriundo de uma família muito pobre, orfão de pai desde muito cedo, Amarante ia acumulando as suas participações nas produções infantis, que se realizavam à tarde, com espectáculos nocturnos nos teatros abarracados das feiras de Alcântara e Algés, para ajudar nas despesas da casa. O público que enchia os recintos começou a delirar com a brejeirice do rapaz e não se cansava de cantar com ele «Toma Lá Cerejas” – a primeira das suas inúmeras canções de sucesso. Quando o caso se constou no meio teatral, o empresário Luís Galhardo tomou logo a iniciativa de o contratar para interpretar aquela cantiga na revista “P’rá Frente”, ao lado da actriz Júlia Mendes. A excelente voz e a bela figura do jovem e multifacetado actor depressa granjearam a admiração do público revisteiro. Sempre em ascensão, Estevão Amarante conquistava cada vez mais espaço na imprensa da época. E mesmo quando a primeira guerra mundial eclode, e se teme a participação activa de Portugal no conflito, é também dele e da revista “Novo Mundo” que se fala nas primeiras páginas dos jornais. Motivo: “O Fado do Ganga”, um tema que o actor se obriga a repetir vezes sem conta em cada representação do espectáculo.

Amarante torna-se rapidamente num caso de popularidade invulgar, quer na revista, onde aperfeiçoa os seus dotes de comediante, quer na opereta. É já uma estrela quando conhece Luísa Satanela, com quem casa e forma a Companhia Satanela-Amarante. Na qualidade de empresário, produz principalmente operetas e peças de vaudeville, sempre com êxito, mas quando aposta no teatro de revista o sucesso é retumbante. “Água-Pé” foi a primeira e esteve em cena mais de um ano. Seguiu-se a revista “Tremoço Saloio”, onde criou o “Fado do Cauteleiro”, tema que o povo adoptou como seu e o cantou pelas ruas dos bairros populares de Lisboa.

Estêvão Amarante e Milu contracenando no filme "O Grande Elias".

A sua separação de Satanela, em 1930, constituiu um grande escândalo. Falava-se abertamente do caso nas tertúlias teatrais e o público que o idolatrava não lhe perdoou a ruptura com a jovem italiana que havia conquistado Portugal. Consciente disso, Amarante ausentou-se dos palcos durante três anos. Regressou com a comédia “Uma Para Três” ao lado de Ilda Stichini; experimentou o cinema em “Lisboa, Crónica Anedótica”, “Maria Papoila” e “A Minha Noite de Núpcias” com Beatriz Costa; protagonizou depois a opereta “Bocage” com Maria Paula; e tentou de seguida o teatro dito declamado na Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, onde contracenou com Adelina Abranches e Palmira Bastos, sempre com altos e baixos.

Depois da experiência no Teatro Nacional D. Maria II, onde representou grandes clássicos universais, Amarante regressa ao teatro musicado, embora sem a glória de outrora. É primeira figura na revista “Fora dos Eixos”, onde canta o popular “Fado do Marialva”; é cabeça de cartaz na revista “A Canção Nacional”, ao lado de Hermínia Silva, a grande sensação do momento; e conhece o seu último êxito como intérprete da canção “A Boa Estrela” («a sorte só favorece quem / na vida uma boa estrela tem» – lembram-se?), na opereta “O Zé do Telhado”, onde brilha a ainda muito jovem Laura Alves. Nesta altura, o actor, perdido entre rábulas com muito pouca graça e cenas menos conseguidas, denota já sintomas de que o crepúsculo se avizinha.

Em 18 de Abril de 1950, o público e a classe teatral reuniu-se no “São Luiz”, em Lisboa, para comemorar os cinquenta anos de carreira daquele que é uma das maiores lendas do teatro português. Nessa altura, Estevão Amarante ocupava-se de papéis secundários em filmes como “É Perigoso Debruçar-se” (uma produção espanhola) ou “O Grande Elias” e aparecia nos ecrãs dos cinemas com “Madragoa”. Pouco depois parte para o Porto para ensaiar uma nova revista (“Porto é Porto!”) no Teatro Sá da Bandeira. Morre subitamente à mesa de um restaurante da Invicta. É substituído de urgência por um jovem comediante que então despontava: José Viana. Foi exactamente há sessenta anos. Aquele a quem chamaram a “Voz do Povo” calara-se para sempre!

Salvador Santos


Porto, 2011. Outubro. 30

O autor desta rubrica é um homem do Teatro, conhecedor profundo das suas envolventes artísticas e administrativas. Em Portugal poucos haverão que possuam os seus conhecimentos sobre o Teatro

Desenvolve a sua actividade profissional no Teatro Nacional de São João no Porto

Bancada Directa apresenta-lhe os seus calorosos agradecimentos pela sua disponibilidade em levar a efeito esta rubrica

Porque o nosso colaborador está de parabéns pela passagem de mais um risonho aniversário, Bancada Directa associa-se aos festejos do mesmo, com uma saudação especial para a sua Ex.ª família e em especial um beijinho para a sua esposa Elisabeth , outra figura grande de apoio ao nosso Teatro
.

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !