BANCADA DIRECTA: Fragmentos e Soluções para esta Europa em crise. É como diz Luis Pessoa: não é só criticar! É preciso arranjar soluções (2ª parte)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Fragmentos e Soluções para esta Europa em crise. É como diz Luis Pessoa: não é só criticar! É preciso arranjar soluções (2ª parte)

Ultima parte do texto de ontem

Os mesmos “mercados” fabricam novas crises, retiram crédito a empresas, dificultam acessos e com isso causam falências e desemprego.

Com o desemprego, com batalhões de pessoas à procura de trabalho, vem o embaratecimento do próprio trabalho. Trabalha-se muito mais, por muito menos dinheiro.

A breve prazo o cidadão fica dependente do crédito, até para comer! E se ele faltar, não tem meios de sobreviver!

Hoje continuamos com a 2ª parte do tema


PAÍSES, TAL COMO OS CIDADÃOS
A similitude das situações é gritante. O capitalismo refinou os seus mecanismos e com toda a “simplicidade” agarra as pessoas, como agarra os estados, controla-os e manieta-os.

Num caso como no outro, os “mercados” limitaram-se a acertar contratos com os seus interlocutores e estes “só aceitaram porque quiseram”! Criaram dívidas porque assim quiseram.

Naturalmente que não foi assim, os mecanismos funcionaram para eliminar a vontade das pessoas e dos estados, com promessas miríficas.
Os chamados “mercados” são apenas instrumentos do liberalismo económico, que define que tudo é negócio entre duas partes, desde que voluntariamente aceite e, tecnicamente, todos estes negócios são lícitos.

As autoridades criaram, por pressão das instituições de defesa dos consumidores e dos cidadãos, mecanismos de regulação, que teoricamente impedirão que os “mercados” dominadores possam violar regras de transparência. Diz-se hoje, em plena crise, que esta foi originada “por falta de regulação” e Obama gosta muito de atirar com isso à cara de todos, ressaltando as virtualidades do liberalismo económico (ditadura dos mercados), mas com mais “regulação”.

O problema é sobre quem faz essa regulação. Os “mercados” avançaram com empresas de “rating”, que apontam e classificam cada produto como bom ou mau para os utilizadores. Os resultados ficaram à vista quando nas vésperas da derrocada apontavam como produtos excelentes os lixos tóxicos que apressaram a crise!

Os Estados, completamente manietados pelos “mercados”, avançaram com regulações através dos seus bancos centrais, que no entanto regulavam com base nas “informações” que os interessados lhes forneciam! Assim aconteceram, por cá, os casos BPN e BPP, perante a passividade do Banco de Portugal e do seu líder na altura, Vítor Constâncio, que no entanto recebeu como prémio o lugar de vice-presidente do Banco Central Europeu!

Portanto e em resumo, a estratégia do capitalismo é a mesma para os países e para os cidadãos: Retirar-lhes poder de decisão, oferecer condições apetecíveis, que progressivamente vão complicando e agravando, por pura ganância e especulação, até à situação de incomportáveis.
Depois, “xeque-mate”!

SOLUÇÕES POSSÍVEIS E (TALVEZ) NECESSÁRIAS

A primeira medida tem de ser o apuramento das responsabilidades.

Quem é responsável e por quê!

Hoje é aceite com naturalidade que toda a responsabilidade é das instituições financeiras, dos bancos, que na avidez do lucro e dos bónus milionários recebidos pelos seus gerentes, pela angariação de produtos tóxicos, arrastou toda a economia para o beco onde se encontra. Os nossos governantes teimam em dizer que a culpa é de todos, mas é apenas para que aceitemos pagar as facturas que eles não vão apresentar aos seus amigalhaços da banca, quase sempre emergentes dos seus partidos e, muitas vezes, dos seus anteriores governos! Cavaco Silva que o diga!

Ora, uma vez estabelecido o responsável, é ele que terá de suportar o ónus da situação e não os cidadãos ou os estados.

Na crise europeia, curiosamente, foram os bancos que foram auxiliados pelos estados! Que para tal roubaram salários e pensões aos seus cidadãos!

Ou seja, quando seria lícito e desejável que os bancos infectados fossem alvo de implosão e os seus gestores presos e responsabilizados pelos danos, a realidade é que o capitalismo não castiga os seus executores, antes aproveita as oportunidades para roubar mais qualquer coisa aos cidadãos, com os fantasmas do patriotismo.

Os líderes europeus, sem capacidade de resistência, sem poder nem competência, não tomam medidas, escondem-se e esperam pelo capitalismo liberal, que há-de encontrar as saídas com o funcionamento dos “mercados”.

Ora, o que se teria exigido, logo no início era:

1- Fazer uma avaliação exacta dos produtos infectados pelos agentes financeiros;
2- A sua retirada de circulação, sendo devolvidos aos vendedores;
3- Uma auditoria séria às dívidas dos es
tados, separando a dívida honesta e real da desonesta e fictícia;

4- Através do Banco Central Europeu, único com capacidade de gestão da moeda Euro, comprar toda a dívida infectada, fazendo-se cobrar das instituições infecciosas, recuperando também os bónus criminosamente pagos e todos os bens existentes;
5- Colocar os países da Zona Euro em “cota zero”, ou seja, anular as dívidas dos balancetes dos estados, transferindo-as para uma conta a liquidar no futuro, depois de encontrado o equilíbrio, em prazo muito alargado, de conformidade com as possibilidades reais de cada estado, sem comprometer nenhuma das suas metas de crescimento;
O que se fez, realmente, foi genericamente o inverso:

1- Os estados injectaram imenso dinheiro nos bancos falidos, em nome de uma estabilidade bancária que não existia;
2- Taxaram internamente os seus cidadãos, roubaram salários e pensões, aumentaram impostos, para que essa injecção acontecesse, cada vez mais e mais;
3- Assumiram sem contestação as dívidas apresentadas e prometeram pagamentos que sabiam e sabem não poderem fazer;

4- Os “donos” da Europa, Sarkozy e Merkel, obrigam os estados endividados a assinar protocolos suicidas com “troikas”, impondo, não regras para a liquidez e saída da crise, mas castigos por incumprimento! Chega-se ao cúmulo de o BCE, instrumento de estabilização financeira que devia ser, aplicar juros mais altos aos países em dificuldade do que os aplicados pelo FMI, instituição que visa o lucro directo em todas as operações!;
5- Mandam-se os países em dificuldade financiar-se nos “mercados”, com taxas de juro letais, enquanto o BCE se coloca à margem;
6- Promove-se um “perdão de dívida”, mas apenas para as dívidas aos particulares (bancos privados) e suportadas por estes, apenas se eles quiserem, voluntariamente! Os mecanismos da Europa, com o BCE à cabeça, são impedidos de “perdoar” porque os seus estatutos o proíbem. Então o que se faz? Retarda-se esse “perdão”, de cimeira em cimeira, o tempo suficiente para que os particulares (bancos privados europeus que detém dívida dos estados em dificuldade) possam vender uma parte dessa dívida ao seu principal comprador, precisamente o BCE!
7- Esclarecendo, o BCE apenas pode acudir às instituições financeiras, concedendo-lhes liquidez. Assim, comprou dívida pública grega, portuguesa e irlandesa, etc, aos bancos, porque está impedido de o fazer aos estados directamente. Ora, como os bancos venderam ao BCE, quando foi aprovado o tal “perdão” a ser concedido pelos particulares, estes já não detinham a maioria da dívida (entretanto passada ao BCE) e como o BCE não pode perdoar…
8- Mesmo os bancos que decidirem “perdoar”, vão ser recapitalizados! Ou seja, “perdoam” metade de um produto que é lixo, que não vale nada, porque é absolutamente incobrável e nunca será pago, que nunca mais seria um activo, mas recebem dos estados uma recapitalização no valor do “perdão”, em dinheiro vivo! Esse dinheiro vem dos salários e subsídios extorquidos aos cidadãos, dos impostos e taxas usurárias praticadas, dos cortes na saúde, no ensino, etc. Essa perda de rendimentos dos cidadãos e das famílias vai também inviabilizar qualquer recuperação dos estados porque não haverá consumo e portanto não haverá procura, logo não se justifica haver produção, logo não é preciso empregados, logo não haverá arrecadação de impostos, logo as metas nunca serão alcançadas, logo…


Este tema termina amanhã

Luis Pessoa

Marinhais. 2011. Outubro. 05

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