BANCADA DIRECTA: Crime nas Escadinhas dos Baldaques. 1º Capítulo. Autor: Zé

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Crime nas Escadinhas dos Baldaques. 1º Capítulo. Autor: Zé

CRIME NAS ESCADINHAS DOS BALDAQUES

Novela colectiva baseada no tema "O Detective Tempicos volta atacar"

1º Capítulo

Autor: Zé



Naquele cortiço da Lisboa Antiga, nas Escadinhas dos Baldaques, vive uma colmeia esquisitíssima...

Começa logo por não ter uma abelha-rainha, mas um abelho-rei, um tal Tempicos, um bocado carunchoso como um cavaco. Queixa-se da pobreza da vida, fazendo de conta ter-se esquecido de que foi ele quem começou a cavá-la. Manda uns bitaites sobre a crise, sem fazer nada para a combater. E remata afirmando "deixem-nos trabalhar"; ou seja, eles que trabalhem mais!

E, como se não bastasse, é unha com carne com um coelho que corre a zona, comendo tudo o que vê. A relva do jardim... já era! As flores... já as papou! E nem as verduras que vêm do mercado escapam – quase um quarto é para ele. Chamam-lhe o filho da Troika, uma senhora estranhíssima que aterrou na Portela num dia de temporal. Chamam-lhe isso como podiam chamar-lhe outra coisa qualquer (e chamam).

Na colmeia vivem mais 3 abelhas e 5 abelhos. Poucos... muito poucos. Todo o resto do enxame emigrou para outras paragens com medo que nem as asas lhe deixassem. É que trabalhavam muito e o boss, repimpado no seu trono, cada vez comia mais mel e fazia mais cera.

Ficaram os resistentes.

As mulheres... três artistas de artes diferentes:

Arnezinha, a fada da linha e do dedal, costurava calças. Mas, como a costura rende pouco, pôs por conta um tarólogo, que joga conchas e búzios na mesa da sala dela, uma vez por semana. Arnezinha, espertinha, aprendeu depressa e já se iniciou na arte de conchar e buziar por conta própria. O seu maior problema é que o marido anda no bacalhau e passa muitos meses a fio fora de casa. A dose de óleo de fígado de bacalhau que lhe deixa não dura tanto tempo e, por isso, ela se ressente do fígado e tem dias de grande fel! Mas aquilo passa-lhe... Quando já não aguenta mais, toma o remédio. Remédio santo, está à vista, pois, mal ele faz efeito, ei-la com ar feliz e a cantar no duche... Muitíssimo fixe, a Arnezinha...
Fafá (que não é de Belém, mas de Santarém) é a mulher-mistério da casa. Perita em, dar injecções (é a sua arte), vive de rendas; por isso, dedica-se à meditação zen e à filosofia tântrica. Nos intervalos, faz bolos para fora (os seus Celestes, cuja dose exacta de ingredientes só ela conhece, são um verdadeiro abono de família), numa louvável atitude de voluntariado, pois divide os proveitos com os mais necessitados do prédio. É a pessoa mais equilibrada do grupo e, como tal, a apaziguadora de conflitos; sempre pronta a aconselhar e a tratar da saúde a todos, conjugando as medicinas oriental e ocidental. É fixérrima! Fala pouco e estuda muito.

A Katinha continua a viver com o padrinho Tempicos. É a sua escrava... Quando está em casa, não pára – Katinha, faz-me o almoço; Katinha, faz-me o jantar; Katinha, dá-me um daqueles comprimidos! Ó Katinha, isto, Ó Katinha aquilo... Por isso, ela sai tanto. Às vezes, fica a namorar no vão da escada; outras, sai com os amigos, para passear de carro e dançar com um dos homens da mansão. Continua de uma loucura saudável e é superfixe! Tudo o que tem dá aos outros... Apesar de serem como o cão e o gato, há entre ela e Tempicos uma ligação muitíssimo sólida, que intriga muita gente...

Os homens da casa têm, todos, uma grande panca!
Mendinho é a personagem VIP do prédio. Figura pública, porque faz teatro e aparece nas revistas e jornais. Ensina colocação de voz à Katinha (esta continua a gritar, mas os gritos são mais artísticos) e tenta encenar Brecht. Como a senhora Troika não deixa gastar dinheiro com parvoíces intelectuais (diz ela e o coelho aprova), faz telenovelas... Quando não está, fisicamente, em casa, aparece quase sempre à noite no ecrã das TVs (sobretudo, no da Katinha). Ensaia teatro na União e esses bocados são partilhados com os amigos, que o ouvem atentamente. Alinha sempre nas farras (quando tem tempo)...

A União é a colectividade cultural da zona, motivando os momentos de grande convívio. Aí se vê teatro e variedades, se joga snooker e bilhar livre e se bebem umas bicas e uns copos de água (às vezes, ardente).
Por lá aparece Adrianov, um dos machos do prédio, um ucraniano muito bem adaptado ao estilo de vida português. É taxista e só não percebe por que razão o coelho anda sempre a roer-lhe os pneus do carro. Nas horas vagas, faz uns biscates nas casas das redondezas, pois é extremamente dotado de mãos (electricidades, canalizações, pinturas...). É uma das atracções dos saraus da União, dançando a Kalinka com a esposa e arrebatando aplausos. Um camaradão, sempre pronto a pagar umas rodadas ao pessoal, sem tirar os olhos das curvas portuguesas (tique profissional).

Salvattore é o outro intelectual do grupo. Estuda, eternamente, Letras (a maior parte do Banco) e escreve muito – versos para fados e quadras populares. Dançarino emérito, tanguista de fama e proveito, é outra das estelas da União. Figura omnipresente, até por ser o produtor de todos os eventos. Ao tangar com a Katinha, desencadeia ondas de inveja e suspiros. Katinha, por exemplo, suspira muito, mas por Salvattore ainda mais. Apesar do seu êxito, o moço é um companheirão, sempre pronto a alinhar em qualquer projecto que lhe ocupe o pouco tempo livre. Tem a difícil arte de poder fazer muito com pouco dinheiro e isso dá-lhe cabo da paciência. O seu grande inimigo é o ministro da cultura; isto é, o vice-presidente da União com o pelouro cultural. Dá-lhe uma ninharia para os espectáculos e estoira balúrdios em jantaradas e viagens com os amigos.

Como em qualquer tribo que se preze, há um líder religioso – o Cónego Novena. Dá missa, aos domingos, numa igreja próxima e só confessa mulheres. Porquê? Porque (diz ele) a Mulher é a obra-prima da criação divina e ele só ama a perfeição. Por isso, as observa minuciosamente, a ver se têm algum defeito. Companheiro de patuscadas, snooker e outras farras, é um padre modernaço (embora faça tudo para parecer o contrário). Na sueca ninguém o bate... Ele é que bate no parceiro, se este joga mal! É muito (mesmo muito) chegado à Katinha, a quem tenta ensinar Latim, para aumentar a sua cultura geral. Ela não aprende nada, mas fica muito feliz; pelo menos é o que parece, no fim das lições...
E ainda anda por lá o Zeca Maluco. Como tem estatuto de maluco, faz por merecê-lo. É que o Zeca é mesmo varrido por carros... Tem uma Giulietta vermelha, de 1964, descapotável, numa garagem cedida por um amigo. Artilhada a preceito, Zeca devota-lhe um amor eterno e intenso. Lava-a, retoca-lhe a pintura e percorre a zona, cabelos ao vento e com grandes aceleradelas, para manter o motor no ponto, enquanto faz piões para testar a suspensão. Tem numa perna os parafusos todos que lhe faltam na cabeça. Recordação dolorosa de uma tarde inesquecível, medalha conquistada no campo da honra.

Foi no Caramulo! Depois de uns dias loucura com a Nelinha, subiram os dois a rampa, no Rosso – a dar gás a fundo e traseiradas em todas as curvas. Numa delas, quase no Caramulinho, com a excitação, Nelinha deita a mão à alavanca de velocidades e tenta meter uma. Foram cambalhotas e cambalhotas... Ela sorria, feliz; ele disfarçava as dores! No dia seguinte, Nelinha foi para os States e Zeca para o hospital, tratar da perna. O Rosso foi substituído; a perna do Zeca, não – ficou coxo....
Joga snooker na União e é o ponto das récitas teatrais. Realmente, é isso que ele é – um ponto!

Levou, recentemente, as amigas da casa a um encontro de clássicos, numa Berlina pedida ao amigo da garagem. Andaram por Sintra, Peninha, Lagoa Azul, as velhas classificativas carregadas de recordações... A Katinha era a navegadora; Arnezinha cosia as folhas do Road-Book que ela rasgava em acessos de loucura; Fafá dava-lhe injecções, para a acalmar. Ainda bem que o Zeca conhecia muito bem a zona; se não, ainda a esta hora estavam no Samouco, a discutir o caminho de regresso.

E assim corria a vida naquela casa...

Até que um dia...

Nota: o próximo capítulo será publicado no Sabado 19/11 e o seu autor é o Detective Tempicos


4 comentários:

luis pessoa disse...

Boa malha!
O texto do Zé promete e quase já valia a pena só para ver o descapotável vermelho, que até nem é um Ferrari, mas é um Alfa!
Com o Zé não há cá misturas, ou é um, ou é outro!
E nós que já temos uns anitos, bem que nos lembramos de ver estes pópós a circular! Não muitos, é claro, porque custavam uma pipa de massa, mas que andavam por aí, andavam!
Vamos ver o que nos reservam os próximos capítulos...
Forte abraço e agora quero ver como é que os seguintes vão aguentar a pressão! E não vale apresentarem atestados médicos com tretas de depressões a fins, está bem?

Adriano Ribeiro disse...

Caros amigos
Aquela historia do Zeca Maluco a dar trazeiradas com o Rosso em plena ascenção do Caramulo cheira-me a esturro, porque ficou provado que quem ia com ele e deu muitas cambalhotas foi a Katinha e não a Nelinha sua mãe. O ADN foi conclusivo. Já não digo mais nada.
Ele refere a Nelinha porque sabe que a Katinha é o amor forte do Tempicos, que é um seu grande amigo e misturas não ficam bem. Ele (Zeca) preza muito o sentimento da amizade. Swings é que o Tempicos não admite com a sua Katinha.
Esperamos o que diz Tempicos. Eu seja cego se sei.....
Onaírda

Anónimo disse...

Senhor Adriano
Gostei deste 1º capitulo.
Agora ajude-me. Queria copiar este texto e não consigo. Como se faz?
Bjs para a sua familia
Maria de Lourdes Bonito. Amadora

Anónimo disse...

O coelho aqui referido ainda come relva e flores.
Há outro que conheço que agora só anda a lagosta e camarões de Moçambique dos grandes. Tem orelhas grandes mas surdas.
Luis Carlos. Marrazes
Cumprimentos para a malta do Bancada Directa

Obrigado Pela Sua Visita !