BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” (6). Salvador Santos coordenador da rubrica lembra-nos Luisa Satanela

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” (6). Salvador Santos coordenador da rubrica lembra-nos Luisa Satanela

O Teatro no Bancada Directa.
“No Palco da Saudade” (6)
Salvador Santos coordenador da rubrica lembra-nos Luisa Satanela
No palco da saudade (6)

Coordenação e texto de Salvador Santos


LUÍSA SATANELA

No dia 26 de Agosto de 1895 nascia em Itália, na cidade de Turim, uma menina que foi baptizada com o nome de Paola, mas que viria a dominar a cena teatral portuguesa do princípio do século vinte como… Luísa Satanela. Ela chegou a Lisboa com apenas quatro anos, na companhia da mãe, que era cantora lírica, e dois anos depois aparecia em cena numa ópera do Teatro Nacional de São Carlos elegante e descontraidamente vestida de marinheira, proeza que repetiria com o figurino de princesinha aos nove anos numa outra produção operática.

A sua estreia mais a sério aconteceria, porém, só aos dezasseis anos no espectáculo musical de produção italiana “O Garoto de Nápoles”, onde a mãe era cabeça de cartaz, e que percorreu diversos países da América Latina. O empresário luso Luís Galhardo viu a peça em São Paulo, no Brasil, em 1915, e ficou espantado com a beleza escultural daquela jovem italiana que falava primorosamente português e dançava e cantava como poucas, arrebatando completamente o público brasileiro com o seu notável talento e simpatia esfuziante.
Imediatamente contratada por aquele empresário, Luísa Satanela estreava-se em Lisboa no ano seguinte, ao lado da grande Palmira Bastos e do exímio actor José Ricardo, na opereta “O Reizinho”, que foi sucesso absoluto no Teatro Avenida. A sua arte de representar, aliada a um encanto especial, uns grandes olhos de fogo e um sorriso franco e contagioso, acabariam por fazer perder de amores um dos mais populares actores de sempre: Estevão Amarante, que, ao vê-la no processo de criação da bela Gigi da comédia “O Conde Barão”, em que ele era protagonista absoluto, não resistiu aos seus encantos de mulher e aos seus extraordinários dotes de actriz.

Luísa Satanela e Estevão Amarante acabariam por casar, tornando-se o “casal sensação” da época, e juntos conquistariam o público, produzindo e interpretando espectáculos inesquecíveis, como as comédias “Casta Susana” e “O Sonho da Valsa”; as operetas “Miss Diabo” e “João Ratão”; o vaudeville “Pérola Negra”; e as revistas “Salada Russa” e “Água-Pé”. É nessa altura que surge o bailarino Francis Graça, responsável por uma verdadeira revolução na dança nos palcos da revista, que coreografa grandes “fantasias” para Satanela, realçando ainda mais a elegância e a graça refinada da actriz, como foi o caso na rábula “Alegria das Hortas”.

Atenta à modernidade, Luísa Satanela aposta forte também na inovação da componente plástica dos seus espectáculos, com requintes de bom gosto e arrojo, designadamente na cenografia, onde se detectava influências do expressionismo, do cubismo e até do construtivismo. No domínio dos figurinos, ela própria se encarrega da supervisão dos desenhos do guarda-roupa e entrega a execução dos fatos de “fantasia” a Madame Martin, uma das mais conhecidas modistas da época, que até então nunca tinha trabalhado para teatro. Na verdade, ficou a dever-se a Luísa Satanela a primeira tentativa séria da modernização do teatro de revista entre nós.


Durante vinte anos, a actividade de Satanela foi muito intensa, não só como actriz, cantora e bailarina, mas também como ensaiadora e empresária, quase sempre ao lado de Amarante. Mas, certo dia, Amarante acabaria por “fugir” para o Brasil atrás de outros amores, perdendo temporariamente o teatro português um dos seus mais brilhantes esteios e Satanela o grande amor da sua vida. Desiludida e só, Luísa anunciaria, em Agosto de 1937, o seu abandono dos palcos e rumaria de seguida para o Brasil talvez na esperança de recuperar o companheiro da sua vida. Mas o destino trocou-lhe as voltas: pouco tempo depois de ela partir para terras de Vera Cruz, Amarante retornou a Portugal sem que as suas vidas se recompusessem como casal.

Oito anos depois, absolutamente só, uma verdadeira sombra do que fora, e economicamente em ruínas, Luisa Satanela voltaria a Lisboa e ao palco do Teatro da Trindade para fazer “Topaze”, na Companhia Os Comediantes de Lisboa. Reaparece pouco tempo depois nos palcos da revista para fazer “Vitória”, onde emprestaria de novo a sua elegância e o seu grande poder de comunicação. Voltaria ainda, mais tarde, nas peças “Travessa da Espera”, “Banhos de Sol” e “Passarinho da Ribeira”, a sua última aparição em cena, mas já sem chama nem graça.
O desgosto da morte de Amarante, ocorrida inesperadamente na cidade do Porto onde ensaiava uma nova revista, terá tido também algum peso na decisão de abandonar definitivamente os palcos. Sabendo-a económica e emocionalmente desfeita, o director do ex-SNI, António Ferro, seu admirador e amigo, acabaria por levá-la para o Castelo de Óbidos, como concessionária da Pousada, onde ela fixaria residência até ao fim da sua vida. Luísa Satanela, que foi rainha no teatro, morreria assim como castelã, completamente esquecida, há exactamente trinta e sete anos.

Salvador Santos
Porto. Outubro. 2011. 20

O autor desta rubrica é um homem do Teatro, conhecedor profundo das suas envolventes artísticas e administrativas. Em Portugal poucos haverão que possuam os seus conhecimentos sobre o Teatro

Desenvolve a sua actividade profissional no Teatro Nacional de São João no Porto

Bancada Directa apresenta-lhe os seus calorosos agradecimentos pela sua disponibilidade em levar a efeito esta rubrica


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