BANCADA DIRECTA: Fragmentos e Opiniões. Em mar revolto o PS está quase a ir ao fundo

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Fragmentos e Opiniões. Em mar revolto o PS está quase a ir ao fundo


Fragmentos e Opiniões.

Quando José Sócrates foi reeleito para Primeiro Ministro esta hipotese era inviavel. Agora uma hecatombe surge na penumbra


Clara Ferreira Alves chama-lhe "naufrágio"



Quando o navio se afunda convém que o capitão e a tripulação não abandonem o leme, controlem o pânico e salvem o que há a salvar. O que não convém é que desatem aos berros, cada um para seu lado. O grande barco socialista começou a meter água. Soube-se pelos jornais que a eurodeputada Ana Gomes exige uma remodelação que afaste o ministro das Finanças. Que os soaristas e outros 'sectores' socialistas andam, como Diógenes, à procura de um homem que substitua José Sócrates.

Que o candidato presidencial Manuel Alegre não tem atrás de si o partido a que pertence. Que o ministro Luís Amado terá tido solicitações para que substitua José Sócrates como primeiro-ministro de um governo de coligação. Que o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, apoia Francisco Assis para substituir José Sócrates como chefe do PS. Que, segundo o mesmo Assis, não haveria mais reuniões entre o PS, o PSD e o Governo sobre o Orçamento. E que o mesmo ministro Luís Amado está cansado e disposto a ceder o lugar num governo de coligação nacional porque Portugal está à beira de ser corrido do euro.

Esta figura é quem mais pede a remodelação

É, por grosso, um quadro político de grande serenidade, capaz de nos acalmar e, sobretudo, de acalmar os irrequietos mercados que nos esfolam vivos todos os dias, ou por causa da Grécia, ou por causa da Espanha, ou por causa da Irlanda. E nunca, evidentemente, por causa deste Portugal e deste quadro político pitoresco em que todos falam e ninguém sabe o que diz. Depois da entrevista que deu, Amado deveria ter, parafraseando Durão Barroso quando foi primeiro-ministro e teve insubordinação grave, umas horas para adoecer e 24 horas para se demitir.

Desautorizando o primeiro-ministro, o Governo e o país nas instâncias internacionais - acudam-nos, estamos a afundar-nos e não há escaleres - e contribuindo não modestamente para um retrato confuso de um país endividado e desorientado, Luís Amado teve, como ele diz, "um desabafo". Público. E nós que pensávamos que o ministro dos Negócios Estrangeiros, chefe da diplomacia portuguesa, representante da dignidade nacional, seria o último a perder a graça sob pressão, como diria Hemingway. E, mais confuso ainda, o primeiro-ministro, correndo maratonas a oriente, ou numa dessas viagens oficiais que o poupam ao vexame europeu, mandou dizer primeiro que "compreendia a posição de Luís Amado" e que a culpa era do PSD, que não queria "responsabilidades governativas". E mandou dizer em seguida que tinha ficado "muito irritado" com Luís Amado.

Será que esta figura perfila-se para suceder a Sócrates?

Na pátria, entretanto, o ministro cansado Teixeira dos Santos consulta os papéis para ver onde cortar mais 500 milhões, como se a operação pudesse ser feita sem propósito, sem missão, sem solução. Sem desígnio. Nos bastidores, murmura-se que certos ministros não existem: a da Saúde (só agora é que repararam?), o das Obras Públicas (autoextinto no cargo por falta de uso), a da Educação, a do Trabalho, e mais uns quantos de que ninguém lembra o nome, incluindo o outrora excelente ministro Vieira da Silva, desaparecido em combate.

Temos assim um Governo que deixou de governar. Um primeiro-ministro irreconhecível. E ministros cansados. Governantes que estão fartos. E uma situação financeira explosiva que nos empurra para o fundo, num remoinho de culpas e rancores. Não seria o momento mais adequado para perder a cabeça nem para assacar ao PSD as responsabilidades próprias, acusando o outro partido da falta de coesão intrínseca do partido do governo. Vagueamos numa mole resignação.

Será esta figura o pomo da discórdia?

O fim dos reinados sempre mistura a chalaça com o melodrama. O PS chega ao fim de um ciclo de poder exausto e a precisar de eleições. Esse ciclo de poder, por razões constitucionais, ainda não terminou. Existe um Governo eleito que não pode ser demitido, um primeiro-ministro que não tenciona demitir-se, um acordo orçamental entre o PS e o PSD (uma das cenas mais patéticas dos últimos anos, a das fotografias nos telemóveis) e, para mal dos nossos pecados, umas eleições presidenciais antes da hipótese de eleições legislativas. O que quer que aconteça a este Governo terá de acontecer nas urnas. Ou terá de ser Sócrates a apresentar a sua demissão, o que deveria fazer se não consegue governar nem governar os seus ministros. Ninguém quer um golpezinho disfarçado de salvação nacional. Até às eleições, o PS tem que governar. E convém que o Partido Socialista não subestime o cansaço dos portugueses, incluindo os que nele votaram.

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