BANCADA DIRECTA: Fragmentos e Opiniões. Os abutres batem as asas sobre os telhados. Quando agonizam!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Fragmentos e Opiniões. Os abutres batem as asas sobre os telhados. Quando agonizam!

Fragmentos e Opiniões
Os abutres nos telhados

Clara Ferreira Alves
O Estado é a doença como metáfora. Na agonia geral, os abutres batem as asa sobre os telhados

No princípio da vida adulta, a minha geração apanhou com a sida em cima. Ainda mal tínhamos entendido a emancipação da mulher, a pílula, a igualdade, a liberdade sexual, a educação sexual, os direitos dos homossexuais, quando estalou o medo.

No princípio, um medo rarefeito, noticias nos jornais, a cena underground de Nova Iorque dizimada, as declarações perplexas dos médicos e cientistas e, claro, a ideia de que aquilo era uma coisa que acontecia aos outros. Os moralistas do costume descarregaram a sua ira, confundindo com a ira divina, sobre os homossexuais, as prostitutas e os promíscuos, acusados de corrupção da espécie humana e castigados pelo pecado. A sida, como palavra sagrada do terror (Susan Sontag escreveu “A Doença como Metáfora”), começou longe do estado de aceitação pacífica da doença como doença e dos tratamentos que a converteram numa doença crónica em vez de um mistério.
Falava-se em sussurro, aquilo, a síndrome, e as pessoas vigiavam-se e começavam a vigiar os parceiros. Ninguém queria fazer o teste, excepto os curiosos ou os obrigados pelos hospitais e seguradoras. Os dentistas tinham medo dos doentes. O sangue era um veneno. Foi um largo, larguíssimo período de paranóia e incerteza, até as pessoas raciocinarem que a sida era do domínio da medicina e da investigação e que angariados os fundos para a investigação, o resto viria por acréscimo graças ao génio humano. A ansiedade substituíra a serenidade.

As pessoas reagem mal à incerteza. Os animais também. Um rato de laboratório reage mal à incerteza: a ordem é da ordem natural das coisas. O contrário do caos. Nessa época de incerteza cometeram-se muitos erros. Conheci pessoas que viveram aterradas com o vírus sem fazer qualquer exame. No Inverno, ao menor resfriado, entravam em pânico. À menor dor, entravam em pânico. Vivendo com medo, adoecendo do medo, confundindo sintomas, mentindo aos médicos e aos parceiros. Conheci gente que tomou a doença como expiação. Um pai de família homossexual que viu desmoronar-se a fachada social recusou qualquer tratamento ou paliativo e aceitou morrer num sofrimento atroz para se punir. Conheci gente que se converteu: ao budismo, ao catolicismo, a todas as doutrinas New Age. Conheci gente que saltou de contente quando soube tinha cancro em vez de sida, e morreu em meses de cancro. Conheci sobretudo o medo, o medo bruto e espesso que cobria toda a gente que tinha tido a ousadia, segundo os moralistas, de “prevaricar”. E o medo que fazia com que os moralistas pregassem que os doentes deviam morrer e não ser tratados pelo Estado com “dinheiro dos contribuintes”.
A situação mudou por causa de meia dúzia de heróis e altruístas, cientistas e artistas a maior parte, que resolveram estudar a sério a doença, e arranjar dinheiro a sério para a doença ser estudada. Elizabeth Taylor e Elton John foram dois destes heróis, mas a lista é longa. Em Portugal apareceu a Abraço, uma associação de voluntários que cuidava e acompanhava os doentes com sida e se batia por eles e pelo fim da descriminação, pela educação e a prevenção. Sem esta gente, sem o seu empenho e a sua coragem, e sem um Estado protector, que pagou medicamentos e internamentos, a sida teria morto muita gente e destruído o tecido social. Os moralistas só tinham uma cura: a abstinência. A Igreja não ajudou e declarou ser o preservativo uma abominação. Com esta politica, metade de África teria desaparecido. O tempo em que vivemos tem coisas parecidas. Substituam a palavra sida por crise; a crise explica tudo, todas as falhas humanas, todas as relações culpadas, todos os comportamentos, todos os erros. Todos os medos. E os oportunistas e moralistas, na esquina das crises sociais espreitam com os estandartes da razão única. Quando se perde a serenidade acredita-se em tudo. Gente que contribuiu largamente para a crise é a mesma gente que vem agora dizer que a crise é culpa dos outros, culpa de nós, culpa do Estado, culpa dos políticos, culpa de tudo o que escapa ao seu controlo milimétrico, quando o que escapou ao seu controlo milimétrico foi, precisamente, a capacidade de prevenir e remediar a crise.

Os moralistas só têm um caminho, o da conversão, o da expiação, o da abominação. Antes deles tudo estava errado e a crise é o resultado do erro. É o mesmo que dizer que a sida é o resultado do sexo. Os moralistas querem destruir o altruísmo e substituí-lo pela regra absoluta. A regra deles, bem entendido. O dogma. Seres que usaram e abusaram do Estado, ou que foram coniventes com os administradores do Estado, vêm agora dizer que a culpa é do Estado, há de destruir o Estado. Usando a Constituição. O Estado é a doença como metáfora. Na agonia geral, os abutres batem as asas sobre os telhados.

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