Mundo Policiário 13/09
Dic Roland, KO e Sete de Espadas. Sempre Presentes
Temas deste Mundo Policiário
1- Na rubrica “Conheça os nossos autores policiários”, apresentamos a solução do problema “O mistério do volume nº 5” da autoria de Dic Roland.
2- As nossas recordações; fotos do II Convivio Anual da Tertúlia Policiária da Liberdade que decorreu em 2006. Objectivo: para que os novos policiaristas nos conheçam melhor e que apareçam.
3- Referência ao próximo V Convívio Anual da Tertúlia Policiaria da Liberdade a realizar a 17 de Maio em Cabanas de Viriato
4- Uma referencia literária escrita por José-Alain Fralon sobre a figura de Aristides de Sousa Mendes. Um heroi português.
Tema nº 1
Solução de:
O MISTÉRIO DO VOLUME Nº 5
Autor: Dic Roland
De posse do papel encontrado por dona Zulmira, é óbvio que a consulta da enciclopédia se torna indispensável.
Ali encontraremos, decerto, o material necessária para a elaboração do trabalho escolar de um dos três rapazes que, na sexta-feira, visitaram o engenheiro, visto que o tema escolhido por cada um já era do seu conhecimento.
Não foi difícil verificar que, no 5º volume, havia possibilidade de recolher informações úteis. Flávio, que optara pela poesia medieval, dispunha de um suculento artigo sobre cantigas de amigo, de amor e de escárnio e maldizer; e até, curiosamente, sobre o jogo do bridge! Fernando e Francisco, mais inclinados para a época clássica, podiam saciar-se com excelentes entradas sobre Bucolismo e Luís de Camões.
A todos caberia, portanto, o pouco honroso título de suspeito. Mas nem todos, como adiante se verá, tiveram o ensejo de voltar mais tarde ao escritório do engenheiro.
É por isso que Flávio está fora de causa; a sua pasta de cabedal poderia suscitar alguma dúvida (só ele é que citou os dois livros de bridge, que ninguém viu…), se o engenheiro não tivesse afirmado que, após a saída dos rapazes, não notara qualquer falta na estante.
Já Francisco está menos à-vontade porque esteve no escritório, onde ajudou a mãe na recolha da roupa; porque foi ele quem descobriu a chave da porta do terraço, em cima da secretária; porque, com essa mesma chave, poderia lá voltar mais tarde, a coberto da noite. Mas acontece que, naquele mesmo sábado, Francisco atendeu o telefonema do engenheiro, a prevenir do seu regresso a casa no dia seguinte. Razão suficiente para que ele repusesse o livro no seu lugar, caso o tivesse retirado, tanto mais que poderia utilizar a chave do terraço, que estaria em seu poder, ou a chave confiada a sua mãe.
E Fernando? Sabemos que voltou ao escritório pouco depois de ter saído com os amigos, a pretexto do telemóvel; mas esse foi o estratagema utilizado: o telemóvel fora “esquecido” intencionalmente, ou ia escondido no bolso e transportado bem à vista, na mão, à saída de casa. Uma vez sozinho no escritório, retirou da fechadura a chave do terraço e guardou-a convenientemente.
O mais difícil estava feito! Nessa mesma tarde obteve uma cópia e à noite, pelas traseiras (as duas casas são geminadas…), entrou no escritório, retirou o livro e saiu. Não se esqueceu de voltar a fechar a porta com o duplicado da chave. Quanto à chave original, preferiu deixá-la sobre a secretária, e não na fechadura, por temer não conseguir abrir a porta quando ali voltasse para devolver o livro.
O inesperado regresso do engenheiro, que Fernando supunha ausente até quarta-feira, impediu essa devolução em tempo oportuno. E o papel que, inadvertidamente, abandonara na estante ao retirar o volume, orientou a investigação no sentido de relacionar o pequeno extracto dactilografado com algum assunto ali desenvolvido.
Bastaria para isso, conhecer o mote a que corresponde o primeiro terceto; mote que serviu para uma belíssima e muito conhecida écloga de Camões. Mas que também foi glosado por outro grande poeta, Francisco Rodrigues Lobo, num poema bucólico de rara beleza, que a seguir se transcreve:
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura
Vai formosa e não segura.
A talha leva pedrada
Pucarinho de feição,
Saia de cor de limão,
Beatilha soqueixada;
Cantando de madrugada,
Vai formosa e não segura.
Leva na mão a rodilha
Feita da sua toalha,
Com uma sustenta a talha,
Ergue com outra a fraldilha:
Mostra os pés por maravilha,
Que a neve deixam escura;
Vai formosa e não segura.
As flores por onde passa,
Se o pé lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem cor
E de vergonha com graça.
Qualquer pegada que faça
Faz florescer a verdura;
Vai formosa e não segura.
Não na ver o sol lhe val,
Por não ter novo inimigo.
Mas ela corre perigo
Se na fonte se vê tal.
Descuidada deste mal,
Se vai ver na fonte pura;
Vai formosa e não segura.
Quanto às respostas exigidas:
1) Obra (ou obras) a consultar: qualquer antologia que inclua as melhores éclogas de Francisco Rodrigues Lobo; na entrada “Bucolismo”, do 5º volume da Enciclopédia, faz-se referência a esta écloga do poeta seiscentista, com a transcrição do famoso mote, anteriormente glosado por Camões;
2) O autor do “roubo” foi Fernando;
3) A forma como agiu deve ser correctamente imaginada, em função dos dados disponíveis.
(publicado na secção “Policiário” do jornal “Público” de 27 de Abril de 2003)
Agradeço ao amigo Daniel a permissão deste trabalho a partir dos seus ficheiros. Ficheiros que são uma autentica Biblia deste nosso Policiário.
O apontamento biográfico de Francisco Rodrigues Lobo, que foi a inspiração do saudoso Dic Roland para a feitura deste problema.
Francisco Rodrigues Lobo nasceu em Leiria, em 1580, numa família de cristãos-novos.
Frequentou a Universidade de Coimbra, onde se diplomou em Leis (direito). Foi aí que começou a interessar-se pela literatura e a escrever as suas primeiras composições poéticas.
Concluídos os estudos voltou à sua terra natal, onde tinha algumas propriedades. Deslocava-se com frequência a Lisboa, mas regressava com prazer à tranquilidade do campo, no espírito da "aurea mediocritas" horaciana.
Ao que parece, manteve ao longo da sua vida relações bastante amistosas com algumas famílias da alta nobreza, principalmente o Marquês de Vila Real e o Duque de Bragança, pai do futuro D. João IV.
Faleceu em 1622, vítima de um naufrágio no rio Tejo, numa viagem de Santarém para Lisboa.
Como era frequente na época, escreveu em português e castelhano. Numa primeira fase, Rodrigues Lobo foi influenciado pela literatura espanhola, mas depois virou-se mais para Camões e Sá de Miranda.
Tema nº 2
As nossas recordações . Fotos do que foi o II Convivio Anual da Tertúlia Policiária da Liberdade, que se realizou no Museu Nacional do Teatro em Lisboa em 2006. A inserção destes fotos são para que os novos policiaristas,(já aqui referidos e que não dão sinal de vida) nos possam conhecer e que apareçam.
Eis as fotos:
Vai começar a distribuição de prémios. Nove introduz a situação
Foto histórica: Antonio Raposo, Zé-Viseu e o saudoso Dic Roland trocam impressões
Relíquias do policiarismo e que são um exemplo para os mais novos, que agora parecem que estão a parecer.
O Dr. José Carlos Alvarez dá as boas-vindas ao policiaristas
O cenógrafo Fernando Filipe, um elemento da dupla "Bufalos Associados" e o saudoso KO trocam impressões e cavaqueiam. Policiarismo é o tema central.
3º Tema
Próximo V Convívio Anual da Tertúlia Policiária da Liberdade
Nunca será demais recordar o que vai ser este evento.
Os dados estão lançados:
17 de Maio de 2009. Cabanas de Viriato. Distrito de Viseu. Em simultâneo será homenageado Aristides de Sousa Mendes. Patrocínio da Junta de Freguesia de Cabanas de Viriato. Está aberto um concurso de contos sobre a figura de Aristides de Sousa Mendes, aberto a todos e especialmente para os alunos da Escola Básica Integrada de Cabanas de Viriato e que está a provocar grande interesse.
Mundo Policiário conta apresentar reportagens e entrevistas durante este Convivio.
4º Tema
Um apontamento literário sobre Aristides de Sousa Mendes a partir de José-Alain Fralon.
Capitulo 7
"Somos todos refugiados"
Obrigado a reformar-se aos cinquenta e cinco, sem trabalho, tendo ainda quase toda a família para sustentar, nem assim Aristides de Sousa Mendes desanimou. Acabava de acontecer outra coisa, que lhe traria alegrias e problemas: o nascimento, a 19 de Outubro, na Maternidade Dr. Alfredo da Costa em Lisboa, de Maria Rosa, a filha que concebeu com Andrée Cibial em Bordéus. A pequena Maria Rosa foi entregue aos tios que residiam em Riberac.
Aristides de Sousa Mendes, seguro das suas razões, continuou a pleitear a sua causa junto das autoridades do País. Como se ainda não tivesse provas da enormidade do rancor e da indiferença da Salazar…….
Enquanto esperava que o Tribunal Administrativo se pronunciasse, Aristides de Sousa Mendes, cuja situação financeira era cada vez mais catastrófica, enviou, em Dezembro de 1940, um novo telegrama a Salazar. Evocando estar “absolutamente desprovido de recursos” para prover às necessidades da sua família “uma das mais numerosas de Portugal”, pedia que Salazar se dignasse, com a máxima urgência, mandar entregar-lhe as quantias “a que tem direito pelas Leis em vigor”
Não obteve resposta de Salazar……
A 19 de Junho de 1941, Sousa Mendes recebeu uma má noticia, apenas mais uma: o Tribunal Administrativo tinha rejeitado o seu recurso. Principal motivo justificado. Não era da competência de um funcionário público decidir quais as ordens a que devia obedecer…..
Nada a fazer….
O ano de 1942 começou a ver a tragédia a transformar-se num incêndio mortal, sangrento e desumano. Com destino a Auschwitz partiram de Drancy os primeiros comboios cheios de judeus. Cada deportado era mais uma razão a favor dos que tinham desobedecido. A “solução final estava em marcha”. Começava o holocausto. Em Lisboa castigava-se um homem por ter concedido vistos fora das horas de expediente, para salvar milhares de vidas humanas.
“In Aristides de Sousa Mendes. Um herói português. Autor José-Alain Fralon. Editorial Presença. 1999.”