BANCADA DIRECTA: «Jogo sujo»

terça-feira, 30 de junho de 2009

«Jogo sujo»

Há um imenso futebol para lá da hora e meia de cada jogo. De longe em longe, a tribo do mais sedutor e empolgante desporto colectivo fica sobressaltada com o aparecimento de relatos de experiências vividas, traduzidas por ensinamentos que ajudam (ou não...) à interpretação desse tempo circundante aos noventa minutos verdadeiros. Fernando Mendes, antigo internacional e único futebolista com passagem pelos cinco clubes campeões de Portugal (Sporting, Benfica, Belenenses, Boavista e F.C. Porto), acaba de editar o livro «Jogo Sujo», uma espécie de acusação sobre as grandezas e misérias - mais estas do que aquelas... - com as quais conviveu ao longo de uma carreira tão longa quanto tumultuosa.


Não me compete avaliar da intenção do autor nesta sua confissão - sentida, dolorosa, perturbadora, sem, no entanto, reivindicar em nenhum momento qualquer vitimização. Parece-me irrelevante o «timing» escolhido por Fernando Mendes para expor a sua verdade, depois de anos a fio a chafurdar - sem resquício de arrependimento, como confessa - naquilo que hoje denuncia. Um depoimento com a configuração odiosa daquele que Fernando Mendes expõe, mais do que polémico, é gerador de reflexão, assentando esta em dois planos:

- como foi possível a aceitação de expedientes tão rascas, atravessando tantos jogadores, intérpretes de um silêncio cúmplice que, agora, seguramente vão querer manter?

- será possível o futebol actual (ainda) albergar este tipo de actuações tendentes a enganar a verdade e a destruir a alma dos intérpretes que a aceitam?

No seu «Jogo Sujo» - como ele o descreve, miseravelmente nauseabundo! -, Fernando Mendes fala de TUDO o que viveu, embora, previsivelmente, por razões de prudência judicial, omita o nome de alguns clubes e de quem o incentivou e conduziu através do «doping», embora a sua identificação não se afigure minimamente embaraçosa. Embora o livro aborde outros temas melindrosos - prostitutas nos estágios, favorecimento das arbitragens, ameaças, etc. - é sobre o «doping» que Fernando Mendes se debruça com maior minúcia, explicitando modelos de actuação, produtos consumidos, efeitos da dopagem. Sem ser exaustivo, retiro deste capitulo alguns salpicos:


- «... assumi o risco e tomei «doping» de todas as vezes que me foi dado. E quem recusasse tomar alguma coisa, provavelmente ficaria sem jogar. Nunca vi um único colega insurgir-se perante essa situação»:

- «... um estende o braço e é picado, o outro abre a boca e é medicado. Passados uns minutos vão lá para dentro cheios de força e raiva»;

- «... cada jogador tomava a sua dose personalizada, mediante o seu peso condição física do momento ou última vez que tinha ingerido a substância. Havia necessidade de gerir os ciclos de cada atleta para atenuar o risco de ataque cardíaco provocado pelo excesso de droga»;

- «...Havia jogos em que entrávamos no balneário e perguntávamos: «onde está o milho?» Pouco depois parecia o massagista com uma bandeja recheada de seringas para dar a cada um»:

- «...uma pequena vacina, do tamanho de uma meia unha, chamada Pervitin. Espetavam-nos aquilo no braço, mesmo no músculo, e dava para correr e saltar durante quatro jogos de seguida»;

- «... no final de um jogo em que tínhamos usado «doping», chegávamos ao balneário e pedíamos a «anti-raiva»: uma cápsula que nos era dada para baixar a dose que tínhamos tomado anteriormente»

- «... Se um jogo fosse às quatro da tarde e se nos dopássemos às 15h.45, muitas vezes, mesmo com a anti-raiva, ainda dava para correr até à meia-noite. Ou então dava para o inverso - depressão, falta de paciência, isolamento;

- «... em certos treinos, víamos um ou dois juniores que apareciam para treinar connosco. Esses juniores não estavam ali porque eram muito bons ou porque tinham que ganhar experiência. Estavam ali para servirem de cobaias a novas dosagens»

- «... um elemento do corpo clínico dava cápsulas ou injecções com composições ilegais a miúdos dos juniores. Essas experiências não podem ser feitas com futebolistas seniores que jogam todos os domingos e que são os principais activos do clube»;

- «... neste sistema demente, o jogador é carne para canhão. «está cansado? Então droga-o. Falta pouco tempo para acabar e estamos a perder? Então, droga-o. Precisamos de marcar um golo urgentemente? Então, droga-o. E se morrer? Que se f...» O depois não interessa.»

Ao invés do que uma apressada leitura possa sugerir, enquadrando o «mea culpa» de Fernando Mendes num atoleiro de especulação e sensacionalismo, prefiro pensar na infinitude de tristeza que este «Jogo Sujo» pode proporcionar a quantos amam o futebol. Será a partir desta mentira miserável exposta por Fernando Mendes que se poderá despejar alguma verdade sobre o apaixonante jogo? Mesmo pensando que as vitórias químicas já pertencem a esse passado - porventura e, desejavelmente, longínquo -, nem por isso o «Jogo Sujo» deixa de ser arrepiante, talvez até para quem sobre ele se deva debruçar com outras responsabilidades e alcance investigatório. Se calhar, o dr. Luís Horta (CNAD - Conselho Nacional de Anti-Dopagem) tem tido razão na luta - para alguns odiosa, obsessiva, doentia e obstinada... - que tem travado. É importante tornar o jogo limpo.


por: Joaquim Rita no site RTP

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